O que faz um farol

Saindo com o carro, já penso no farol. Estou sozinha, espero que não esteja fechado. O cruzamento ao lado do mercado é desconfortável. Um bom ponto para reforçar a culpa. Logo após as compras, nem 50 centavos para o velho de muletas? Como não recompensar os malabarismos malfeitos da criança? E quanto ao jovem esforçado que todos os dias chega cedo para vender doces?
Sinal vermelho. É claro. Fecho os vidros. Não sou um monstro, quando passam por mim, ensaio um não com expressão sentida. Ao esverdear da luz, abro os vidros e aumento o volume da música que fala de amor.

O mundo é mesmo um lugar sem graça.

Chegando à garagem, desligo o rádio, se não me concentrar, o carro vai ficar ainda mais ralado. Fecho os vidros caso algum vizinho esteja por perto. No subsolo, tudo é escuro e as luzes nunca se acendem. Pelo menos não para mim.

Subir as escadas é trabalhoso, devido à falta de espaço, os degraus são altos demais.

Entro na casa abafada apesar das janelas abertas. Quero conversar, mas não há o que dizer. Não consigo ler, olho o celular insistentemente à procura de mensagens. Nada.

A citação postada no Facebook é um pedido de atenção, o próximo passo são pequenas confissões. Melhor comer alguma coisa.

Depois do jantar, jornal. Sangue, corrupção, classe média, impostos, animais fofinhos e brincalhões. Sangue. A sensação de desamparo se perde ante as fortes emoções dos últimos capítulos da novela.

Não. Prefiro me apegar ao vazio que não vem de fora.

O teto do quarto é sujo e cheio de pernilongos. O chão está quente, a cabeça e as costas doem. Ao lado, um tufo de poeira sendo perseguido pelos olhos do gato esparramado pelo corredor. Até ele prefere não se mexer.

Tento pensar, mas só consigo sentir. Não, não chega a isso. Nem a isso. Um nó no peito, costumam dizer. Já ouvi falar em obsessão, inveja, trabalho. Até de cachorro preto já chamaram. Coitado do cachorro. Depressão, bile negra, melancolia. Frescura, de acordo com meu querido pai.

Minha irmã só se preocupa se for de longe. Minha mãe pede ajuda sobre como ajudar. Eu não entendo. Talvez não deva ser entendido.

Ninguém vê, mas todos sabem qual é a causa. Eu estou apaixonada. Sou egocêntrica. Não me amo o suficiente. Me amo demais. Sou tímida. Não, não sou tímida. Ponho muito peso nas coisas. Penso demais. Não penso direito. Talvez.

Fica tarde, vou para a cama. Os pensamentos são os mesmos. Minto. Não são pensamentos. Não sei o que são. Não durmo, engulo o comprimido, ganho duas horas de olhos fechados e uma dor de cabeça.
É assim.

A vida sempre sem graça de Sandra

Tinha sido um ano bom. Não ficara o tempo todo trancada dentro de casa. Finalmente superara o medo de dirigir, há oito meses usava o carro quase todos os dias. Com oito anos de carta, era uma motorista inexperiente. Não importava, agora se virava no trânsito.

Sandrinha era muito tímida. Atividades as mais banais a torturavam. Parecia uma adolescente. Morria de vergonha de perguntar o preço das coisas. Pedir uma pizza, então, era tarefa impossível. Era incapaz de manter uma conversa por mais simples que fosse. Nem sobre o tempo conseguia falar. Sentia-se sempre inadequada.

Não havia jeito. Era a vida. A vida sempre sem graça de Sandra.

Um dia a inadequação se intensificou. Não pega bem ir ao trabalho depois de três dias sem tomar banho. Nem chegar ao escritório de chinelo. Cada vez mais esquisita, Sandra foi obrigada a procurar um médico. O primeiro remédio não funcionou, o segundo também. O terceiro, depois de três doses aumentadas, surtiu efeito. Vieram insônias e enxaquecas. Tudo bem, agora Sandrinha sempre calçava sapatos apropriados.

Depois das sete pílulas diárias de três espécies diferentes, Sandrinha estava em paz. Nunca chorava mais que duas vezes por semana escondida no banheiro do escritório. Sentia-se forte. Deixava o serviço em dia. Começou até a usar maquiagem. Todas as manhãs rebocava o rosto na tentativa de esconder rugas que ainda não se tinham formado.

Quase conseguia sorrir. Num domingo de tédio resolveu mandar uma mensagem para uma amiga do ensino médio. Não, não. Amiga é um termo muito forte. Uma colega do ensino médio. Logo se arrependeu. Tarde demais. Iriam se encontrar na semana seguinte.

A tortura durou sete dias. Na adolescência, não era nada demais. Não tirava notas ruins. Nem boas. Não era popular. Não bebia muito. Não fazia parte de nada. Não fazia nada. A colega também era dessas. Sandra soube que se casara. Tinha feito alguma coisa. Trabalhava também. Devia ganhar mais que ela. Sobre o que conversariam? Não teriam nada em comum. Nem antes tinham. Eram apenas as sobras.

No dia do encontro acordou com palpitações, sem falar na dor de barriga. Sandra seria lembrada de todos os seus fracassos. A colega não era um pouco sem graça. Muito comum, na verdade, mas ultrapassava Sandra em todos os sentidos. Sabia que se sentiria mais feia, mais chata, mais burra e mais inútil que normalmente. Tentou imaginar uma desculpa boa. Não teve criatividade para tal.
Marcaram na catraca da estação. Aquele lugar tão amplo e tão lotado deixava Sandra tonta. Chegara 20 minutos antes da hora, tinha esquecido o hábito da colega de sempre se atrasar, e estava impaciente.

Meia hora depois, Sandrinha sorriu. Quase não enxergava a jovem de outrora na mulher caminhando em sua direção. Ela estava gorda. Almoçaram, andaram pelo shopping, tomaram sorvete. Relembraram histórias nunca vividas. Durante toda a tarde Sandrinha sorriu. Tati, era esse o nome da colega, estava casada e tinha dois filhos. Atendente de telemarketing, trabalhava fora por meio período. No restante do tempo, servia ao marido e às crianças. Mentia-se feliz e, a cada mentira da outra, Sandrinha se sentia mais forte, mais capaz, mais cheia de vida. Nunca uma tarde havia sido tão revigorante.

Na semana seguinte, ao receber o pagamento, Sandrinha foi ao cabeleireiro e pediu um corte que diminuísse o frizz de suas mechas indefinidas.

Saiu satisfeita, não bonita. Sua confiança só aumentava. Olhando uma vitrine próxima cobiçou um vestido. Ele era rosa-choque com grandes flores verdes pintadas com primor. Era um tubinho. Sandra hesitou, aquela roupa vibrante não combinava com seu jeito bege de ser. Ia embora e então se lembrou. Gorda. Tati era gorda. Era gorda e usava vestidos curtos e saltos altos. Comprou a peça e a usou para ir ao trabalho.

O sucesso fez com que se sentisse encorajada. Notou olhares. Um segurança do prédio a fitava descaradamente. Sandrinha decidiu que era hora de conhecer alguém. Não podia mais negar sua sexualidade. Era um ser sexual. Precisava de calor. Precisava de sexo. Não era ingênua, sabia que sua beleza não faria com que fosse cortejada. Teria que tomar a iniciativa.

Passou a tarde no banheiro do escritório tentando expelir seu medo de rejeição. O desespero entrava e saía em ondas violentas que se formavam em seu abdômen. Não podia murchar antes mesmo da primeira flor. Pensava e pensava, buscando uma solução. Superar a timidez não soava como realidade possível.

Voltou à mesa do escritório. Desanimada, desgostosa, desesperançada. Lembrou-se do vestido. Tão lindo. Tão perfeito. Não. Não podia desistir. Vasculhou a internet à procura de uma salvação. Psicólogos. Sites de relacionamentos. Florais de Bach. Praias de nudismo. Rituais de umbanda. Simpatias do pai Didi. Nada disso servia. Cansada, com fome e dores nas costas, Sandra estava prestes a desistir e se jogar na cama com seu melhor amigo, um cachorro de pelúcia chamado Ted, quando leu uma sugestão interessante. Aulas de teatro.

Passou uma semana entre sonhos de estrelato em horário nobre e períodos no mais privado dos cômodos de qualquer residência ou estabelecimento comercial. Por fim decidiu-se. A escola, ou melhor, a academia de teatro era caríssima. Sandra não se importou, sabia que nenhum valor era alto demais quando se tratava de buscar a felicidade. Pagou uma parte no débito e o restante, parcelou no crédito. As aulas começariam no mês seguinte.

Sandrinha brilhava, não só devido ao óleo acumulado em sua face, mas também ao gozo futuro e imaginado. Cantava alto enquanto dirigia pela marginal. Estava feliz. Tão feliz que não viu o carro da frente parar de forma brusca. Nem o caminhão se aproximando de seu pequeno Fiat.

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Mahana Pelosi Cassiavillani

nasceu em 18 de agosto de 1983, em Santo André (SP). É formada em Letras pela Universidade de São Paulo. “Nunca publiquei nada, mas escrevo intermitentemente desde os setes anos.”

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