EL VATE

Já bem moço descobriu a vocação, que depois virou ardência, alma, fé… Ainda não profissão, mas isso por mero impedimento cronológico. “Quem almeja e planeja recebe a vida numa prateada bandeja”, sustentava Pedro, na máxima que sustentava sua existência. E ele, com atrevimento incomum para os meninos de sua idade, planejou um roteiro de sucesso em busca do reconhecimento que certamente mereceria, dali a alguns anos, nas rodas de bar, conversas de comadres, bate-papos informais, brigas e tiradas irônicas nos estabelecimentos comerciais, fuxicos, fofocas, falatórios em almoços, jantares, cafezinhos, e por que não em brunchs, ­lunchs, chás-da-tarde e cafés-da-manhã?… reconhecimento aplicado e nada teorizado, semeado como o vento, sem que as pessoas se apercebessem das citações, referências involuntárias que avassalariam o cotidiano da cidade, do país!, Pedro em todas as bocas, Pedro em parágrafos, frases feitas, rarefeitas, refeitas, malfeitas, e o começo dessa empreitada – e não sonho, porque planejada – se dava ali mesmo, no Mundo Novo News, o semanário da escola.

Poucos anos tinha Pedro, tempo em que a audácia é mistura de amigo e desconhecido, um intruso no corpo que lhe esquece a existência, e por isso dá-lhe fomento ingênuo. Pedro era audaz, e num rompante de bravura deu para publicar suas criações proverbiais (sim, provérbios!) sob um heterônimo todo significante, todo imposição respeitável, assinando as colunas breves, tão breves que não se sabiam colunas ou disparates, com a chancela El Vate. E, aproveitando as vantagens de ser dois em um no mundo escolar, Pedro de certa forma agenciava El Vate para que comentários sobre a coluna no Mundo Novo fossem alvoroçados, pesquisando a opinião dos ilustres camaradas. Então publicava-se:

Até o Fim tem um meio de vida.
El Vate

E Pedro corria a alastrar o provérbio, com seu jeito iluminado de construir situação ideal.
– Tarefa! Tarefa pra casa! Todos, atenção! Exercícios 13 ao 16, feitos com…
– Mas, Dona Solange! – e Pedro reforçava, buscando o ouvido de toda a classe: – Mas, Dona Solange! Olha só, por que a gente tem que estudar, fazer exercício, esse tipo de coisa?
– Vôôôte! Essa agora, Pedro? Oras, pra ser alguém na vida tem que fazer os exercícios 13, 14, 15 e 16, e todos os exercícios do caderno, ou vira…
– Ou vira igual o pai do Valtinho, aquele largadão? – perguntava o menino Pedro, armando a cilada.
– Ou não vira é nada, vira mesmo um sem meio de vida, desempregado, sem comida, sem família, sem alegria, sem dente, sem…
Ali Pedro já sorria feliz e ao fim acrescentava garboso o mais novo ditado, precedido por um “como diz”, a fim de dar os justos créditos e render homenagem:
– E não é, professora? Pois como diz El Vate, até o Fim tem um meio de vida!
Depois passava a semana esperando um uso alheio, despretensioso. Queria se ouvir na boca do povo em ocasiões desimportantes e pra isso forçava mais um ou outro assunto. Enfim, publicava-se:

Quem pechincha o preço vende ao avesso.
El Vate

Dali a pouco era ouvir o menino pra ouvir o provérbio, repetido ao longo da semana, nas mais variadas posições discursivas.
No Menezes do Doce, onde a criançada corria louca atrás de um Puá azedo, queria logo saber:
– Ô Menezes! viu, Menezes?! Menezes!
O pobre homem se enrolava com a impaciência, errava o troco e esbravejava:
– Criatura, avexe não, diz logo duma vez que é que foi!

– Ô Menezes, vê só, diz aqui pra mim. – Pedro corria o olhar pelas crianças que compravam e retomava: – Diz se uma delas aí tem faro pra negócio, Menezes, quem daí vai ser bom na venda, assim igualzinho a você?
– Ê, menino, que história mais sem pé nem cabeça, igualzinho a mim vai ser duro achar – e ria contente. – Agora, se apostasse num desses gurizinhos metidos, ia com o Ricardinho, pilantra que chega a me roubar quando num vejo, e me rouba também numas conversinhas que vou caindo… Esse negocia, viu…
E as portas se abriam:
– Ah, Menezes, é por que quem pechincha o preço vende ao avesso. Você não lê El Vate, não?
Brejeiro, o menino saía contente e flutuando entre as nuvens. Pedro planejava e almejava com afinco, esperançoso da recompensa que viria, ah, se viria, tão logo as pessoas se dessem conta da valorosa contribuição das colunas de El Vate, e se esmerava nos construtos de ditos escolares, que evoluiriam para ditos familiares, atingindo, por fim, a categoria mor e irreprimível de ditos populares. Logo, publicava-se:

Mentira dá certo se o cabra é esperto.
El Vate

E se esforçava pra ser ouvido na boca alheia, peregrinando situações que, para o bem pensado provérbio da semana, multiplicavam-se por toda a escola, da conversa miúda das meninas ladinas e meninos fuxiqueiros até as graves desculpas pras tarefas perdidas, sumidas, comidas, sequestradas justo antes das aulas: todos pediam diariamente o socorro de uma boa mentira. Ainda assim, Pedro não emplacava, e remoía sozinho a culpa por mais uma semana que escorria e junto dela levava suas invenções eternas. Sim, eternas!

Sujeito àquela fase da vida que comove até mesmo o mais célebre inventor, no vácuo estéril, Pedro decidira dar uma guinada em sua carreira e tentar criações mais popularescas, ao gosto dos estudantes, de modo que pudesse elevar, ao menos um degrauzinho na escala da estima escolar, as máximas de El Vate. De Dona Solange arrancou-lhe o slogan de todos os dias, que a professora insistia em escrever no canto direito do quadro-negro, antes de começar suas lições: “O giz é a espada do sábio”. E meteu-lhe uma tirada sarcástica, digna de risadinhas dos estudantes, amantes maiores das pequenas transgressões. Publicava-se:

Se giz é espada pra sábio, recreio é escada pro Reino dos Céus.
El Vate

Mas nada. Simplesmente nada.

Restou remudar estratégia, re-rever rumos, enxergar com humildade os deslizes. A culpa, decidiu, era de seu interlocutor. Precisava cativar os imortais, não mais o estudantezinho de corredor, o corre-atrás, o puxa-saco, o cu de ferro, precisava chegar nos riquinhos descolados, donos de quase tudo de valor, nos bons de bola, nos zé ruelas mal-encarados, donos da intimidação violenta e da mais escancarada roubalheira no jogo do bafo. Ter o coração e a mente desses populares, eis o sucesso. Foi certeiro: a corrupção no bafo, traduzida pela proibitiva cusparada na mão, que trazia benefícios grudentos aos corruptores, era assunto de primeira ordem nos intervalos. A maioria fazia que contestava, mas depois caía nas porradas duns quatro ou cinco ladrões brutamontes, perdia as figurinhas e se aquietava. Era passar a semana pra voltarem as discussões. E Pedro via tudo isso de longe, olhar observador – que assustava quando puxava praquele olhar psicopata –, e foi mesmo certeiro. Quis mudar a história à canetada, um gesto dos mais nobres, gigantesco em simbolismo, homologando a roubalheira no provérbio que seria um pequeno corta-caminho junto aos populares, monarcas das rodas de conversa. Então, publicava-se:

No bafo é distinto: mão suja e jogo limpo.
El Vate

Triste indiferença…

Foi por esse tempo que as pretensões pedrianas passaram a diminuir e se tornar ainda mais modestas. Bastava chegar em qualquer aluno, que fosse apenas num do seu ano, isso e apenas isso. Até mesmo um comentário largado de um amigo bastava, mas nem isso, nem isso.

Quando a derrota bate à porta, somos iguais, visto que somos humanos, e seria injusto esperar de Pedro, por ser mero herói de enredo, comportamento diferente daquele que adotaríamos e adotamos todos nessas horas de desengano profundo, quando o que nos resta é apenas aquela mulher de olhar torto que tanto apraz, aquela mulher que, antes de tudo, nos pariu.

Dita, por ser Dona Custódia, que deu em Custodita pras comadres, era mãe das melhores e uma usina ambulante de conselhos, dos bons. E Pedro da Dita dos Conselhos, que assim falavam dele os mais velhos, tamanho o reconhecimento das artes da mãe, Pedro peixinho-filho-de-peixe, que rabiscava pitacos com notória inclinação de conselho futuro, ora, pois Pedro tomou um chá de inspiração nas palavras de El Vate e largou mão do jogo limpo pra recorrer ao olho torcido de amor de Dona Custódia dita mãe Custodita.

O menino conhecia o roteiro lengalenga das pessoas que se avolumavam na casa de sua mãe atrás de umas caridosas palavras. Repetiam elas a mesma pregação, e ao final Dita pronunciava o ensino usual, pedindo “um pouquinho de paciência, minha filha, um pouquinho de paciência”. Também a resposta era a de sempre, igual, com as infelizes repetindo que era tão difícil, Ditinha, tão difícil que dói, Ditinha, como posso, hein?, e o ponto-final vinha com aquele “hmm hmm hmm…” que Custódia deixava no ar enquanto virava as costas e tornava pras suas coisas de fazer. Em silêncio, Pedro escutava tudinho e depois se perguntava o porquê de tanta choradeira se era só explicar direitinho pra essa conversinha morna acabar de vez, hã hã, que a senhora tem esse tempo não. Pois orquestrou um provérbio só pra mãe Dita, de uso diário, proveitoso, prático, palha de aço, pra qualquer cenário. Enfim, publicava-se:

Se sorte ajudasse o ligeiro, coelho não perdia o pé pra chaveiro.
El Vate

E agora vá, Pedro, vá abraçar Ditinha dos Conselhos, corra pra essa quentura que lhe pertence de antes, de sempre, e mostre o Mundo Novo News, El Vate, o provérbio apetitoso, diga que é você Pedro quem fez, diga logo de cara, que falar dum El Vate pode dar susto em mamãe, explica depois que é um heterônimo todo significante, agora você precisa é pegar o Mundo Novo e correr pra casa, isso, bem bolado, Pedro, aproveite o recreio que ninguém nota não essa escapadela, talvez mãe Ditinha ache feio no instante, mas aproveita essa escada pro Reino dos Céus e atalha no tempo pra fazer mamãe sorrir o quanto antes que mamãe merece um afago de antigo, de puro merecimento.
E lá foi Pedro. Abençamãesióra e mostrou o boletim com uns tamanhos tremeliques de ansiedade que Custódia imaginou doença grave. Mas não deu nem pra perguntar “quéisso mininu” que Pedro desembestou a falar numa abalada, berrando como se discursasse do longe de uma montanha pras ignorâncias do sopé, e continuaria a ouvir sua voz por bom tempo não fosse mãe Dita pegar assustada na cara do menino e enfim interromper:

– Quéisso mininu?! Tá chilado?

– Aiai, mamãe Ditinha, que tapa assim dói mais é dentro… – e Pedro recobrou um pouco de si. – Só queria dizer como dizia que eu fiz uma coisa pra mamãe ficar orgulhosa, fiz só pra mamãe Ditinha e coloquei até no boletim do Mundo Novo pra todo mundo saber que eu também sou dos Conselhos, sou sim. Veja só que ajudão, mãe, conselho que é danado…

– Olha o palavrório! – esbravejou Custódia, estralando a mão no braço de Pedro.

– Aiai, mamãe Ditinha, aiai… Conselho que é bom por demais, isso sim que eu queria dizer como dizia, e vai ver a senhora como ganha tempo nos aconselhamentos que dá pras moças, hã hã, que tem esse tempo todo não, né mãe?, tem esse tempo não… tem esse tempo não… – Pedro falava olhando nos olhos da mãe e ficava atrás de condoimento, mas só recebia um olhar desconfiado, sobrancelha enrugada. – Tem não, pois bem. Veja só o que euzinho escrevi aqui no Mundo Novo e veja só se a senhora não faz dele bom uso, que está precisada dessa ajuda-ajudão, né, mãe?

– Arre, leia logo, filho de deus! – disse Custódia, aproveitando pra apunhar uns apertões no menino.

– Aiai, aiaizinho, já vai, que é assim olhe só.

Então Pedro leu o provérbio de El Vate, mas leu com tanta rapidez que nem ele nem Ditinha entenderam lhufas. Pois leu mais uma e mais outra e outra vez, seguidas, diminuindo o passo e ganhando confiança, leu foi umas dez vezes e Ditinha parecia que só olhava aquele seu filho envergado de safanão, sem dizer que sim nem não, boca fechada. Quando Pedro parou, já desnorteado, como que saindo da educação física, respirou devagar e preparou sua melhor expressão de comiseração, de boi desgarrado, gato esfomeado e misericórdia. Esperou uns segundos de Custódia transformada em pedra e viu mamãe Ditinha se levantar, tornar pras suas coisas de fazer e lamuriar baixinho:

– Hmm hmm hmm…

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Mario Santin Frugiuele

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