A eternidade e seu epílogo

Edgar Degas. Two Ballet Dancers, c.1879

Fazia um frio sutil na sala de espetáculo. Um frio que, entre os espaços da música, era sentido como um retinir metálico, um badalar de sinos, só que esférico. A plateia, imersa em breu e silêncio, era toda olhos e ouvidos atentos e pele arrepiada ao toque daquele frio esférico que preenchia os hiatos da melodia feito uma contravoz distante, em tom menor. E então.
A música não se interrompeu, não reprimiu qualquer nota dissonante, nem prendeu sua respiração de sons, quando. Aliás, o que houve nem mesmo se deu no intervalo minúsculo entre um retinir e outro. Não, foi bem ao meio mais agudo de uma das ritmadas notas que enchiam a imensidão negra do teatro. Quase como se fizesse parte da sequência de movimentos coreografados e exatos que se desenrolavam no palco. Quase como se não fosse um acidente.
Mais que um acidente. Uma pequena tragédia, uma ferida aberta, em carne lacerada e sangue doído, numa das pétalas daquela rosa a se desabrochar que era o espetáculo de dança, deslizando sobre o tablado seco e ao mesmo tempo úmido feito uma campina depois da chuva. Quase uma lâmina a seccionar milimetricamente um sorriso, uma guilhotina, um ato cru e inexplicado de impiedade, a bailarina caiu.
Do alto do ar, onde voava lançada pelo parceiro de corpo tão esguio e forte quanto o dela, tão ensaiado e capaz quanto o dela, do alto do movimento agudo em meio à nota aguda de retinir metálico, do alto do frio seco que inconscientemente todos acreditávamos não fosse permitir que nada escorregasse um palmo além do necessário, do alto da ausência dolorosa e impressentida de onde deveriam estar as mãos que não estavam, de onde ambos achavam que estariam, de onde todos queríamos que estivessem, no instante que precedeu a ausência; ou talvez do alto do espaço deslocado onde ela não deveria estar, quem sabe tão libertada em seu voo – como nunca antes – que tivesse flutuado para fora do alcance firme e lógico de seu par, cegamente guiada por uma ousadia inata, toda sua e toda entranhada em seu corpo desde sempre, desde o primeiro engatinhar que foi seu primeiro passo de dança, do alto mais alto, a bailarina caiu, sem perdão.
Não se ouviu o baque de seu corpo teso ao bater o chão. Disciplinados, nem ela nem o bailarino que não a segurara precisaram sufocar nenhum grito, nenhum gemido, o qual simplesmente não houve, não se formara, ambos inteiramente corpos em silêncio na cena nua. A música não silenciou. Nenhum dos outros bailarinos, talvez sete ou oito em cena, estancou seus movimentos, nem alongou ou desacelerou qualquer gesto, na tentativa de recuperar, como quem se esforça em rejuntar estilhaços de um cristal partido, a harmonia rompida por aquela queda sem disfarce. O frio da sala de espetáculos prosseguiu, sutil. O tempo, ao contrário do que se diz, não parou.
Mas dentro daquele instante – não tivesse ele existido com a intensidade enorme dos desastres, alguém poderia dizer ter parecido não existir, tão breve em seu percurso do ar ao chão – germinou-se uma eternidade. E a eternidade varreu a plateia eletrizando-nos como se cada um de nós fosse uma partícula da mesma corrente. Eletrodos, conduítes, da primeira à última fila, todos nós. Circuito fechado. Nós presenciáramos o desastre. Nós, que não esperávamos nada daquela sorte, fomos tocados pelo desastre como se ele tangesse nossas espinhas feito a corda de um violino. Nossos nervos em rede, entrelaçados, conectados todos, fios a constituírem-na, viva, pulsante, reconhecível enfim (mas não compreensível, isto nunca!), porque éramos todos inocentes a sentir dor, e a dor dos inocentes é a própria eternidade.
E como dentro da eternidade, dentro da dor, cabem espantos incalculáveis, cada um de nós sentiu em sua carne, e em seus nervos conectados, a dor do outro, as infinitudes da dor do outro. De muitos outros, todos os outros, na multidão sentada a ouvir a música que não se interrompera.
Dentro daquela eternidade que não era cronológica, que não se sucedia nem permanecia estancada, mas era toda simultaneidade, a leve náusea que subiu à garganta da senhora da poltrona A5. Como um engasgo, com o qual todos nós, nas poltronas quase todas ocupadas, tínhamos que lidar. Dentro daquela eternidade, como dentro da noite uma noite dentro do peito, a angústia da moça da terceira fila, que a custo contém um gemido, sacrificando a empatia que é sua grande qualidade, controlando a vontade de se levantar e acorrer ao palco, sem todavia impedir sua mão de gelar no braço da poltrona, transmitindo a mesma angústia, mas por outros motivos, ao namorado ao lado, que pouco se dera conta da queda, absorto em outro ponto do palco, e que lhe aperta a mão com força porque prefere não se virar para mirar o rosto da moça tão linda linda linda que ele ama mas ainda não tem certeza se o ama, e ele não pode, em plena noite de sábado, correr o risco enorme de se deparar com algo maior do que suas forças, um rosto tão lindo e tão amado que pode não hesitar em demonstrar que não o ama de volta, com a sinceridade dos rostos pegos desprevenidos.

Edgar Degas. Two Ballet Dancers, c.1879

Dentro daquela eternidade que era toda tumultos, o espanto que se formou todo, pleno, gordo em ser espanto – antes mesmo de compreender sua própria causa – dentro da carne tão pouca daquele jovem da terceira fila, que aspirava secretamente reunir um dia a coragem de ser bailarino também, mas que por enquanto só reunia espantos pela vida que nem mesmo chegava a compreender. Esse espanto de quem descobre, com o horror eletrizante de toda primeira vez – porque toda descoberta das incomensuráveis possibilidades da vida traz horror e traz volúpia – que os bailarinos erram, que as bailarinas caem, que a beleza é frágil, o salto é grande, e haverá sim joelhos quebrados e vergonha e medo e, enfim, se é mortal; esse espanto convulsionado de compreensões que de tão novas eram ainda incompreensíveis, nós todos o sentimos, com os mesmos espasmos musculares do jovem franzino que desejava ser bailarino e agora o deseja ainda mais, porém quase desejando não desejar, porque descobriu o medo e a potência inebriante contidos no desejo.
Naquela eternidade compartilhada, que não era paz, não era quietude, nem remanso, nem regaço, a dor na córnea da mulher solitária feito um arrancão, como se lhe extraíssem o pulmão esquerdo à força de presenciar aquela queda, aquela impossível queda, inaceitável queda. Toda tão metódica, tudo tão necessariamente, organizadamente, inafastavelmente metódico, porque assim ela mantinha a sanidade contra o mundo de acasos e improvisos, agarrando-se e refestelando-se no que de menos imprevisto podia encontrar, as comidas industrializadas congeladas assépticas, as roupas de tecido sintético que não amarrotava, as traduções que lhe davam o ganho sem que as palavras a serem traduzidas oferecessem resistência, as apresentações de dança que eram a celebração do ensaio, do exato, sem espaço para a invenção nem para o erro, e ali então aquela queda, como um soco, e era também à nossa boca gelada que vinha o sangue quente agredido e estúpido daquela mulher solitária e medíocre, e tão contundida e tão coitada que do contato com sua dor ecoávamos todos uma piedade imensa que expandia a eternidade, dores e dores e penas e afagos a ressoarem e se multiplicarem aproveitando-se da acústica da sala como nenhuma música jamais fizera.
No centro geográfico daquela eternidade que preenchia o teatro como a areia de uma ampulheta infinita, a senhora vestida com a ostentação dos impiedosos. Vistosa. Impávida. Só os que não têm compaixão ostentam roupas (e maquiagem, e joias, e carros, e salas de estar, de jantar e de chá) como uniformes, como medalhas por sua dureza que lhes permite caminhar pelo mundo sem dobrar-se ao peso da iniquidade que vestem. Impávida. No centro da sala de espetáculos, no melhor assento que o dinheiro poderia comprar, a executiva de um grande banco transmite, pela rede neural que toma o ambiente, sua impassibilidade, acostumada a ver os outros caírem, a ver os outros errarem, saltos que não se completam, mãos que não acolhem, esgarçamentos. Impávida. E triste, ligeiramente, quase imperceptivelmente doída, lá ao fundo, não da queda, não de tantos desastres que já presenciara, mas de sua própria incapacidade de solidarizar-se. Mas, ao mesmo tempo em que transmite essa frieza de esfinge, de montanha que mira o lago e jamais se abala com a neve que a recobre, e essa dorzinha nas suas entrelinhas, no subtexto de si mesma, tão estranha a sua personalidade que mal chega a percebê-la, a dama de chumbo também recebe – com a brutalidade de um vagalhão que nos arrasta e nos afoga e nos faz vomitar sal e espuma – a piedade que nós, os outros, reverberávamos por compaixão com a outra senhora bem ao seu lado!, sua vizinha na segunda ou talvez terceira melhor poltrona do teatro, arrancada para sempre de seu mundo sem erro. Para sempre, por toda a eternidade.
Na fila H, o grupo de adolescentes – já anteriormente tão conectados entre si, meninos e meninas e hormônios e transgressões e diluições de fronteiras e identidades e regras – e o espanto muito simples, a dor muito natural, a inquietação muito pura de flagrarem algo que não deveria estar lá, para deleite e pasmo de suas retinas ainda desacostumadas com os solavancos do mundo. Para suas retinas aprendizes, a novidade é apenas uma naturalidade a mais, desconhecida. Três rapazes, quatro garotas, desnudos de medo ou julgamento, espraiando pelo ar frio a sensação muito límpida e muito ingênua, toda descomplicada e quase inexplicável, de doer ao contato do mundo que se altera e absorver na carnadura de sua própria existência essa mutação, qualquer que seja, como um alimento que se ingere, como os seios que crescem, como a voz ou os pelos que se engrossam, como uma eternidade que se vivencia sem interrogações. Os inocentes dentre os inocentes!
E logo atrás, porque dentro da eternidade cabem todas as contradições, a antítese: o velho senhor com olhos impacientes de quem busca sempre o inesperado, sôfrego, doendo a cada minuto – há tantos anos! – em que a vida não lhe traz o imprevisto, a ruptura; e doendo ainda mais sofregamente quando, como agora, o atordoamento que saboreia é pouco para quem vive dessas fagulhas, como um viciado condenado à escassez de sua droga e a precisar de doses cada vez maiores para saciar, pelas breves eternidades do tempo afora, sua fome, seu vício de assombros que lhe façam sentir vivo e que lhe digam, na linguagem clara dos fatos, que o mundo ainda se modifica ao acaso, apesar das células tão acostumadas à mesmice de tudo que seu corpo carrega, enrugado, ressecado, quebradiço. Mas ainda curioso, ainda sôfrego, ainda esperançoso das dores que busca nos incalculados da vida. Inocente, nos dando de beber seu vício, agrura e delícia.
À direita da eternidade, o crítico, ofendido pelo erro como se lhe fosse uma injúria pessoal. A ele!, que tão cuidadosamente cultivara sua sensibilidade e buscava, nas penumbras dos teatros, fugir da rudeza do mundo acelerado sob o sol, e mergulhar apenas em beleza sua alma cultivada. Ofendidíssimo, as mãos tremendo. Inocente.
À esquerda, a irmã da bailarina, sofrendo uma vergonha muda sem sentido, por dever familiar, por convenção social que nada tem a ver com seu amor pela bailarina.
A noroeste. No balcão nobre, nas frisas e camarotes. Nas bordas todas daquela eternidade. Nos oitocentos e trinta e sete lugares ocupados. Em todos, entre todos, de cada inocente ao outro, a dor, as muitas dores, tão pungentes, delicadas, expostas aos desconhecidos com quem se compartilhara uma visão da queda. Para sempre.
E então, porque tudo cessa, a eternidade cessou. A dor, toda dor, sempre amaina. E no instante seguinte, nos entremeios da dança que prosseguia, coreografando o tempo infinito, nossas dores inculpadas, matéria da eternidade, também foram se aquietando e a eternidade foi desvanecendo, até que não mais. Mistérios, porque tudo são mistérios.

Epílogo

Depois de recomposto o mundo, depois de cessada a eternidade – porque as eternidades também se acabam –, muito depois, quase ao fim do espetáculo, um outro desastre, um outro soluço na fluidez do mundo. Esgarçamento, ruptura. Desta vez, sim, a música. Interrompida. Durante segundos que gritavam tão alto o seu silêncio que poderiam ensurdecer as aves migratórias do Ártico em pleno voo. E o silêncio, vocês sabem, é sempre perigoso. Sempre emprenhado de eternidades possíveis. Mas dessa vez, mesmo já tão longe daquela outra eternidade, desvanecida, outra não se germinou. Já fôramos tocados. Não éramos mais inocentes.

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Thássio Ferreira

Thássio Ferreira, escritor radicado no Rio de Janeiro, é autor do livro de poemas (DES)NU(DO) e colaborador, curador e editor-associado da Revista Philos de Literatura. Participou da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) em 2017,
como convidado da Liga Brasileira de Editoras. Já publicou poemas e contos em diversas revistas, destacando-se a
Revista Brasileira (no 94), da Academia Brasileira de Letras. Mantém a página facebook.com/thassioescritor e o perfil de instagram @thassiof.

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