O que faz de um autor um autor importante?

O que é ou como se define um autor importante? Ou, pelo menos, um autor que deva ser levado em conta, se não pela obra em si, ao menos por seu papel na história da literatura? Como saber separar, enfim, um autor significativo de alguém cuja obra impressa faria melhor sendo usada para reciclagem de papel? Para tentar explicar meu ponto, pegarei um caso concreto. Descreverei brevemente um autor, sua história, as críticas que recebeu, além de transcrever alguns pequenos trechos de suas principais obras, tudo isso sem revelar seu nome, para no fim tentar chegar perto de alguma conclusão.

O autor em questão nasceu no estado de São Paulo em 1895 e participou da Semana de Arte Moderna de 1922, ainda que não como figura de proa. De todo modo, era considerado um modernista pelos modernistas. Como muitos outros de sua geração, escrevia em jornais e transitava entre a política e a literatura. E, também como era comum naquele período, escreveu, além de romances, poemas, contos e crônicas. Seu romance de estreia, de 1926, recebeu o seguinte comentário de Monteiro Lobato: “[…] todo o livro é uma inaudita riqueza de novidades bárbaras, sem metro, sem verniz, sem lixa acadêmica – só força, a força pura, ainda não enfiada em fios de cobre, das grandes cataratas brutas. [O autor] é uma força nova com a qual o país tem que contar”. Afrânio Peixoto, na época um dos principais críticos do país, considerou aquele “o livro do ano”. E comentários elogiosos, na época, vieram também de pesos pesados como Tristão de Ataíde, João Ribeiro, Menotti del Picchia, José Américo de Almeida, Augusto Frederico Schmidt, Cassiano Ricardo e outros.

Anos mais tarde, na década de 1960, Wilson Martins afirmaria que “[aquele livro] foi a maior realização romanesca brasileira da década de 1920”. Na década de 1970, Alfredo Bosi afirmou que aquele primeiro romance marcava o interesse pela nova ficção e era obra de “prosa solta e impressionista”. Mais ou menos na mesma época, Antonio Candido e José Aderaldo Castello escreveram que [aquele livro] foi “o romance social mais interessante do decênio”. E “aquele livro”, diga-se de passagem, vendeu bastante bem. A primeira edição esgotou-se em três semanas, mais duas edições sucederam-na, esgotaram-se, e outras foram saindo ao longo dos anos. A última edição, se não estou enganado, saiu em 1972 pela José Olympio.

A seguir, os três primeiros parágrafos do livro, publicado em 1926, mas que vinha sendo escrito desde 1922:

“Na noite espessa, os gritos das locomotivas cruzavam-se repentinos, como meteoros de som. / Adivinhavam-se os vultos pardos dos edifícios lavados pela verde surdina dos lampiões a gás. / E os cochichos do vento arrepiavam os ouvidos dos plátanos sensíveis.”

E um outro trecho, lá do meio:

“Um esquadrão de cavalaria surgiu na rua do Gasômetro, entrou como uma vassoura pela Avenida. Era uma espécie de Limpeza com lixeiros-centauros. / Estourou um tiro de pistola nas imediações da porteira da Inglesa. Oscilou um soldado na sela, pendeu, caiu de borco, nos paralelepípedos. / Cresceu o tiroteio. Homens gritavam: – morremos com fome!, e caíam ensanguentados. Mulheres descabeladas arrastavam os maridos no meio das balas. / A polícia rugia e saraivava na raivosa defesa dos capitalistas. […]”

É claro que não dá para avaliar um livro baseando-se apenas em dois pequenos trechos. Mas pode-se perceber claramente, neles, dois aspectos: em primeiro lugar, os traços da estética modernista/futurista da qual Oswald de Andrade foi, entre nós, o mais célebre representante; e, em segundo lugar, a temática social, de crítica do capitalismo e do Estado liberal. Mas, independentemente da qualidade, o que é estranho, na verdade, é o contraste entre a repercussão da obra, na época de sua publicação e mesmo muitos anos depois, e o completo silêncio que caiu hoje sobre ela.

A obra não é citada nos manuais de literatura, não é ensinada nas escolas, não cai no vestibular. É como se não tivesse existido. E por quê? Porque o autor, agora eu conto, é aquele nascido em São Bento do Sapucaí, a quem, alguns anos depois, Oswald de Andrade daria o apelido de o Hitler de Camanducaia: Plínio Salgado. O mesmo que, na década seguinte, fundaria e lideraria a Ação Integralista Brasileira (AIB), movimento político de extrema direita e inspiração fascista; e que, ao contrário de outros integralistas arrependidos (José Lins do Rego, dom Hélder Câmara, Vinicius de Morais, Luís da Câmara Cascudo etc.), permaneceria firme e convicto na direita até o fim da vida, inclusive apoiando entusiasticamente o Golpe de 1964.

Mas o fato de Plínio Salgado ter tido essas inclinações políticas significa que sua obra literária seja ruim? É óbvio que não. Nem que seja boa. Só que deletá-la, simplesmente, sem nem sequer avaliar que impacto possa ter tido em nossa história cultural (na ideologia, na política, em outros autores, nos projetos de nação da geração dele e das seguintes), não me parece fazer sentido. É isso, no entanto, o que costumamos fazer no Brasil, o país onde, mais do que em qualquer outro lugar, as modas do presente ditam o que deve, ou não, caber na memória. Não existe memória ruim. Ruim é a falta de memória.

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André Caramuru Aubert

André Caramuru Aubert

André Caramuru Aubert é bacharel e mestre em história pela Universidade de São Paulo (USP). É colaborador do jornal Rascunho, para o qual seleciona e traduz, todos os meses, os poemas de algum poeta estrangeiro. Tem publicados dois livros de poemas: Outubro / Dezembro e As cores refletidas nas lentes dos seus óculos escuros, ambos pela Patuá; e cinco romances, entre os quais Poesia chinesa, pela SESI-SP Editora. Atualmente trabalha em um novo livro de poemas e um novo romance, além de coordenar as edições brasileiras dos quadrinhos de Rodolphe Töpffer, dos quais os três primeiros – Monsieur Jabot (1833), História de Monsieur Cryptogame (1845) e Monsieur Trictrac (1830) – foram lançados pela SESI-SP Editora.