Bombons recheados de cicuta nº04

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ilustrações de Bruno Maron

Foi surpreendido hoje cedo numa esquina: levaram tudo o que ele tinha no bolso – inclusive alguns pressentimentos.


Faz da gaveta do
criado-mudo sua clausura – é o inseto ortóptero mais discreto que existe: não sai de seu cativeiro nem mesmo para ver, in loco, o motivo dos ais e uis do casal ao lado.


Sempre que sai de casa tem certeza absoluta de que o Fastio se encontra atocaiado numa encruzilhada qualquer – dizem que esse delírio sistemático atende pelo nome de Paranoia.


Torcicolo ecumênico o impede de ver as coisas sob vários dogmas diferentes.


Só, sempre só, embrenhava-se o tempo todo nos matagais da solidão. Exercitava solilóquios para afugentar destrambelhos. Agora, de uns tempos para cá, aprendeu a praticar heteronímias – hoje convive muito bem com o seus muitos-inúmeros fictícios Eus.


Vivem juntos há décadas, mas não se conhecem: toda frase que um diz sobre o outro carece de duas extremadas aspas.

Quase sempre conversa emperra: tenho muita dificuldade em dialogar comigo mesmo – somos sempre mutuamente esquivos.


Acomoda-se nos âmagos de si mesmo. Sabe que ainda vai demorar para conhecer a posição de todos os seus acidentes naturais ou artificiais: é um ser humano de topografia muito complexa.

Escritor coerente
recusa-se a vender seu romance epistolar nas livrarias: leitor só poderá recebê-lo pelo correio.


Mudou-se para casa maior: na antiga não havia mais espaço suficiente para guardar tanto rancor.

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