A luz capturada

"The brave new peace."

Tirar uma fotografia é participar da mortalidade, vulnerabilidade, mutabilidade de outra pessoa ou coisa. Precisamente por fatiar um momento e congelá-lo, todas as fotografias são testemunhas da passagem inexorável do tempo.
Susan Sontag (1933 – 2004), escritora e filósofa

<span>A exposição</span> Observadores – Fotógrafos da cena britânica desde 1930 até hoje, que esteve em cartaz na Galeria do Centro Cultural Fiesp de 25 de setembro a 25 de novembro de 2012, demonstra que as fotografias são recordações da finitude e fugacidade do mundo ao nosso redor, e – por que não dizer? – de nós próprios. As mais de duzentas fotografias expostas revelavam fragmentos de momentos que ajudam a compreender o tumultuado século XX, no contexto de uma das nações mais significativas na formação do mundo ocidental moderno. Ao registrar a alma do cotidiano na Grã-Bretanha ao longo de uma trajetória de mais de oitenta anos, foram reveladas nuances que talvez seriam imperceptíveis sob um olhar meramente científico, mas que não escaparam à sensibilidade da arte. As histórias contadas por meio das imagens do passado serviam como peças do quebra-cabeça que explica o agora que vivemos.

Fruto de uma colaboração curatorial encampada conjuntamente pelo Sesi-SP e pelo British Council, a mostra foi planejada num intenso intercâmbio entre São Paulo e Londres. O projeto nasceu em 2009, após o curador João Kulcsár ter cursado o seu mestrado em Alfabetização Visual na Universidade de Kent. Dois anos depois, em 2011, o curador e especialista em fotografia inglês Martin Caiger-Smith também abraçou o projeto, e o resultado foi a maior e mais significativa mostra da fotografia britânica já realizada no Brasil. Observadores – Fotógrafos da cena britânica desde 1930 até hoje trouxe para São Paulo uma coletânea de imagens de autoria de cerca de quarenta fotógrafos, cedidas pelas mais conceituadas coleções da atualidade, como a National Portrait Gallery e a Tate Gallery, ambas em Londres, além de uma série de coleções particulares.

São obras de fotógrafos das mais variadas origens, todos considerados britânicos por nascimento ou por adoção. E apesar de a Grã-Bretanha estar no epicentro de todos os maiores marcos históricos do século XX, como as duas guerras mundiais e a Guerra Fria, o foco da exposição não são os fatos históricos, e nem é dado destaque ao fotojornalismo. As imagens não concentram sua atenção no mundo exterior nem em mundos interiores, mas no próprio país, numa tentativa de traduzir a nação britânica em imagens que representam seu caráter e seus costumes, além das condições de seus habitantes. Foi o interesse pelo cidadão britânico comum e o cotidiano nas cidades e vilas inglesas que atraíram a atenção das câmeras.

“Cycling alng a terraced street.”

Ano após ano, década após década, as lentes buscaram registrar o espírito da passagem do tempo ao longo do século que, nas palavras do recentemente falecido historiador britânico Eric Hobsbawn (1917 – 2012), sintetizou a era dos extremos: um período tão repleto de catástrofes, crises e temores, que redefiniu para sempre os rumos da humanidade. Em meio ao tumulto dos crescentes conflitos sociais e sucessivos abalos econômicos, que levaram o mundo às duas maiores guerras da história e ao constante temor de um conflito nuclear, a mostra revela a busca da compreensão das pessoas e da maneira como elas viviam. Essa tentativa de retratar a sociedade com nova objetividade e imparcialidade científica, numa forma de auto-antropologia, era fruto do esforço de artistas, escritores e pensadores que abraçaram os temas sociais e o novo realismo que floresceu nessa época.

As imagens da exposição são testemunhas contundentes dos imensos contrastes desse longo processo de transformação. Se de um lado as fotos dos anos 1930 mostram os últimos anos de ingenuidade antes do pesadelo da Segunda Guerra Mundial, no extremo oposto está a perplexidade diante da brutalidade do tempo presente, traduzida nos olhares perdidos dos jovens retratados no começo deste século. Da mesma maneira, contraposto aos semblantes angustiados dos duros anos de sangue, suor e lágrimas em que a Inglaterra foi protagonista no conflito que devastou a Europa nos anos 1940, está o imenso vazio ideológico que marcou as décadas da Guerra Fria repletas de incertezas.

A fotografia é a forma de arte mais realista já desenvolvida pelo homem. Sendo a mera captura da trajetória da luz – nas palavras do próprio Louis Daguerre (1787 – 1851), o francês tido como o inventor da fotografia moderna –, ela praticamente libertou a imagem da interferência humana ao ser retratada. Ao contrário do pintor, que traz para a tela a sua própria interpretação do que vê, sujeitando o que retrata aos caprichos de sua imaginação, o fotógrafo é forçado a se submeter ao objeto retratado. Ele é muito mais instrumento do que autor de sua obra, e sua arte transita no campo limitado do puro registro de um instante, tal qual ele se apresentou diante das lentes de sua câmera. Talvez seja por isso que o fotógrafo norte-americano Ansel Adams (1902 – 1984) afirmava que “nem todo mundo acredita em pinturas, mas todos acreditam em fotografias”.

A SESI-SP Editora acaba de lançar o livro Observadores – Fotógrafos da cena britânica desde 1930 até hoje, com a compilação de todas as imagens da mostra que esteve na Galeria do SESI, perpetuando esse grande momento da fotografia-arte no nosso país. A exposição levou os visitantes a uma reflexão sobre a transitoriedade do agora, enquanto revelou uma nova noção do que poderíamos chamar de eterno. Enxergamos a nós mesmos em outras faces e em outras eras, e percebemos que ainda somos os mesmos de sempre.

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Régis Godoy Rocha

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