Pelas asas de um visionário

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Maquete de nacela voadora, Milão, Museo Nazionale della Scienza e della Tecnologia Leonardo da Vinci, 1953.

Exposição e livro desvendam um pouco do inventor Leonardo da Vinci

Observar o mundo ao redor, os pássaros, os insetos, a sofisticada construção de uma teia de aranha, a aerodinâmica de uma ave em pleno voo, a dança da água e do ar, o corpo humano e seus movimentos. Coisa de poeta começado pelas árvores, desejoso de uma “biografia do orvalho”. Também, mas não somente. A natureza como inspiração foi um dos principais elementos de trabalho de Leonardo da Vinci (1452-1519), o maior gênio criativo da Renascença (1450 a 1600). E o resultado de 40 de seus projetos pode ser conhecido na exposição interativa Leonardo da Vinci: A Natureza da Invenção, na Galeria de Arte SESI-SP.

A mostra, que reúne objetos históricos produzidos em 1952 por pesquisadores e engenheiros para a celebração do quinto centenário de nascimento do artista, é parte do acervo do Museo Nazionale della Scienza e della Tecnologia Leonardo da Vinci (MUST), em Milão, na Itália. Apresentada pela primeira vez na América Latina, traz, ainda, 10 instalações interativas. Dividida em sete módulos temáticos — Introdução, Transformar o movimento, Preparar a guerra, Desenhar a partir de organismos vivos, Imaginar o voo, Aprimorar a manufatura e Unificar o saber —, a exposição é oportunidade única e valiosa de conhecer máquinas, desenhos, projetos e esboços de Da Vinci. O espectador ainda pode interagir, praticamente entrar em sua arte, na obra Journey into a drawing, na qual a imagem do visitante aparece dentro do desenho.

Além da exposição, foi lançado também o livro Leonardo da Vinci: A Natureza e a Invenção, da SESI-SP Editora, sob a organização de Patrick Boucheron e Claudio Giorgione. Na obra, publicada originalmente em francês, em 2012, em Paris, integrando uma série de eventos paralelos à exposição Leonardo da Vinci, projetos, desenhos, máquinas, são descritas diferentes áreas de interesse e de trabalho de Da Vinci: dos estudos de engenharia mecânica para o voo até o sonho de uma cidade ideal e a pesquisa sobre a pintura sfumato, técnica artística usada para criar graduações de luz e de sombra em um desenho ou em uma pintura. “Foi escrito com a contribuição de muitos estudiosos e está cheio de imagens de obras de Leonardo, pinturas e desenhos”, explica Claudio Giorgione.
Tanto a exposição quanto o livro são realizações da Universcience, organização francesa criada em 2010 a partir da fusão da Cidade da Ciência e da Indústria e do Palácio da Descoberta de Paris, em parceria com o MUST, de Milão, com participação do European Aeronautic Defense and Space Company (EADS) e do Deutsches Museum de Munique.

Dando asas à imaginação

Munido, acima de tudo, de um olhar aguçado e de muita curiosidade, Leonardo da Vinci captou ao seu redor o fascínio dos movimentos da natureza, traduzindo-os em desenhos, em projetos de máquinas, invenções à frente de seu tempo. Uniu arte, ciência e engenhosidade em suas criações. Mais que isso. Deu um passo à frente com o uso do que hoje é conhecido como bioinspiração, recente campo de pesquisa que mistura disciplinas científicas diversas, entre elas a Biologia, a Zoologia, a Botânica, a Mecânica, a Robótica etc.

A atenção a todos os aspectos da natureza e ao trabalho de outros artistas e inventores, além de um pensamento flexível e transversal, o qual permite a Leonardo encontrar conexões entre as diferentes áreas do conhecimento, são para Claudio Giorgione, também curador da exposição, o que caracteriza a grande genialidade do pintor, escultor, matemático, físico, cientista, cenógrafo, geólogo, engenheiro, arquiteto, botânico, zoólogo, anatomista, filósofo, poeta e músico e, claro, inventor, Leonardo, nascido em Vinci, um vilarejo toscano ligado à República de Florença, em 1452.

Sim, Da Vinci, apesar de ser mais conhecido no mundo por suas obras Mona Lisa (1517), A Última Ceia (1498) e Homem Vitruviano (1940), foi um homem de habilidades diversas e, principalmente, um criativo inventor. Conheceu a tecnologia e as máquinas no canteiro de obras da catedral de Florença. Seus primeiros desenhos de máquinas, traçado ainda incerto e simplificado, datam de cerca de 1478. Isqueiro, máquinas voadoras, armas de guerra, guindastes, máquinas fabris, paraquedas, máquinas de fiar, trivelas, tornos, perfuratrizes, máquina a vapor e até um submarino foram alguns dos objetos pensados por ele. Também inovou a técnica pictórica, com a introdução do sfumato e criou modelos de urbanismo, com a sua città ideale, a cidade ideal.
Mas qual era a linha condutora, a unidade de todas as obras de Da Vinci, da pintura às invenções? O desenho, expressão maior resultante de sua inquietude e curiosidade, de seu papel de observador, a representação de um modo particular de ver o mundo ao redor. O vínculo entre arte e ciência. “Pois, em relação a Leonardo, o desenho é ao mesmo tempo instrumento de estudo e de análise da realidade e uma forma de comunicação surpreendentemente eficaz”, diz a introdução de Patrick Boucheron e Claudio Giorgione para o livro Leonardo da Vinci: A Natureza e a Invenção.

Entre inspirações

Ler o livro ou ir à exposição Leonardo da Vinci: A Natureza da Invenção é entrar nesse mundo fantástico, porém nada quimérico, pois suas imaginações eram e são realizáveis e capazes de funcionar, apenas eram demasiadamente modernas para a época. Sua balestra ou besta gigante, por exemplo, uma arma de guerra, foi criada para lançar pesadas bolas de pedra contra os inimigos. E a grua rotativa por ele projetada, com uma reprodução com mais de quatro metros de altura, localizada na área de acesso da exposição, contém os mesmo princípios usados nos dias de hoje para a construção desse tipo de engenho: contrapeso dotado de freios com engrenagens dentadas, cabos e roldanas; além disso, representa um significativo avanço na transformação do movimento em força potencial capaz de erguer objetos pesados por meio de mínimo esforço humano ou mecânico.

E o carro de guerra inspirado na morfologia das tartarugas? Pode até parecer incongruente se inspirar na natureza em nome da guerra, mas o fato é que o blindado pôs à prova a sua capacidade como engenheiro militar, e deu certo. Da Vinci estudou os desenhos de máquinas e inovações do pintor italiano da Escola Sienesa Francesco di Giorgio Martini (1439-1502), engenheiro de mais de 70 fortificações militares. Uma das mais conhecidas máquinas de guerra de Da Vinci, concebida para o duque de Milão, o carro foi o precursor da metralhadora moderna, mas não chegou a ser construído. Tem carapaça resistente e vários canhões dispostos radialmente, com disparos em todas as direções, o que inspirou os tanques de guerra. Na parte superior, uma torre de observação. Para a sua movimentação, seriam necessários oito homens em seu interior, os quais movimentariam manivelas ligadas às quatro rodas por um sistema de engrenagens.

Do casco das tartarugas à contemplação de uma aranha construindo, fio por fio, a sua teia. Daí nasceu o tear de Leonardo, com engrenagens diversas a entretecer outras linhas, materializando tecidos e dando margem a uma fixação nascida ainda na infância: assistir às aranhas e ao seu trabalho contínuo e prodigioso. “Nunca o homem inventará nada mais simples e belo do que uma manifestação da natureza. Dada a causa, a natureza produz o efeito no modo mais breve em que pode ser produzido”, afirmava o multiartista.

Tem, ainda, o sonho de voar, de dar asas ao ser humano. Aqui, a observação máxima da natureza: o voo do pássaro, a “tentativa de traduzir a forma do pássaro em uma estrutura mecânica”, segundo Giorgione. Antes de chegar ao invento parafuso aéreo, foram testadas várias ideias aerodinâmicas. Mas Da Vinci não demorou a compreender que os mecanismos do corpo humano diferem e muito daqueles de um pássaro, o que impossibilitava a movimentação de asas de forma suficiente para erguer uma pessoa. Partiu, então, para um objeto que pairasse. Estudou a qualidade e a espessura do ar, descobrindo a sua resistência, e, para medi-la, desenvolveu o anemômetro. Com o tempo, muitos estudos, pesquisas e tentativas, chegou à sua máquina voadora, também com inspiração na natureza. O foco foram as formas de parafuso helicoidal que ocorrem em sementes de bordo ou de sâmaras ou, ainda, o movimento das cinzas ao vento, transportadas a longas distâncias girando no ar. O projeto não foi concretizado, mas qualquer semelhança entre ele o helicóptero não é mera coincidência.

Já a máquina de cardar com movimento alternativo, uma roda de fiar de palhetas móveis que executava simultaneamente as operações de alongamento, torcendo e enrolando os fios, o que antes era feito separadamente, agilizou os processos existentes à época. O sistema por ele inventado foi utilizado na Inglaterra durante a Revolução Industrial, no século XIX. O setor têxtil, aliás, foi um dos que tiveram grande atenção do pintor, que atuou em todos os estágios da produção.

Serviço

Leonardo Da Vinci: A Natureza da Invenção

Local: Galeria de Arte do SESI-SP, no Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso (av. Paulista, 1.313, em frente à estação Trianon-Masp do Metrô)
Período expositivo: Até 10 de maio de 2015, para o público em geral – diariamente, das 10h às 20h Classificação indicativa: livre
Informações: (11) 3146-7405 e 7406
Agendamentos de grupos e escolas: (11) 3146-7396, de segunda a sexta, das 10h às 14h e das 15h às 18h

Entrada gratuita. Os espaços têm acessibilidade.

O resultado final, seja de uma viagem pelas páginas do livro, seja de um passeio entre objetos e desenhos em meio à exposição, só pode ser um: o visitante ou o leitor vai se surpreender com o acervo produzido por Da Vinci, que, na verdade, chega a 120 livros. Infelizmente, desmembrados, cortados ou vendidos. Somente um terço foi preservado. E hoje em dia restam apenas dez conjuntos de folhas, chamados códices, em instituições culturais em Milão, Veneza, Londres, Madri e Paris. O que chega ao público é, portanto, uma asa de mariposa, um mínimo daquilo que o poeta das invenções deixou registrado.

E mesmo esse pouco é tão fascinante quanto o voo de uma ave ou a construção de uma teia de aranha: a mecânica da natureza, um tanto óbvia a olhos acostumados, mas engenhosa e perfeita aos olhos de um observador minucioso, de um esteta ou de um cientista. Diferentemente do “beato em violetas” Manoel de Barros, que preferia “as máquinas que servem para não funcionar”, porque, “cheias de areia de formiga e musgo – elas podiam um dia milagrar flores”, Da Vinci, o outro sonhador, transmudava as peças da natureza em objetos de serventia, máquinas reinventadas e úteis até os dias atuais, “milagrando” e perpetuando a capacidade inventiva de um visionário.

O livro da SESI-SP Editora Leonardo da Vinci: A natureza e a invenção, lançado em dezembro de 2014, está à venda nas melhores livrarias do país.

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