Non finito: a arte do bronze, renascida

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Obra “O Bipolar II” do artista plástico Israel Macedo

A tradição milenar de fundição de esculturas pela técnica de cera perdida é resgatada em exposição e cursos em São Paulo.

Há mais de seis mil anos, a humanidade descobriu uma maneira de se aproximar e venerar seus ídolos, criando estátuas que eram a tradução formal de deuses, semideuses, imperadores, heróis e guerreiros. Os hebreus e assírios foram os primeiros povos de que se tem notícia a manipular o bronze para produzir esculturas, utilizando recursos ancestrais que ultrapassaram milênios e, ainda hoje, são empregados por escultores. Dentre esses, a técnica de cera perdida. O complexo processo, praticamente artesanal, começa com a reprodução de um molde e termina no seu preenchimento com o bronze liquefeito, material que dará “vida” à obra – mas, por transformações no modo de pensar da sociedade, essa prática corria o risco de perder suas referências no Brasil.

O especialista em Museologia, pesquisador e curador independente Gilberto Habib informa que, a partir do final do século XVIII, a produção de obras de arte em bronze acompanhou a própria formação cultural do País, pois com ela os artistas construíram monumentos que são a imagem “concreta” de um povo, seus símbolos e os valores de sua identidade. As primeiras manifestações partiram de mestres fundidores que utilizavam o conhecimento proveniente da tradição europeia, aliado à mão de obra e ao conhecimento de artesãos supervisionados por grandes escultores, como Valentim da Fonseca e Silva – o Mestre Valentim, mineiro que foi responsável por um grande número de obras artísticas no Rio de Janeiro.

Em São Paulo, um dos organismos responsáveis pela fundição artística foi o Liceu de Artes e Ofícios, fundado em 1873 para capacitar trabalhadores da nascente indústria paulista, formando, dentre eles, artesãos, restauradores e escultores. “A escola ajudou a construir uma cidade que crescia vertiginosamente. Vínhamos de uma tradição cultural importada de outros países, cujo modelo de urbanização e de civilização baseava-se na ‘escrita’ da história apenas dessa maneira, com a construção de monumentos. E, naquele tempo, eles cumpriam um papel estratégico e didático, muito eficaz para ‘mostrar’ o que era o Brasil”, diz Gilberto.

Essa realidade mudou radicalmente a partir de meados do século XX, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945). As sociedades determinaram novos padrões de ser e pensar. Chegaram a televisão e o cinema, ampliou-se o acesso a museus, a livros e a outros elementos que podiam “informar” o que era o Brasil. Assim, os monumentos em bronze perderam sua principal “funcionalidade”. Ao contrário da Europa, onde a tradição continuou viva e respeitada, no Brasil as fundições passaram a funcionar de maneira independente, quase sempre ligada a iniciativas comerciais de artistas e artesãos imigrantes e remanescentes do Liceu.

“Os valores estéticos mudaram, mas a função da arte, o resgate da memória e o papel da preservação dos monumentos e da educação em meio ao crescimento das cidades continuam sendo pontos estratégicos para o desenvolvimento do País e o bem-estar da população”,

defende Gilberto, e acrescenta: “Vale destacar que estamos tratando de um sistema social complexo, que envolve vários setores – museus, escolas, artistas, poder público e, é claro, a participação da sociedade em geral. Não se trata de celebrar apenas uma apologia ao passado, mas de fazer o passado coexistir com o presente”.

Finalização da obra “Fantasia”, de Israel Kislansky

Da praça para os ateliês

Muitos artistas contemporâneos empregam a técnica da escultura em bronze no Brasil e, principalmente, na Europa, onde a tradição da cera perdida continua sendo o principal recurso para fundir peças de grandes dimensões para parques, jardins e praças públicas ou mesmo coleções particulares, sem que tenham, necessariamente, a função de um monumento. “Eles continuam privilegiando o belo artístico, e a tradição do bronze permite isso sem maiores problemas. O entrave maior, aqui no Brasil, é não haver centros de formação ou oficinas capacitadas para a execução dessas obras”, diz Gilberto.

O escultor baiano radicado em São Paulo Israel Kislansky é um dos artistas que trabalham com a cera perdida, dedicando-se também à pesquisa escultórica há mais de 20 anos. Segundo ele, em todo o Brasil permanecem funcionando cerca de 15 empresas especializadas em fundição de obras de arte por meio desse método. A maioria está localizada nas regiões Sul e Sudeste do País. Em todo o Estado de São Paulo são apenas quatro empresas, que produzem de brindes a obras de arte. Praticamente inexistem especialistas qualificados para restauros e muitos artistas fundem suas obras no exterior. “Essa carência por serviços também parte dos museus e órgãos que zelam pelo patrimônio histórico das cidades. Há uma série de problemas sistêmicos que prejudicam a todos, inclusive a própria indústria brasileira, que, apesar de ser pequena, atende a uma demanda grande”, diz.

As fundições artísticas do País são depositárias de uma tradição italiana que chegou aqui no início do século XX. Boa parte delas é remanescente desse período, propriedade de netos de fundidores ou de artesãos que trabalharam com os fundidores originais.

“Muitas empregam técnicas artesanais, que têm quase 300 anos. Por um lado, isso é um problema, porque envolve toda a questão ambiental, como a queima de carvão. Por outro, é interessante saber que a tradição se mantém ativa. O desafio é modernizar, mas conservar uma memória que é, por si, muito valiosa”, declara Kislansky.

O paulista Israel Macedo é um dos escultores que recorre às empresas profissionais para fundir as peças produzidas em seu ateliê, na capital. Cliente regular de uma fundição da cidade de Piracicaba, ele também utiliza os serviços de finalização da empresa. Ex-profissional de marketing, ele começou com o desenho e a pintura, mas sempre teve interesse pela escultura e, há cerca de sete anos, começou a fundir as peças em bronze. Foi no “velho” continente que Israel superou as dificuldades de artista iniciante e autodidata, como a correta compra de materiais. “Certa vez levei algumas peças para uma exposição na Itália. Eram todas de latão, e eu achava que eram de bronze… Só descobri porque a curadora me disse a verdade”, revela. Durante quase um ano que ficou na França, ele aprendeu as técnicas de cera perdida na fundição em bronze, onde também teve acesso a outros processos, empregados por artistas como Rodin.

Os equívocos ficaram em um passado distante. Hoje, Israel coleciona reconhecimentos, como o Prix Spécial da Société Nationale Dês Beaux-Arts, recebido em um salão de artes do Louvre, em Paris, tendo se destacado também na 8ª Bienal Internacional de Arte de Roma. Recentemente, suas obras ficaram expostas no lobby do Hotel Tivoli, em São Paulo. Uma delas conquistou ninguém menos que a cantora Lady Gaga, em turnê pela cidade e hóspede do hotel. Ela acabou levando a peça escolhida para casa, e carregada nos próprios braços, tal o apreço. O presente para a pop star tem um significado especial para o escultor. “Lady Gaga possui formação artística, fez cursos no Museu de Arte de Nova York e sempre usa referências de grandes artistas em seus cenários”, diz Israel, superando de vez a fase de aprendizado pelo método da tentativa e erro, o que incluiu, por exemplo, a descoberta sobre as possibilidades de cada um dos materiais em aceitar determinados tipos de processos para a aplicação da pátina, o processo de “colorização” do bronze.

Esta técnica, obtida com a aplicação de diferentes ácidos que oxidam a peça, dando-lhe tonalidades diferentes, tornou-se a linguagem da escultura em bronze, como explica Israel Kislansky. “O gosto pela pátina é relativamente moderno. Todas as esculturas, da Grécia até a Idade Média, eram pintadas. Na Renascença, com as descobertas arqueológicas de estátuas que estavam no fundo do mar, criou-se uma ideia equivocada que a oxidação sofrida pela ação do tempo era um tipo de acabamento. Isso foi propagado e se tornou a identidade do ideal clássico da Antiguidade. O recurso passou a ser explorado e valorizado por artistas dos séculos XV e XVI. O Barroco restabeleceu o uso da cor, mas o Neoclassicismo do século XIX restaurou a tendência pelo ideal clássico”.

Cera revelada

É essa diversidade de tendências e estilos que o público pode conferir na exposição Fundição Artística no Brasil, que ficará em cartaz até 10 de fevereiro de 2013, no Centro Cultural FIESP – Ruth Cardoso, na capital paulista. Mostrar a importância histórica da fundição artística no Brasil como processo cultural, além de levar ao público a compreensão da complexidade que envolve as doze etapas da técnica de cera perdida – da modelagem ao acabamento final –, são os objetivos da mostra, que tem curadoria de Gilberto Habib. Segundo ele, a exposição é resultado da associação de vários temas: os três mais evidentes – arte, história e a técnica da fundição – e, também, educação, tecnologia e a maneira sobre como algumas instituições lideraram estes processos, cada qual em sua época.

Obra de fundição artística finalizada por um aluno da Escola Senai “Nadir Dias de Figueiredo”

Um painel autoexplicativo, que percorre todo o espaço expositivo, apresenta textos, protótipos, fotografias e peças originais em cera, gesso e bronze. Em sessões programadas ao longo do dia, acontece um espetáculo multimídia, que chama a atenção para os principais pontos do processo de fundição. A exibição conta com diferentes exemplos de uso da técnica, de diferentes países, antigos e modernos, artísticos e tecnológicos. Também o contexto histórico brasileiro do século XVIII ao XX é mostrado, em profundidade, a partir de ambientação cenográfica de uma fundição antiga, que abre ao visitante aspectos tradicionais do processo. O roteiro expositivo é integrado, ainda, por 15 monumentos sinalizados em pontos estratégicos na cidade de São Paulo. Entre as obras estão as de Rodolfo Bernardelli, o “escultor oficial” do Brasil durante o período Republicano; esculturas de Amadeu Zani, que também foi professor do Liceu de São Paulo; e maquetes de monumentos de Victor Brecheret, Galileo Emendabili, Julio Guerra, Leopoldo e Silva, todos eles autores de grandes obras em espaços públicos da cidade de São Paulo.

Resgate de uma tradição

A exposição apresentada no Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso é também um resultado da iniciativa do escultor Israel Kislansky de resgatar os fundamentos essenciais da técnica de fundição por cera perdida, e que foi acolhida pelo Senai São Paulo. A proposta partiu do interesse em preservar e transmitir um conhecimento fundamental ainda hoje, como garantia do desenvolvimento social, uma vez que nele se concentram saberes e valores úteis à capacitação de jovens para o mercado de trabalho, à preservação da memória e ao aperfeiçoamento técnico-industrial. Vale dizer que o processo é empregado na produção e reprodução não apenas de objetos artísticos, mas de peças seriadas para diferentes ramos da indústria, restaurações dentárias e joias.

Ou seja, a iniciativa da Escola vem atender uma lacuna no ensino técnico em fundição – que pode ser percebida na experiência vivida pelo escultor Israel Macedo e também na carência de fundições qualificadas.

Tudo começou em 2009, quando a equipe da Escola, integrada por professores, alunos e técnicos do Senai São Paulo, sob coordenação de Kislansky, realizou uma série de visitas técnicas a várias fundições da Itália, Inglaterra e França, incluindo um curso no Lycèe Anguier-Cayet, na Normandia, única escola do ramo naquele país. Além dos três anos de capacitação, foram feitos investimentos em equipamentos e treinamento de profissionais do Centro Técnico em Fundição Artística da Escola Senai “Nadir Dias de Figueiredo”, em Osasco, o primeiro núcleo do gênero no País, concebido para ser referência na formação de mão de obra especializada para a fundição e conservação de obras de arte.

Em uma parceria inédita no País, a centenária Pinacoteca do Estado de São Paulo disponibilizou peças importantes de seu acervo, em gesso e terracota, para que fossem fundidas em bronze no Senai . De acordo com Kislansky, isso coroou o trabalho com a possibilidade de colocar a equipe diante de obras de arte de valor histórico e artístico. “Trabalhamos juntos no núcleo de conservação e restauro. Cada obra serviu como estudo, gerando uma série de ceras que foram analisadas, além de testes de fundições e de modelagem. Foi um processo relativamente longo e em alguns momentos tivemos que reinventar a roda. Cada etapa tem mil segredos e muita coisa se perdeu aqui no Brasil”, diz o coordenador.

Todo o processo de capacitação os colocou em condições de responder as diversas demandas, tanto de assessoria como de ensino. Assim, os cursos especializados em fundição de obras de arte tiveram início em maio de 2011. Neste ano, foram realizados os primeiros workshops de Fundição Artística por Cera Perdida. “Tem sido um sucesso. Abrimos quinze vagas no último curso e acabamos com 25 inscritos do Brasil inteiro, do Distrito Federal, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e do nordeste, um universo de 150 pessoas, no total. Eram fundidores, restauradores, artesãos, artistas, estudantes, pessoas que produzem obras sacras para igrejas, e mesmo gente que não têm formação como artista, mas que achou o assunto interessante”. Em 2013, o Senai lançará workshops e cursos de três meses, que darão aos alunos formação mais aprofundada, inclusive com a possibilidade de trazer uma peça de sua autoria para modelar e fundir.

Kislansky explica que todo o trabalho vem sendo feito dentro de uma compreensão muito particular de um universo que implica memória, patrimônio, arte, cultura, modernidade, novas tecnologias e sustentabilidade. “Tudo isso está junto, sem que necessariamente uma delas predomine ou que uma elimine a outra. Meu papel é trazer esse pensamento ao projeto, mas o objetivo maior, e mais complexo, é respeitar particularidades, especialmente as de mercado.” Ele menciona uma das conquistas relevantes obtidas desde já pelo projeto: a parceria com uma empresa britânica, com filial no País, para desenvolver um refratário de qualidade – o material é empregado em uma das etapas da fundição artística. “No Brasil não existiam insumos especiais para fundição artística. A moldagem era feita com materiais aproximados que não davam resultado igual”.

O curador Gilberto Habib também destaca a importância do trabalho do Senai . “A arte depende dessa tecnologia para seguir adiante, seja na preservação dos monumentos do passado como na criação de novas obras que sejam a leitura do presente. Este é um dos motivos para valorizar o trabalho que vem sendo feito, com o resgate dessa tecnologia, aliando a tradição aos processos atuais e ensinando às novas gerações que serão os guardiões de tudo isso no futuro. Sem a ajuda de uma instituição tão consolidada e experiente neste setor não há como manter a tradição da fundição em bronze para fins artísticos. Trata-se de um processo industrial caro, e o Brasil não tem um mercado de arte que o sustente. O Senai já possui esta infraestrutura para fins industriais e a ideia é adaptar a linha de produção industrial e aperfeiçoá-la para obter resultados artísticos”.

Toda a complexidade deste trabalho é também abordada no livro Fundição Artística no Brasil, lançado pela Sesi-SP Editora. A obra, coordenada por Israel Kislansky, trata de maneira minuciosa o processo de fundição artística pelo método de cera perdida. Apresenta não apenas o viés artístico e técnico da fundição, como também o mercadológico. “O livro inclui o texto original da última convenção legislativa francesa, um conjunto de regras que existe desde o século XVIII, do qual muitos países são signatários. São as chamadas ‘convenções da peça única’, que ditam, por exemplo, o número de peças que podem ser reproduzidas, entre outros aspectos que garantem a legitimidade de uma escultura”, conclui o artista.

Capa do livro Fundição Artística no Brasil,
lançado pela Sesi-SP Editora.

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