File SP 2013, interatividade à flor da pele

por

A obra Pink Clouds tem projetada a imagem de um céu azul em um painel de tecido.

Quem nunca quis tocaras nuvens?
Esta e outras experiências interessantes foram vivenciadas pelos visitantes do FILE – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica – 2013, que, em sua 14ª edição, foi sucesso de público e crítica.

Dos dias 23 de julho a 11 de agosto, quatro espaços do Centro Cultural FIESP Ruth Cardoso (Galeria de Arte, Galeria de Arte Digital do SESI-SP – fachada do prédio –, Espaço FIESP e Espaço Mezanino), além da Estação do Metrô Trianon-Masp, foram tomados pelo FILE e abrigaram uma grande variedade de instalações interativas, animações, aplicativos para tablets, machinimas, experiências sonoras, net e videoarte, workshops e simpósios. O festival contemplou alguns alinhamentos (clusters). São eles: FILE Instalações Interativas, FILE LED SHOW, FILE Games, FILE Maquinema, FILE Anima+, FILE Tablet, FILE Media Art, File Metrô, FILE Hipersônica e FILE Symposium e Workshop. Todos representando conexões entre a arte e a tecnologia.

Apesar de o festival ter tido mais de mil inscritos, algumas das obras ficaram na memória do público. Entre elas destacou-se a sul-coreana Pink Clouds, onde um grande painel de tecido, esticado pouco acima da cabeça dos visitantes, tem projetada a imagem de um céu azul. Ao tocar o pano, surgem as nuvens rosa que vão sendo desenhadas pelo próprio visitante. “A interatividade é a chave para o sucesso da arte tecnológica com o público”, explica Paula Perissinotto, curadora do evento.

Balance From Within, destaque dos Estados Unidos, é outro exemplo curioso de instalação. Um sofá de 170 anos é colocado na vertical sobre um de seus pés, controlado por um mecanismo robótico. O equilíbrio é delicado e, às vezes, ele desmorona, em uma referência aos relacionamentos humanos. A ideia de o sofá representar os relacionamentos humanos e sua instabilidade, segundo o autor, “vem do fato de todas as nossas interações sociais serem feitas nesta humilde peça de mobília: jantar, conversar, fazer sexo e, até mesmo, morrer”.

Segundo Ricardo Barreto, curador do FILE, “com o boom da tecnologia a arte interativa passa a ser parte do cotidiano das pessoas, em redes sociais, celulares, computadores, smart TVs. Assim, a arte eletrônica passa a ser democrática, deixa de ser arte elitizada”.

E não pode haver nada mais democrático do que a obra do 1024 Architecture da França foi apresentada na faixada gigante de LED no próprio prédio da FIESP (FILE LED SHOW). Os transeuntes da Avenida Paulista puderam mudar as imagens do painel por meio do som de suas vozes ou quando cantarolavam uma canção. Os parâmetros do programa, tais como cor, formas, densidade e ritmos, são mudados pelo som.

Interatividade à flor da pele.

(para mais informações: www.file.org.br)

COM A PALAVRA OS CURADORES DO FILE:

Ricardo Barreto, formado em filosofia e arte

Qual o critério de seleção dos trabalhos e dos artistas para o FILE?

A seleção é feita por meio de um edital internacional. O FILE, ao longo destes 14 anos, conquistou notável reconhecimento fora do Brasil. Abrimos espaço para várias categorias: Animação Games, Arte, Arte Interativa, Arte Eletrônica. O critério é inovação, com prioridade para novos artistas. A ideia é dar espaço para as pessoas que estão inventando coisas diferentes no mundo contemporâneo.

Na sua opinião quais são as obras mais significativas da edição 2013?

Todos os trabalhos expostos têm algum aspecto de inovação relevante, não destacaria uns em relação a outros. Conseguimos selecionar trabalhos interessantes mesmo com a limitação de espaço e de transporte. Todos acrescentam algo.

Se comparada à arte mais tradicional (pintura, escultura) como se posiciona a arte tecnológica? Há preconceito por parte do público? Como é a penetração entre apreciadores de arte em geral? Por ser voltada à tecnologia e utilizar dispositivos eletrônicos, é uma arte restrita ao público jovem?

Pelo contrário. A arte contemporânea está presa a um código próprio do nicho. A arte eletrônica, embora tenha códigos digitais, é interativa. As pessoas usufruem da obra nessa relação imediata. A arte eletrônica é sucesso. O FILE é sucesso de público há anos, de A a Z, entre todas as faixas etárias. No início a crítica dizia que era uma arte elitizada. Com o boom da tecnologia, ela faz parte do dia a dia de todas as pessoas, em redes sociais, celulares, computadores, smart TVs. As pessoas começaram a conviver com isso.

Qual o destino final dos trabalhos? Existe algum tipo de comercialização dessa arte?

Arte nova. Já existem galerias que vendem essas obras e museus que as colecionam, geralmente ligados a grandes empresas digitais que reconhecem a importância dessa arte. Muitos desses artistas são programadores, que criam aplicativos para dispositivos eletrônicos para bibliotecas digitais, nas quais obtêm retorno financeiro. Outros são financiados por universidades e laboratórios de empresas. O mundo digital é interconectado. Um mesma coisa pode atender a diferentes objetivos. Uma nova interface pode virar brinquedo, game comercial, etc. Muitos começam a produzir animações interativas, games, mappings (os melhores do mundo).

Qual a importância e a repercussão de um evento desse tamanho promovido pelo SESI?

O SESI-SP e a FIESP representam inovação. A FIESP, que é um sindicato patronal, tem repercussão mundial por meio do FILE. As pessoas passam a conhecer São Paulo, a Avenida Paulista e especificamente o prédio da FIESP (com o novo painel de LEDs). Agrega valor aos patrocinados e ajuda na viabilização desse trabalho no Brasil, que não tem uma produção muito relevante. Com a repercussão internacional, o evento capta novidades do mundo inteiro. As novidades saem pelo ladrão após conquistar a plataforma mundial. A FIESP e o SESI-SP são a base para a construção desse evento enorme.

É possível antecipar novidades para a 15ª edição?

A próxima edição está sendo produzida agora, com pessoas conectadas à rede. Dezembro e janeiro começa a abertura do edital. Ano passado veio uma comitiva de japoneses para entender como fazemos essa ligação entre a rua, o metrô, o prédio da FIESP. Vieram buscar um exemplo de evento que extrapolou o limite físico da exposição e invadiu a cidade.

Espectadora observa Balance From Within, no File.

Paula Perissinoto, artista plástica

Qual o critério de seleção dos trabalhos e artistas para o FILE?

Alguns critérios mínimos: receber uma série de projetos e julgar o uso criativo e original da ferramenta digital. Há, porém, muitas variáveis, como custo de transporte e limitação de espaço físico. O que a gente mostra não é necessariamente o que mais gostaríamos de expor. Os fatores operacionais têm de ser avaliados.

Na sua opinião quais as obras mais significativas da edição 2013?

Não sei se esse é o termo. Há alguns projetos muito expressivos. O projeto do sofá é uma pesquisa acadêmica muito especial, inédita. Esse trabalho está sendo lançado mundialmente através do FILE. Destacaria o aplicativo dos japoneses o ArArte, animação das obras de arte tradicionais. São linguagens completamente diferentes. Linguagem escultórica que trabalha com o desafio da realidade, com a robótica, com a linguagem dos dispositivos móveis. Tornou-se ferramenta estética que virou obra de arte. Não só os tablets, mas aplicativos com abordagem estética. Essa edição está muito escultórica, se comparada às edições anteriores, que tinham muita imagem projetada. As obras estão ganhando caráter de escultura, que são praticamente objetos com o uso da ferramenta digital numa outra abordagem de interface. Participação de brasileiros, nessa edição são 5, com obras e pesquisas diversificadas, com a obra da Regiane Cantone (celulares nos tripés com microfones), obra do Ricardo com a Maria tátil, Bernardo travesseiro com o tato, obra da Anna Barros, da velha guarda da arte e tecnologia, com lançamento do livro, Gisela Motta e Leandro, dois artistas brasileiros do mercado de galeria que têm uma pesquisa com tecnologia, não no sentido de interação, mas de solução plástica muito bem resolvida, com sensores.

Se comparada à arte mais tradicional (pintura, escultura) como se posiciona a arte tecnológica? Há preconceito por parte do público? Como é a penetração entre apreciadores de arte em geral? Por ser voltada à tecnologia e utilizar dispositivos eletrônicos, é uma arte restrita ao público jovem?

O público em geral aceita muito mais a arte tecnológica, por conta da interação. Mesmo prejudicados pela mídia no sentido de divulgação. Ainda há resistência por parte dos museus tradicionais. Como ele recebe a arte tecnológica? Algumas instituições no Brasil enfrentaram essa barreira desse universo específico. É muito diferente pendurar um quadro na parede, mesmo com todo o custo de transporte e seguros; mas no caso da arte tecnológica tem como base uma máquina que fica ligada, com variações e desgaste, que exige instalação. Trata-se de um novo tipo de inteligência interativa que dialoga com a sociedade contemporânea. É um universo que exige estímulo e suporte de instituições. Os artistas que vão por esse caminho precisam de suporte. O FILE lança e expõe artistas de diversas partes do mundo. Um ambiente de arte tradicional e arte contemporânea exige conhecimento prévio. O FILE pode receber todos os públicos. O especialista e o estudioso, mas a linguagem interativa aproxima as pessoas. A exposição é instrumento de inclusão para pessoas que nunca entraria num universo de arte.

Qual o destino final dos trabalhos? Existe algum tipo de comercialização dessa arte?

Este não é o papel do festival e ele nem sem propõe a isso. Há algumas galerias interessadas. Não sei informar se há colecionadores. Na exposição há artistas que têm obras já adquiridas por colecionadores. A Regiane tem galeria, o Daniel Canogard (espanhol) tem galeria.

Qual a importância e a repercussão de um evento desse tamanho promovido pelo SESI?

A parceria com o SESI-SP é importantíssima. São 10 edições patrocinadas. Até então tirávamos água de pedra, com parceria de equipamento, mas não com o suporte de uma instituição. O espaço em questão tecnológica era restrito à internet discada, mas em seguida o FILE conquistou parceria com instituições e, assim, chegou ao SESI. A galeria da Avenida Paulista tem acesso de transporte, metrô, o que facilita a chegada do público.

É possível antecipar novidades para a 15ª edição?

Por enquanto ainda não.

ARTE ENTRE PARTÍCULAS

A proposta da curadoria do festival vem ao encontro da relevante produção de Anna Barros: “Valorizamos a exposição de trabalhos que tenham a pesquisa acadêmica como base aliada à originalidade no uso das ferramentas digitais. A obra de Anna Barros, da velha guarda da arte tecnológica, é um dos destaques da coletânea exposta na 14a edição do FILE com lançamento do Nanoarte”, explica Paula. Durante a abertura da festa de lançamento do livro , realizada no dia 23 de julho, a autora ressaltou a importância e originalidade da obra publicada: “Este livro pioneiro, o primeiro sobre nanoarte no Brasil, traz os resultados do trabalho de pesquisa dos últimos anos sobre arte e ciência, com textos apresentados em congressos. Agradeço ao SESI pela viabilização da publicação e ao FILE pelo espaço e relevância dispensados a este lançamento”. Além das imagens produzidas, a publicação traz relatos sobre o processo criativo da artista, totalmente inserida nas transformações da sociedade contemporânea.

“Toda arte e toda ciência acontecem em um contexto específico de coordenadas socioculturais. A maneira como arte e ciência têm interagido ao longo do tempo é proveniente, principalmente, das mudanças dessas coordenadas nas diferentes épocas” (trecho extraído do texto “Ciência e magia na Nanoarte”, página 59).

A percepção da imagem entre fragmentos do universo microscópico é a matriz usada por Anna Barros no processo criativo que mistura ciência e arte com maestria e pioneirismo.

Pouco se fala sobre a percepção gráfica e artística do universo das partículas invisíveis a olho nu. A Nanoarte, ensaio gráfico e animado sobre o microuniverso, é o que fascina a pesquisadora Anna Barros há anos. Curadora e artista multimídia, iniciou sua carreira no campo da dança de improvisação de Rudolf Laban e passou pelo Connecticut College, onde desenvolveu a percepção sobre o movimento humano ao lado de mestres como Maria Duchenes, Doris Rudko e Robert Dunn. Apropriou-se da luz como fenômeno sujeito e objeto para compor parte de sua obra original. Como desdobramento, desenvolveu animações computadorizadas em 3D e em VRML (Virtual Reality Modeling Language). Numa combinação de arte e ciência, a pioneira brasileira anima imagens captadas por microscópio e gera sequências de frames sem precedentes. A partir da observação das partículas, Anna propõe a desmaterialização da arte, numa forma de interação híbrida com a ciência, num universo onde material e imaterial perambulam pelo espaço dominado pelas funções quânticas. “Anna Barros transita entre os dois universos, Ciência e Arte, desafiando as certezas científicas quando assume o foco na física quântica”, explica no prefácio do livro Nanoarte a artista plástica e pesquisadora Paula Perissinoto, curadora do FILE.

A obra de 96 páginas apresenta uma miscelânea de produção científica e artística com pinceladas de episódios da vida pessoal de Anna. A “história ainda em construção” mostra a integração sensorial como caminho para um sistema perceptivo que, atrelado a equipamentos que capturam a realidade nanométrica como microscópios e computadores, potencializa a compreensão do mundo. Divide-se a análise apresentada em dois subtemas: o mundo mecanicista e industrial de Eric Drexler — cientista e engenheiro norte-americano responsável pela popularização do termo nanotecnologia, com trabalhos voltados à indústria — e o mundo biológico de James Gimzewski — físico escocês que combina arte e ciência em estudos nanotecnológicos. Apropriando-se de fragmentos vegetais e tecidos do corpo humano expostos à realidade aumentada da escala nanométrica, gera-se uma combinação de texturas e cores de extrema riqueza. “A tridimensionalidade observada nos tecidos que exibem topografia própria gera uma percepção tátil resultante da força eletromagnética da ponteira do microscópio e o material da mostra”, explica Paula. Para Barros, todo o universo está inserido na escala nano.

Livro Nanoarte, de Anna Barros, coleção Exposições, SESI-SP Editora, 2013.

Send to Kindle
Editorial

Editorial

Colunista

Leia também

Artes visuais

Os donos da rua

por

A arte urbana encontrou em São paulo a sua capital mundial, e artistas paulistanos estão transformando a cidade Normalmente associada […]

Artes visuais

Non finito: a arte do bronze, renascida

por

A tradição milenar de fundição de esculturas pela técnica de cera perdida é resgatada em exposição e cursos em São […]