Cinema alemão contemporâneo

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Imagem do filme Do Outro Lado.

Dois estigmas pairam sobre o cinema alemão contemporâneo. O primeiro lembra o que ocorre também com a Itália e a França: a produção atual desses países costuma ser confrontada à de seus períodos gloriosos, e a comparação, apesar do evidente (e injusto) anacronismo, tende a ser cruel com os profissionais em atividade, sobretudo os mais jovens, como se eles estivessem muito aquém de um patamar de excelência já alcançado por suas cinematografias no passado. De acordo com esse raciocínio, os protagonistas de hoje seriam meros “aspirantes” — alguns mais talentosos do que outros, mas sempre “aspirantes” — perto dos “mestres” insuperáveis de outros tempos.

No cenário alemão, duas imensas sombras históricas oferecem paradigmas incômodos às novas gerações de cineastas: a do expressionismo, na virada dos anos 1910 para os 1920, quando uma série de obras-primas — esmiuçadas por estudos clássicos de Siegfried Kracauer (De Caligari a Hitler) e Lotte H. Eisner (A tela demoníaca) — ajudou a definir o cinema como arte e também como ferramenta valiosa para a compreensão da sociedade; e a do “novo cinema alemão”, que eclodiu graças a um manifesto com apelo de “convocação para a batalha”, no Festival de Curtas-Metragens de Oberhausen de 1962, e que ganhou tradução, na década seguinte, com a consagração internacional de diretores como Alexander Kluge, Rainer Werner Fassbinder, Wim Wenders, Volker Schlöndorff e Werner Herzog.

O outro estigma, que também está longe de ser uma exclusividade alemã, tem a ver com o funcionamento do mercado cinematográfico global, sob o controle das grandes companhias norte-americanas de distribuição. Na maior parte do mundo, as salas de cinema são dominadas pela produção dos Estados Unidos; um modesto nicho é disputado pela produção dos demais países, inclusive em seus próprios territórios. Em virtude desse fenômeno de ordem econômica, poucos filmes alemães (bem como franceses e italianos, entre muitas outras nacionalidades) conseguem furar o bloqueio e fazer carreira internacional. Nesse momento, eles se tornam, no exterior, a parte que será confundida com o todo — um único filme alemão visto no período de um ano pode sugerir a um espectador desavisado, em Nova York ou São Paulo, que todos os filmes alemães se parecem com aquele, quando nem mesmo o uso do idioma alemão pode hoje ser apontado como um denominador comum.

É preciso incluir nesse pacote a mídia, que multiplica o “efeito-miragem”. Um bom exemplo é o dos filmes alemães de maior público e prestígio internacionais nos anos 2000: A Queda – As Últimas Horas de Hitler (2004), de Oliver Hirschbiegel, com Bruno Ganz (um ícone do novo cinema alemão dos anos 1970) no papel de Adolf Hitler, e A Vida dos Outros (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck, sobre as atividades da temível Stasi, a polícia secreta da antiga Alemanha Oriental. Se essa parte (notável, diga-se) representar o todo, pode-se equivocadamente concluir que o cinema alemão (e com ele, diriam os mais apressados, a própria sociedade alemã) ainda está preso ao fantasma do nazismo e às consequências geopolíticas da II Guerra Mundial. Até mesmo um terceiro filme de trânsito internacional nesse período poderia ser invocado para confirmar a tese: A Onda (2008), de Dennis Gansel, que imagina a reedição do pesadelo totalitarista entre a juventude alemã de hoje.

Essa percepção reducionista encontra um forte contraponto na seleção de filmes da Mostra Cine SESI-SP no Mundo: Alemanha Contemporânea, que reúne 14 longas-metragens lançados entre 2003 e 2010. Pode até não parecer muito, para um país que colocou 220 longas-metragens no circuito cinematográfico em 2012 (além de 298 filmes produzidos no mesmo ano para a TV), mas já configura um recorte de amplitude suficiente para perceber diferentes tendências — estéticas e temáticas — na representação da sociedade e na tentativa de conquistar o público doméstico (que é sempre o alvo prioritário de toda cinematografia, incluindo a norte-americana). As comédias, por exemplo, cumprem um papel importante na ocupação do mercado interno, mas, devido às suas especificidades culturais, raramente circulam além das fronteiras do próprio país (o que só não vale para os Estados Unidos, exportadores de todos os gêneros). Pois bem: como quase nunca vemos comédias alemãs, temos a impressão de que elas não existem, certo? Errado.

Polska Love Serenade (2008), Minhas Mentiras, Meu Amor (2009) e Uísque com Vodca (2009) representam o gênero na seleção da Mostra Cine SESI-SP. O primeiro é dirigido por Monika Anna Wojtyllo, polonesa radicada na Alemanha. Ela oferece um divertido filme de estrada sobre dois jovens alemães (Claudia Eisinger e o então estreante Sebastian Schwarz) que se conhecem por acaso na Polônia, onde foram em busca de objetivos muito diferentes: ela quer induzir o roubo do próprio carro para receber a indenização da companhia seguradora, enquanto ele busca os direitos sobre uma propriedade rural que pertenceu à família.

O humor se alimenta dos contrastes culturais — os poloneses, tratados como caipiras, parecem ser o alvo preferencial no início, mas, com o tempo, as piadas também se voltam contra a presunção alemã de superioridade — e a aventura tem um andamento pop que se dirige sobretudo ao público jovem.

Em Minhas Mentiras, Meu Amor (2009), o espírito de sátira — também endereçada, em especial, ao espectador jovem — atinge a indústria editorial. Baseado em romance de Martin Suter, o diretor Alain Gsponer encena uma trama farsesca sobre um garçom (o teuto-espanhol Daniel Brühl, de Adeus, Lênin e Bastardos Inglórios, entre outras produções internacionais) que, para se aproximar de uma estudante de literatura (Hannah Herzsprung, da ficção científica de horror Um Inferno), finge ser o autor de um romance cujos originais encontrou em um criado-mudo. O golpe, ingênuo, adquire proporções inesperadas quando ela envia o texto a uma editora, que decide publicá-lo. Com o sucesso de vendas e de crítica, um homem misterioso (Henry Hübchen, o astro da popular comédia Todos Contra Zucker!) aparece para dizer que o livro é seu. Será mesmo? A exemplo do que ocorre em Polska Love Serenade, o humor se combina aqui com uma trama romântica — formato que sempre exerce grande apelo, sobretudo para o público feminino.

Hübchen protagoniza também Uísque com Vodca, dirigido por Andreas Dresen, que parece homenagear Memórias (1980), de Woody Allen, ao ambientar a história em um set de filmagem em uma cidade litorânea e usar na trilha sonora algumas canções populares já ouvidas em filmes do cineasta norte-americano. O diretor do filme dentro do filme (Sylvester Groth, que interpreta Joseph Goebbels na comédia Minha Quase Verdadeira História, sobre Hitler) começa a ter problemas ao rodar um longa de época, sobre um triângulo amoroso nos anos 1920, quando seu ator principal (Hübchen, brincando com sua própria persona cinematográfica) exagera na bebida e nos caprichos pessoais. Para mexer com a sua vaidade e pressioná-lo a trabalhar, o produtor impõe a presença de um substituto (Markus Hering) que gravará simultaneamente todas as cenas. Os bastidores da filmagem envolvem diversas outras situações delicadas, entre as quais o fato de a atriz principal (Corinna Harfouch, a mulher de Goebbels em A Queda) ter sido casada com o ator encrenqueiro antes de se casar com o… diretor.

A leveza desses três longas é balanceada, no recorte da Mostra Cine SESI-SP, por dramas que tratam de situações psicologicamente densas, menos compromissados com o mercado — e, portanto, mais sintonizados com o entendimento de “filme europeu” (ou seja, “de arte”) entre os espectadores que frequentam as poucas salas de cinema onde eles são exibidos no Brasil. É o caso de Yella (2007), Férias (2007) e No Inverno Há um Ano (2008), que propõem experiências às vezes incômodas ao lidar com perdas e frustrações. No primeiro, que reúne atriz (Nina Hoss) e diretor (Christian Petzold) do igualmente bem-sucedido Barbara, a personagem-título acabou de se separar do marido (Hinnerk Schönemann) — que, no entanto, continua a atormentá-la. Na maior parte do filme, a realidade parece se misturar às fantasias e aos temores mais profundos de Yella, em uma dimensão que só o final da trama se encarregará de revelar. A sensibilidade feminina é trabalhada esteticamente por Petzold, em uma ambientação opressiva do mundo controlado por homens.

A preocupação com a perspectiva feminina está presente também em Férias, dirigido por Tomas Arslan, sobre uma família que se reúne em uma casa de campo. A anfitriã (Angela Winkler), sua mãe doente (Gudrun Ritter) e suas duas filhas que moram longe (Karoline Eichhorn e Anja Schneider) concentram as atenções, com os homens da trama exercendo papéis secundários no sutil jogo de emoções que transcorre durante alguns dias do verão. Filme de silêncios, de imagens que se fixam na tela como pinturas e de lacunas a serem preenchidas pelo espectador. O ritmo lento e contemplativo é semelhante ao de No Inverno Há um Ano, dirigido por Caroline Link, que recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro por Lugar Nenhum na África (2001). Um pintor (Josep Bierbichler, de Código Desconhecido) é contratado por uma mulher (Corinna Harfouch, de Uísque com Vodca, aqui em registro mais dramático) para fazer o retrato de seu filho morto (Cyril Sjöström), contra a vontade do seu marido (Hanns Zischler) e de sua filha (Karoline Herfurth, de As Donas da Noite).

Henry Hübchen (à direita) protagoniza Uísque com Vodca.

Outro recorte importante da produção alemã contemporânea trata das relações com os fluxos migratórios das últimas décadas. Seu maior representante talvez seja o diretor Fatih Akin, filho de imigrantes turcos que se instalaram na Alemanha há meio século. Em 2008, o jornal francês Libération o incluiu em uma relação de 36 personalidades que representavam a “Europa de amanhã”. A lista VIP só incluía mais três cineastas: o francês de origem tunisiana Abdellatif Kechiche (O Segredo do Grão), o romeno Cristi Puiu (A Morte do Sr. Lazarescu) e o português Hugo Vieira da Silva (da produção alemã Swans, inédita no Brasil). A sólida filmografia de Akin inclui Do Outro Lado (2007), cuja trama circula por Hamburgo, Bremen (ambas no norte da Alemanha) e Istambul (Turquia) para estabelecer conexões entre personagens turcos e alemães, sugerindo que não se pode contar a história da própria Europa sem fazer referência a essa teia multiétnica que a todos envolve, direta ou indiretamente.

A presença turca na Alemanha pauta ainda outro drama de forte perspectiva feminina, A Estrangeira (2010), escrito e dirigido pela também atriz Feo Aladag. Maltratada pelo marido, uma mulher turca (a alemã Sibel Kekilli, filha de turcos, que já havia estrelado Contra a Parede, de Fatih Akin) decide fugir de Istambul com o filho e se abrigar temporariamente na casa dos pais, em Berlim — onde os dogmas muçulmanos continuam, no entanto, a persegui-la.

Vencedor da competição oficial da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2010, é um dos mais premiados filmes alemães dos últimos 10 anos — e não deixa de ser especialmente significativo que obtenha esse reconhecimento ao tratar de um tema que muitos espectadores associariam mais ao cinema da Turquia do que ao da Alemanha. Voltado para a presença libanesa no país, o documentário Neukölln Unlimited (2010) — dirigido por Agostino Imondi e Dietmar Ratsch — faz uma curiosa ponte entre o tratamento preconceituoso dado a imigrantes e sua inserção na sociedade, graças ao universo hip-hop e por meio de concursos de breakdance.

Que ninguém pense, contudo, que o cinema alemão também não flerta — exibindo a mesma competência técnica e dramática — com as fórmulas bem-sucedidas do cinema hollywoodiano, como demonstra o drama de época O Milagre de Berna (2003).

Dirigido por Sönke Wortmann (que, não por acaso, já havia trabalhado nos Estados Unidos em Uma Grande Jogada), o filme recria a vitória surpreendente da então Alemanha Ocidental na Copa do Mundo de futebol de 1954, batendo na final a lendária equipe da Hungria (que havia desclassificado a seleção brasileira nas quartas de final por 4 x 2). Os húngaros eram os “Mágicos Magiares”, liderados pelos craques Puskás e Kocsis. Os alemães interpretavam os patinhos feios da história. Como ensina a tradição narrativa norte-americana, esse triunfo — que celebra a perseverança e o espírito coletivo frente às piores adversidades — adquire uma carga sentimental ainda mais expressiva porque é visto pelos olhos de uma criança (Louis Klamroth). Quando quer, o cinema alemão faz o espectador soltar lágrimas tipicamente hollywoodianas.

A Mostra Cine SESI-SP no Mundo: Alemanha Contemporânea é composta de 14 filmes, sendo que as exibições estão
divididas em duas partes: sete filmes até dezembro de 2013 e os outros sete em 2014. Consulte a programação completa no site: www.sesisp.org.br/cultura.

Jornalista, mestre em Artes/Cinema, com uma dissertação sobre a obra de Woody Allen, e doutor em Meios e Processos Audiovisuais, com uma tese sobre a formação de professores para a educação audiovisual, pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É diretor de projetos do Laboratório de Mídia e Educação (MEL – Media Education Lab), editor dos cadernos “Cine-Educação” (Cinemateca Brasileira/Via Gutenberg), crítico do jornal Valor Econômico, blogueiro da Folha de S.Paulo, apresentador do canal Arte 1 e colunista das revistas Educação, Escola Pública, Língua Portuguesa, Ideia Sustentável e Viração.

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