A obra de arte na era de sua valorização cultural

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Dona Marina, A Catrina, obra de Felipe Linares Mendoza, 1992, Cidade do México, México.

Mais do que apenas objetos icônicos, as produções artísticas artesanais são capazes de preservar tradições e de permear em si a identidade de seus criadores. Expressão da criatividade de povos e comunidades, a arte popular ultrapassa fronteiras e destrói o concreto das convenções.

A arte é uma atividade manifestada pelos homens desde os tempos ancestrais, a partir do momento em que passaram a viver em grupos organizados socialmente. Foi na contemporaneidade, porém, que surgiu a tendência de classificar tal manifestação natural por tipos, escolas e vertentes, o que nos conduz automaticamente à dicotomia entre “arte erudita” e “arte popular”. Para o pesquisador português Nuno Saldanha, estes são conceitos complexos, que devem ser usados com precaução, posto que nem sequer existe uma definição precisa sobre as realidades a que um ou outro se referem. O termo “popular” em si próprio é um dos mais ambíguos, quase tão indefinível quanto a própria arte. O conceito de erudição também não oferece maiores certezas.

Talvez a saída, para fins de entendimento, seja observar os dois “tipos” de arte pela ótica da “exclusividade” x “reprodutibilidade”, mas nem esta perspectiva oferece um campo pleno de acertos. Que o diga o principal autor a tocar neste assunto, o sociólogo Walter Benjamin, com seu clássico ensaio “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”, escrito originalmente em 1936. O estudioso questiona o valor da obra de arte, a partir do momento em que surgiram técnicas que facilitam a sua reprodução em série – um desenho infinitamente copiado por meio da impressão gráfica, por exemplo. Diz ele que, “mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existência única, no lugar em que ela se encontra”.

A crítica à obra de arte reproduzida, feita pelo sociólogo associado à famosa Escola de Frankfurt, poderia ser aplicada à arte popular, que, por natureza, não é algo exclusivo, e sim muitas vezes reproduzido com fins comerciais. Porém, não se pode acusar a produção artesanal de falta de tradição ou ausência de referenciais. São esses, aliás, seus principais atributos, as palavras-chave a decifrar seu intricado conceito. Não apenas isso, a arte popular pode ter uma adição de valor justamente porque uma de suas funções é preservar a cultura, manter vivos os costumes e destacar a expressão artística do homem “comum”, que, por tal instrumento, se vê reconhecido. É, ainda, uma atividade que deve ser observada não apenas sob a perspectiva estética, mas também por sua dimensão econômica e social, como um meio de desenvolvimento para melhorar a qualidade de vida dos criadores e das comunidades em seu entorno.

Na verdade, as fronteiras entre a “arte popular” e a “arte erudita” sempre foram e continuarão a ser incertas, difusas. Em sua origem, a produção artesanal tem relação com o termo folclore (o saber do povo), que no século XVIII foi traduzido como “cultura do povo” ou “cultura popular”, referindo-se apenas ao cabedal literário integrado por contos, fábulas, sagas, poemas e cantigas conservadas pela tradição oral camponesa.

No entanto, naquele momento histórico, sob o impacto da Revolução Industrial e das influências do conhecimento científico, esse saber oral, transmitido de geração para geração e derivado da prática, era rechaçado por representar um mundo que o progresso preferia esquecer.

Isso pode explicar o sentido pejorativo muitas vezes atribuído à palavra folclore e, consequentemente, à cultura popular, por ser originada nos extratos da população trabalhadora mais pobre. Tratava-se, então, das culturas dos migrantes rurais expulsos do campo e incorporados como mão de obra pela expansão industrial. No mundo contemporâneo, essas pessoas podem ser encontrados em favelas e bairros pobres da periferia das grandes cidades. Ou seja, as manifestações culturais incluídas no âmbito do folclore e da cultura popular sempre estiveram vinculadas a grupos sociais colocados em posição subalterna.

No dias de hoje, a arte popular é simplesmente entendida como uma expressão da criatividade dos povos e das comunidades. As criações refletem a vida cotidiana, os costumes e as tradições de quem as produziu, os bens herdados de gerações anteriores, que representam o eixo de valores simbólicos em torno do qual se constrói a identidade e o sentido de domínio desses grupos. Por isso mesmo, a arte popular também ajuda a entender como vivem certas sociedades em diferentes países e quais são os seus costumes.

As diversas manifestações são sempre complementares e vinculadas entre si: dança, música, gastronomia e festa, com destaque para a produção artesanal, especialmente por esta última fazer parte das redes sociais, econômicas e culturais do meio rural, das zonas populares das cidades e, certamente, das composições étnicas de cada país. Em geral, essa produção abrange peças utilitárias, decorativas e cerimoniais, objetos para o uso diário no lar e no trabalho, que têm algum propósito estético associado ao seu uso cotidiano ou a uma finalidade ritual.

São concebidas a partir de técnicas muitos simples, manuais ou com ferramentas não industriais, ainda que muitas delas tenham alta complexidade técnica. Esta atividade pode representar a chave para uma vida melhor para muitos homens e mulheres, sendo realizada no interior de economias principalmente domésticas, basicamente como meio de subsistência. Os criadores podem se dedicar a isso em tempo integral, parcial ou durante temporadas.

Arte popular na América

Em 2012, o Ministério da Cultura do Brasil lançou o Plano Setorial para as Culturas Populares, cujo objetivo é integrar diretrizes no sentido de implementar políticas públicas. A iniciativa do MinC se configura, desde 2003, como um esforço de alta complexidade. Primeiro porque vivemos em um país de dimensões continentais. Segundo pela multiplicidade étnica resultante da colonização ibérica, das invasões francesa e holandesa, dos povos africanos trazidos para cá por meio do comércio de escravos, dos nativos indígenas e de todos os outros elementos que compõem a sociedade brasileira, como os imigrantes que chegaram com a industrialização. Todos esses povos misturaram símbolos, ícones, santos, ritos e tradições e geraram um universo formado pela influência de várias culturas, costumes, cores, ritmos, poesias, odores e sabores. É nesse contexto que surge a arte popular.

O problema é que o Brasil, até muito recentemente, escreveu sua história sob a lógica da dominação cultural exógena. Foi pelas mãos de pessoas como o crítico e historiador da literatura brasileira Sílvio Romero (1851-1914) e, principalmente, do escritor Mário de Andrade (1893-1945), que os valores da cultura popular começaram a ser resgatados. Porém, o cenário só mudou para valer depois da promulgação da Constituição de 1988, que pede o reconhecimento de uma sociedade composta por uma “pluralidade de categorias sociais, de classes, grupos sociais, econômicos, culturais e ideológicos”. No mundo, o marco de passagem está sedimentado em 2005, quando a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) produziu a Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais.

A definição dessa diretriz global também é importante para consolidar, no Brasil, as relações com a nações coirmãs da região ibero-americana, integrada por países que já fizeram parte dos impérios espanhol e português, e que, talvez por isso mesmo, têm muitos pontos de convergência cultural no que tange à produção artística. Na Europa, há ainda a participação de Andorra no grupo de países-membros. Nas Américas, além do Brasil, outros 19 países são integrantes. E o que esperar de um caldo que reúne diferentes idiomas, dialetos, origens, tradições e etnias? Nada menos que uma rica mistura cultural, que, transformada em arte, encanta por sua diversidade, riqueza e bagagem pesada e tão extensa quanto a geografia da região.

Árvore dos artesanatos ibero-americanos, 2012, feita em barro moldado, modelado, com decoração em relevo e policromado a frio, Metepec, México.

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Grandes Mestres, preservando tradições

Embora hoje estejam preservadas e salvaguardadas pela Unesco, a cultura e a arte populares já sofreram sérios danos, correndo mesmo o risco de ver extintas determinadas práticas e técnicas artesanais. Nesse contexto, sobressaem os grandes mestres, indivíduos centrais no processo de manter viva a tradição. O movimento de reconhecimento desses expoentes começou em meados do século XX, mesmo assim só uma pequena parte da sociedade está consciente da sabedoria e da experiência desses artesãos.

Um grande mestre se diferencia do grupo de artesãos porque, com suas obras, consegue transmitir um vínculo especial entre os materiais e seu trabalho. Ele é capaz de permear suas peças de lampejos de genialidade, criatividade e maestria no manejo das técnicas. É aquele que se torna um exemplo reconhecido pela comunidade, graças à beleza e força de suas peças, à excelência de sua manufatura, à trajetória na criação artesanal e ao domínio de sua arte. São, invariavelmente, pessoas brilhantes, generosas, diretas e guiadas pela paixão, qualidades que estimulam seu trabalho diário.

Na perspectiva ibero-americana, os mestres artesãos são homens e mulheres indígenas, mestiços ou europeus, com uma importante trajetória dedicada ao trabalho artístico. São muitos os nomes e as obras, como a tecelagem da mexicana Nicolasa Pascual Martínez, as vasilhas utilitárias da colombiana Rosa María Jerez, as árvores da vida em barro dos mexicanos José Alfonso Soteno Fernández e Óscar Soteno Elías, as joias em prata e cobre do chileno Lorenzo Antonio Cona Nahuelhual, as peças decorativas em âmbar do dominicano Jorge Caridad, os brinquedos de madeira do venezuelano Mario Calderón, ou as figuras populares em barro do brasileiro Antonio Rodrigues da Silva.

Um vislumbre de arte popular

Um pouco dessa arte tão rica pode ser capturado pelos visitantes da mostra “Grandes Mestres da Arte Popular Ibero-americana”, da Coleção Fomento Cultural Banamex (Banco Nacional do México), que fica em cartaz até 19 de janeiro de 2014, na Galeria de Arte do SESI-SP, no Centro Cultural FIESP – Ruth Cardoso, na capital paulista.

A exposição tem curadoria de Cándida Fernández de Calderón e já passou por México, Espanha e Colômbia. Chega ao Brasil com mais de 1.300 obras, o melhor do trabalho artesanal de cerca de 50 etnias e mais de 260 populações, que abarcam uma grande parte do território da região. Entre eles estão 79 brasileiros, como Welivander César de Carvalho e Glória Maria Andrade (Minas Gerais), Anapuata Mehinako (Mato Grosso), Marcos Borges da Silva e Marcos de Nuca (Pernambuco).

A Coleção Banamex reúne mais de 2.300 peças, selecionadas e reunidas entre os anos 2007 a 2012, em aproximadamente 390 localidades, como amostra representativa do trabalho de 650 grandes mestres. É um resultado da ampliação do Programa de Apoio à Arte Popular Mexicana, ação de incentivo cultural criada em 1996, cuja proposta é oferecer a um grupo de artesãos a possibilidade de um futuro mais digno em suas comunidades, proporcionando uma remuneração justa por seu trabalho. O programa inclui a publicação de um livro com os 500 grandes mestres selecionados e a exibição da mostra em diversos países da América e da Europa até 2016.

De tudo, o que se depreende é que a arte popular deixou de ser um fenômeno secundário ou uma simples faceta pitoresca da cultura para converter-se em um meio de expressão forte que revela a presença tanto no imaginário de comunidades inteiras como no dos indivíduos. O que chamamos de arte ou cultura popular ganhou, paulatinamente, uma posição-chave no itinerário da história, da estética e da antropologia, permeando com peso específico os campos acadêmicos e institucionais, gerando influências e pontos de contato com numerosas manifestações formais do mundo contemporâneo.

Referências bibliográficas

BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica

SALDANHA, Nuno. Arte Popular, Arte Erudita e Multiculturalidade. Influências, confluências e transculturalidade na arte portuguesa

MINISTÉRIO DA CULTURA. Plano Setorial para as Culturas Populares 2012

Exposição Grandes mestres da arte popular ibero-americana

Local: Galeria de Arte do SESI-SP, no Centro Cultural FIESP – Ruth Cardoso (av. Paulista, 1.313, em frente à estação Trianon-Masp do metrô)

Quando: até 19 de janeiro de 2014 – diariamente, das 10 às 20h

Classificação indicativa: livre

Informações: (11) 3146-7405 e 3146-7406

Agendamentos de grupos e escolas: (11) 3146-7396, de segunda a sexta, das 10h às 13h e das 14h às 17h

Entrada gratuita. Os espaços têm acessibilidade

Obras confeccionadas em barro, que fazem parte da exposição Grandes Mestres da Arte Popular Ibero-Americana.

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