A Natureza em seu papel de musa inspiradora

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Imagem utilizada na capa do livro A natureza no processo de design e no desenvolvimento do projeto, lançamento da SENAI-SP Editora.

A natureza sempre foi um dos principais focos de observação da humanidade. Seja para garantir sua adaptação e sobrevivência nas primeiras épocas nas quais se relata a vida humana ou para buscar, até hoje, no meio ambiente, soluções para questões ligadas a diversas áreas como saúde, engenharia e arquitetura, o homem constantemente recorreu às experiências que viveu ou ao menos, de alguma forma, testemunhou no meio natural. Basta uma breve análise das consideradas grandes descobertas da história para concluir que essas referências contribuíram – e continuam contribuindo – para parte considerável delas.

Podemos partir de exemplos mais simples, como a invenção do velcro, na década de 40, pelo engenheiro suíço Georges de Mestral, a partir de observações das sementes de Arctium que grudavam em suas roupas em suas caminhadas matinais, chegando a outro que tem um impacto muito profundo no tratamento de doenças: a descoberta da penicilina. Ao analisar o bolor que se formou acidentalmente no material que estudava enquanto esteve em férias, o escocês Alexander Fleming notou que este auxiliara na eliminação de diversas bactérias. Uma observação que já salvou e continua a salvar milhares de vidas no mundo todo.

Foi justamente a enorme curiosidade e suas profundas análises de aspectos da natureza que transformaram o italiano Leonardo da Vinci em um dos principais gênios de nossa história. Hoje reconhecido mundialmente como pintor, Da Vinci, entre seus diversos estudos, observou o voo dos pássaros e a estrutura de suas asas com o objetivo de desenvolver máquinas que fizessem o homem voar. Não obteve sucesso, mas hoje seus projetos são considerados precursores de instrumentos de voo como o helicóptero e o paraquedas.

Eduardo Dias, mestre em Design e Arquitetura pela Universidade São Judas Tadeu de São Paulo, quando ainda era estudante, na década de 90, começou a se interessar pela influência das linhas e da funcionalidade da natureza nos projetos de profissionais de diversas áreas.

Em suas pesquisas sobre o tema, conheceu o trabalho de Luigi Colani, designer alemão e fundador do conceito de biodesign, pelo qual se apaixonou. Formado na Academia de Belas Artes de Berlim, Colani foi ainda aluno de engenharia aerodinâmica na Universidade de Sorbonne, em Paris, onde efetivamente passou a estudar as linhas e formas da natureza e começou a adaptá-las a seus projetos de artes e engenharia. “Hoje ele é, sem dúvida, um dos maiores inspiradores de profissionais de designers do mundo todo e suas linhas são incontestavelmente – e por vezes exageradamente – orgânicas”, comenta Dias.

Para se ter uma ideia de como a natureza pode ser uma riquíssima fonte de inspiração, os trabalhos do “pai” do biodesign incluem desde projetos de aeronaves — inspirados nas formas de aves e animais subaquáticos — , automóveis e obras de arte até coleções de sapatos para as mais famosas grifes do mundo, sempre tendo como referência não apenas a estética, mas também a aplicabilidade de cada um dos componentes do meio natural.

SUSTENTABILIDADE

Com o passar dos anos, a natureza continuou a ser observada e contemplada em projetos da humanidade, mas, principalmente na última década, passou também a ser vista com um olhar diferenciado, para além de suas formas, linhas e funcionalidades. Um olhar para os impactos dessas invenções no futuro de seus recursos naturais.

“O acesso cada vez maior a informações, o cuidado com o planeta e os impactos das ações do homem na natureza passaram a se refletir cada vez mais em todas as áreas; e no design mundial não está sendo diferente”, afirma Dias.

Seja por meio da utilização de materiais que podem ser reutilizados ou totalmente reciclados, pela economia e maior eficiência na utilização de recursos durante o desenvolvimento dos projetos ou mesmo considerando a amenização de impactos ambientais após a conclusão dos mesmos, cada vez mais designers vêm aderindo a essa onda sustentável.

Hoje, cursos como Design e Desenho Industrial, entre outros da área, já possuem disciplinas específicas sobre sustentabilidade. “Isso porque o mercado e as empresas já estão atentas à importância do tema”, afirma Dias. “Em um primeiro momento, porque valoriza a marca, mas, mais importante que isso, porque é um passo fundamental na construção de um futuro melhor e para a garantia da perenidade dos recursos naturais”, complementa.

Dias comenta que o despertar da consciência em relação ao mundo natural também é um dos principais responsáveis pela divulgação cada vez maior da disciplina chamada biomimicry ou biomimetismo, que “busca em estruturas naturais soluções para problemas na engenharia, na ciência dos materiais, na medicina e em outros campos”.

Uma das principais referências no assunto, a bióloga e cientista norte-americana Janine Benyus esteve no Brasil recentemente para desenvolver, em parceria com a Tátil Design de Ideias, um projeto na área de inovação em embalagens para a empresa de cosméticos Natura. A intenção foi buscar insights nas formas como “a natureza contém e transporta líquidos”.

“Estudamos a cadeia de ponta a ponta para otimizar recursos, ganhar eficiência e reduzir impacto ambiental em cada etapa do processo”, comenta a gerente de Marketing da Natura, Fabiana Pellicari. “Assim é possível chegar a soluções que geram menos lixo, menor gasto de energia, menos transporte e, consequentemente, menos poluição”, explica. A Tátil Design de Ideias, parceira da Natura, é uma empresa que já se apresenta como uma consultoria estratégica que usa o design para criar conexões sustentáveis entre pessoas e marcas.

São poucas as companhias que desenvolvem, na prática, ações sustentáveis com tamanha profundidade. Não restam dúvidas de que ainda há muito a ser feito para que a sustentabilidade seja contemplada em sua totalidade nos projetos das mais diversas áreas, mas Dias acredita que este seja um caminho sem volta, principalmente em razão do número cada vez maior de estudos nesse sentido. “Na área de design, por exemplo, esse é um assunto que vem ganhando força nas faculdades e nos cursos livres”, comenta. Mas ele ainda tem os pés no chão: “Ainda é preciso mudar a maneira de pensar o design e superar o medo de agir”, alerta.

A ARTE COMO FORMA DE CONSCIENTIZAÇÃO AMBIENTAL

Ao desenvolver a vitrine para os trabalhos de conclusão de curso dos alunos de Design de Joias da unidade paulistana do Instituto Europeu de Design (IED), em janeiro deste ano, o designer Rubens Mancini vislumbrou mais uma oportunidade de aplicar todo seu conhecimento e, mais que isso, sua crença na importância de se trabalhar sempre tendo em vista um mundo melhor.

O resultado foi um grande painel de 16 metros de comprimento todo elaborado com papel e chapas de papelão. “Neste caso, pude demonstrar a possibilidade de se produzir mobiliário duradouro e com ótimo acabamento com um material que pode ser reciclado”, comenta.

Com um vasto currículo, que inclui atendimento a grandes empresas do país, Mancini acredita que ainda há um longo caminho a ser percorrido, e que ele deve ser apontado desde as escolas ou faculdades que de alguma maneira abordam a área de design. “O design é a alavanca de qualquer projeto, é a partir dele que se deve contemplar a logística reversa dos materiais utilizados e os impactos de sua implantação para as gerações futuras”, comenta.

O paulistano Nido Campolongo ganhou fama e reconhecimento por ser um designer que utiliza o papelão como matéria-prima, mas seus trabalhos vão muito além desse tipo de material e hoje são fonte de inspiração para outros artistas que buscam conscientizar a população sobre reciclagem por meio de suas obras.

Em linha com o conceito de design sustentável aplicado em suas obras, Campolongo utilizou taipa urbana no cenário que produziu recentemente na II Feira de Livros das Editoras SESI-SP e SENAI-SP, em novembro de 2013. Para desenvolver o trabalho, uniu terra e materiais residuais para fazer alguns dos mobiliários que ornamentaram o local. Para o evento, também produziu móveis feitos de outros materiais reciclados, como papelão.

Os mobiliários da feira foram desenvolvidos pelos alunos do projeto “Taipa Urbana”, idealizado por Nido e pela arquiteta Letícia Achat, em uma parceria com a Oficina Cultural Alfredo Volpi, na zona leste da capital paulista. O objetivo da iniciativa é ensinar pessoas de comunidades carentes daquela região a utilizarem taipa urbana em projetos de construção. “Além de aprenderem um novo ofício, os participantes do curso podem utilizar o conhecimento adquirido para desenvolver móveis e casas para uso próprio”, comenta o designer. Nido destaca ainda que a taipa urbana é um material que substitui o concreto, que tem um dos processos industriais mais poluentes do mundo.

Outro exemplo importante de seu trabalho é a decoração da rampa que dá acesso aos pisos superiores do Conjunto Nacional, edifício localizado na Avenida Paulista, em São Paulo. Ela é ornamentada com 34 anéis posicionados ao longo de uma espiral, por isso o nome Projeto Espiral. Dentro de cada um desses anéis, é possível visualizar materiais recicláveis como alumínio, madeira e papelão.

Produção das peças pelos alunos do projeto “Taipa Urbana”, coordenado pelo artista Nido Campolongo.

“Comecei a trabalhar com papel há 17 anos, primeiramente pela estética que esse tipo de material possibilita criar. Com o passar dos anos, a questão da reciclagem passou a ganhar uma relevância muito grande”, explica.

Para Nido, a tecnologia voltada para reciclagem está mais desenvolvida em alguns outros países, mas no Brasil o tema conquistou um espaço muito significativo por sua função social. “Isso porque a reciclagem é responsável pela absorção de mão de obra de cooperativas e organizações não governamentais, o que acaba tendo reflexos também na área de design sustentável”, comenta.

Quando fala de suas inspirações, Nido afirma que estão muito voltadas para o design oriental na parte estética, mas enfatiza que não poderia deixar de citar o brasileiro Vik Muniz na questão social. O artista plástico, atualmente radicado em Nova York, nos Estados Unidos, é conhecido mundialmente por utilizar novas mídias e materiais inusitados em suas obras. Entre elas, estão réplicas da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, feitas com geleia e manteiga de amendoim.

O trabalho de Vik Muniz em um dos maiores aterros sanitários do mundo, o Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, foi filmado ao longo de quase dois anos – entre 2007 e 2009 – e originou o documentário Lixo Extraordinário. Com o objetivo inicial de retratar a rotina dos catadores de materiais recicláveis, o documentário acabou demonstrando o poder transformador da arte na vida daquelas pessoas. Não foi à toa que, além de ter sido eleito o Melhor Documentário no Festival de Cinema de Paulínia em 2011, a obra foi indicada ao Oscar no mesmo ano.

Quem tiver interesse nessa relação entre o homem e a natureza e como tirar proveito dessa sinergia em nome da arte, pode conferir o livro lançado neste mês pela SENAI-SP Editora: A natureza no processo de design e no desenvolvimento do projeto. Nele, o autor, Eduardo Dias, fez uma viagem no tempo para demonstrar as principais abordagens do sistema natural nas artes, na arquitetura, na engenharia e em outras áreas ao longo da história.

Mobiliário utilizado na II Feira de Livros das Editoras SESI-SP e SENAI-SP feito a partir de materiais reciclados do projeto “Taipa Urbana”.

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