Uma salva de palmas

Montagem da peça "O sertão é dentro da gente" (2000).

Há 100 anos, nascia uma das figuras mais importantes para a dramaturgia brasileira. Também um grande ícone das letras, Nelson Rodrigues, com sua sensibilidade e olhar atento, foi responsável por transmitir para o papel um pouco do cotidiano do brasileiro. Seus textos ganharam o teatro, o cinema, a televisão, o jornal e o rádio de todo o País. Neste ano também é celebrado outro aniversário relevante para os apaixonados pelo teatro: os 25 anos do Núcleo de Artes Cênicas do Sesi-SP, o NAC.

Tanto Nelson Rodrigues quanto o NAC contribuíram substancialmente para o desenvolvimento do teatro brasileiro. Trouxeram para os palcos as características mais marcantes da cultura brasileira, com seus contornos e nuances mais densas. Dramas, comédias e suspenses ganharam espaço em salas de espetáculos de todo o País, tornando a arte cênica mais próxima e reconhecida pelo grande público.

Uma longa história

O teatro brasileiro teve suas primeiras montagens realizadas pelos jesuítas, no remoto século XVI. Em palcos improvisados, padres e índios jovens e crianças faziam as vezes de atores. Colonos e indígenas mais velhos formavam a enxuta plateia, que era catequizada por meio dessas montagens, escritas em linguagem acessível ao povo.

A temática relembra as circunstâncias que criaram o teatro, quando na Grécia antiga encenações louvavam deuses e contavam suas histórias. Lá, Ésquilo, Sófocles e Eurípedes eram responsáveis por escrever tais peças, entre 525 a.C. e 386 a.C. Por aqui, José de Anchieta e Antônio Vieira, jesuítas que desembarcaram no Brasil entre 1500 e 1600, podem ser considerados os primeiros dramaturgos.

No entanto, foram necessários mais 400 anos para que a primeira escola de teatro fosse estabelecida no Brasil. Em 1911, na antiga capital do País, foi fundada a Escola Dramática Municipal do Rio de Janeiro, atual Martins Pena. Seu curso prático formou atores como Procópio Ferreira e deu origem ao Conservatório Nacional de Teatro, em 1953. Ainda hoje, é referência no ensino desta arte.

São Paulo demorou um pouco mais para receber seu espaço para aulas de artes cênicas. O Teatro Escola São Paulo (Tesp) funcionou de 1948 a 1951, quando seus fundadores passaram a oferecer teleteatro para o público infanto-juvenil.

Montagem da peça “O sertão é dentro da gente” (2000).

Um aficionado pelo teatro

Osmar Rodrigues Cruz sempre foi um curioso sobre as artes cênicas. Dedicava -se à coleção de livros da Europa que explicavam técnicas e novidades a esse respeito. Por esta paixão, participava do movimento para a criação do teatro universitário, coordenado pelo Centro Acadêmico Horácio Berlink, da Faculdade de Ciências Econômicas de São Paulo, onde estudava. Desde o final da década de 1940, dirigia o Teatro Universitário do Centro Acadêmico, com apresentações no Teatro Municipal, e atuava junto ao Grupo Teatral Politécnico, em cartaz no Teatro Cultura Artística.

Em 1948, Osmar fundou o Teatro-Escola no Teatro Universitário, mantendo contato com importantes diretores, como Ziembinski, atores como Paulo Autran e outros das equipes do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) – companhia responsável pela “importação” de relevantes artistas italianos, que inspiraram os brasileiros na criação do moderno teatro brasileiro. Em pouco tempo, Osmar integrou a equipe de Teleteatro da Tupi e pouco depois dirigiu uma novela na TV Excelsior. Nessa mesma época, iniciou seu trabalho como educador, ministrando cursos de artes cênicas no Grêmio da Caixa Econômica.

Em 1951, Osmar abandonou a TV e prestou concurso para ingressar no Serviço de Teatro do Sesi, passando em primeiro lugar para a vaga de ensaiador de grupos dramáticos – ou, simplesmente, diretor. Com esta oportunidade, ele pôde solidificar sua experiência como educador e também promover sua intenção de fazer teatro popular no Brasil – ideia já muito presente e desenvolvida na Europa, principalmente na França.

No ano seguinte, em 1952, em busca de ver seu sonho realizado e seguindo sua vocação, Osmar, junto com outros amigos, fundou a Federação Paulista de Amadores Teatrais (FPAT), promovendo cursos focados na formação de monitores para direção de grupos de teatro amador. O local também oferecia curso intensivo, com duração de um ano e meio, e outros de especialização em cenografia, direção e dramaturgia. Com o objetivo de formar atores e adotar um estilo brasileiro de representar, o FPAT passou a utilizar temas nacionais e da realidade brasileira.

Em 1959, Osmar fundou o Teatro Experimental do Sesi (TE-Sesi), que, devido ao sucesso, permitiu a criação do Teatro Popular do Sesi (TPS), recebendo autorização da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para alugar um espaço adequado às suas produções. O Teatro Maria Della Costa foi o escolhido e, em 1963, foi estreada a montagem de A Cidade Assassinada, de Antônio Callado.

O popular teatro do SESI

O teatro-sede só foi inaugurado em 1977, no edifício Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho, na Avenida Paulista. O TPS levou ao extremo a democratização da cultura e ousou inaugurar a sede com um espetáculo sobre o compositor carioca Noel Rosa, O Poeta da Vila e Seus Amores, dirigido por Plínio Marcos.

Naquela época, Osmar Rodrigues Cruz e seu assessor, Francisco Medeiros, chamaram o arte-educador Acácio R. Vallim Jr. como consultor para iniciar a preparação dos administradores que assumiriam a tarefa de orientação teatral de grupos.

Estava plantada a semente para o nascimento do Núcleo de Artes Cênicas e, em 1987, a pedido do então presidente da Fiesp, Mário Amato, o TPS estabeleceu Núcleos de Artes Cênicas nas sete unidades do Sesi-SP que tinham salas de espetáculos: Cidade A. E. Carvalho, Mauá, Osasco, Santo André, Santos, Sorocaba e Vila Leopoldina.

Aos poucos, os antigos administradores dos teatros foram substituídos por orientadores de artes cênicas com formação em diversas áreas, com foco total na educação. O núcleo foi estruturado para atender grupos distintos, um formado por crianças, com a finalidade de desenvolver suas potencialidades com técnicas teatrais, e outro por espectadores adultos, com o objetivo de incentivar o movimento do teatro amador.

Regras básicas de convivência que se tornaram marca registrada do núcleo também foram estabelecidas nesse período: ouvir o outro, ter liberdade de se expressar, incentivar a proposição de atividades, buscando sempre delimitar o espaço da realidade e do jogo teatral.

Atualmente os NACs ampliaram seu campo de ação, passando a atuar também com mediação cultural. Outra novidade foi a documentação e transformação da vivência diária em sala de aula em uma metodologia específica e normatizada, baseada nos 25 anos de experiência do núcleo.

Inspirados por Shakespeare

Em 2006, o Sesi-SP e o British Council firmaram convênio para a criação de um núcleo voltado à descoberta e ao desenvolvimento de novos autores teatrais brasileiros – o Núcleo de Dramaturgia Sesi – British Council. A proposta tinha por base uma atuação conjunta de ambas as instituições, incluindo a participação de centros de dramaturgia britânicos, promovendo um intercâmbio de experiências e metodologias.

Tendo início em outubro de 2007, o projeto contava com a coordenação de Munira Mutran. O núcleo estimula a invenção, a busca por novos paradigmas, a criação de dramaturgias que expressam diferentes visões de mundo, linguagens e experimentações estéticas, livres dos padrões do teatro tradicional e comercial.

Atualmente coordenado pela dramaturga e jornalista Marici Salomão, o núcleo tem seu trabalho focado na descoberta e formação de novos autores teatrais no Brasil. Além de incentivar a reflexão e a discussão de aprendizes com profissionais experientes em torno do cenário contemporâneo, a iniciativa oferece exercícios de diferentes técnicas, estudo de teorias, atendimento individual e coletivo, leituras comentadas de peças, atividades práticas de escrita e sistema narrativo para compor novas poéticas cênicas e jogos de ilusão. “O Núcleo de Dramaturgia é um oásis no Brasil, porque visa, de maneira inédita, à formação de jovens dramaturgos”, comenta Marici.

Diamantes lapidados

O núcleo promove anualmente ciclos que selecionam entre 12 e 14 autores inéditos para um mergulho intenso em teorias e técnicas dramatúrgicas. Provenientes do Brasil inteiro, os jovens são, em sua maioria, de áreas distintas como jornalismo, direito, artes cênicas e visuais, mas têm em comum a paixão pelas letras e teatro.

Em sua quarta edição, os participantes fazem workshops, leituras, acompanhamento individual e em grupo para desenvolverem uma peça. Todas são lidas por atores que integram o Núcleo de Dramatrugia Sesi-British Council e, ao final do curso, um livro é produzido e publicado reunindo todas as obras. No entanto, apenas uma delas é selecionada para ser montada.

Independentemente de ter ou não sua peça selecionada para montagem, os ciclos abrem novas portas e possibilidades aos participantes. O núcleo foi a primeira experiência de trabalho prático e reflexão crítica em dramaturgia de Marco Catalão, aluno do primeiro ciclo, que tinha experiência até então restrita à literatura. “Entrei em contato com vários textos que eu não conhecia, experimentei diversas técnicas de construção dramatúrgica que foram muito úteis na minha criação artística posterior, mas o mais importante mesmo foi a possibilidade de diálogo, tanto com a coordenadora quanto com os outros dramaturgos, que se mostraram muito interessados em discutir, opinar e se transformar a partir daquela experiência”, comenta.

Marco Catalão teve sua peça, Videoteipe, desenvolvida no núcleo, selecionada como finalista nos festivais International Playwriting Competition, da BBC, em 2011, e no V Prêmio Luso-Brasileiro de Dramaturgia, no mesmo ano. “Atualmente, estamos em processo de captação para que seja montada pelo grupo Estação Teatro”, completa.

Uma das grandes revelações da dramaturgia contemporânea, Zen Salles participou do segundo ciclo, onde pôde conhecer Drika Ner, Jaqueline Vargas e Ricardo Ilhan. Juntos, eles formam a equipe de roteiristas responsável pela adaptação de Sessão de Terapia, sucesso do canal GNT. “O Núcleo foi fundamental para minha formação como dramaturgo e roteirista. Sempre li muito sobre teatro e até cheguei a fazer alguns cursos de introdução ao tema. No entanto, foi a partir do ciclo que senti estar no caminho certo, principalmente pelo contato com grandes nomes da área e troca de experiências”, reflete Zen, que é jornalista por formação, mas optou por contar as lendas e folclores de sua região, o nordeste brasileiro.

Montagem da peça “O silêncio depois da chuva” (2011).

A peça escrita por Zen Salles durante o núcleo, Pororoca, foi selecionada para ser montada com direção de Sérgio Ferreira, tendo o Teatro Popular como palco e plateia de 500 pessoas sempre lotada. “A crítica foi bastante generosa e um dos mais importantes jornais brasileiros classificou-a como um dos maiores espetáculos de 2010. Cheguei a ser indicado ao Prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro na categoria Melhor Dramaturgo, concorrendo com o mestre Luís Alberto de Abreu”, comemora o dramaturgo, que já tem três peças com estreia marcada para 2013 e só pensa em escrever mais e mais.

Participante do terceiro ciclo, João Turchi, também teve sua obra escolhida. “A peça que desenvolvi durante o núcleo, Máquina de escrever reticências, foi montada com direção da Beth Lopes, e ficou três meses em cartaz no teatro da Fiesp. Isso mudou completamente minhas perspectivas enquanto dramaturgo e escritor”, explica o jovem advogado especializado em direito cultural e apaixonado pelas letras.

Montagem da peça “Máquina de escrever retiências” (2012).

Integrados

Por tratarem a mesma área, mas com especificidades distintas, os núcleos de Dramaturgia e de Artes Cênicas trabalham em conjunto e têm, muitas vezes, trabalhos desenvolvidos em conjunto. “Nós temos, em muitos momentos, o desenvolvimento de práticas de teatro que substancialmente carecem de um texto. Ou às vezes você tem o texto e não tem a prática. A gente quer unir essas duas potencialidades dentro de um cronograma de aulas e de um planejamento pedagógico de desenvolvimento do curso, de modo que o aluno faça, pense e construa um texto que possa ser de uma dramaturgia que já existe ou de produção do grupo em que ele está inserido. Isto está começando agora, e acredito que é algo que vai funcionar muito bem”, adianta Álvaro.

Marici também vê com bons olhos a união dos grupos em prol de um bom trabalho desempenhado. “Está ocorrendo uma integração maior, com o objetivo de manter as especificidades de cada um, mas mantendo um casamento de áreas diferentes para experimentos comuns. Quanto mais integrados os núcleos, mais o ator será ator e mais o dramaturgo será dramaturgo, embora formemos atores com uma visão da dramaturgia e dramaturgos com uma visão da interpretação e da ação”, afirma.

Reunindo estas e outras histórias, a Sesi-SP Editora lança agora o livro comemorativo dos 25 anos do Núcleo de Artes Cênicas. Além deste, disponibiliza também as três obras dos últimos ciclos realizados pelo Núcleo de Dramaturgia Sesi – British Council. Importante bibliografia para apaixonados ou estudantes de artes cênicas e dramaturgia, os livros são uma excelente oportunidade para resgatar um pouco da história recente do teatro no Brasil e entender como as artes cênicas conquistaram a qualidade atual em seus trabalhos. “A dramaturgia brasileira hoje não deve nada às outras”, afirma a especialista no tema, Marici.

Com absoluta certeza, o Sesi faz parte desta história!

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Milena Prado Neves

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