Uma mentira convincente

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Em 1977, aos 14 anos de idade, o roteirista e dramaturgo Bráulio Mantovani apaixonou-se pelo teatro ao assistir a uma peça baseada no livro O Diário de Anne Frank. No fim do espetáculo, surgia no canto do palco apenas a perna de um soldado nazista, que tentava invadir a casa da família Frank. A bota negra e reluzente batia com violência no tablado, produzindo um barulho forte, seco e compassado. Mantovani entendeu ali a força do teatro. “O barulho do pé do ator no assoalho do palco (bate com os punhos cerrados na mesa para imitar o som) é de uma realidade estética que o cinema não possui nem mesmo com toda a tecnologia Imax de hoje.”

O dramaturgo mineiro Leonardo Moreira entende que a presença física do ator é o material vivo que possibilita a experiência estética única que é assistir a uma peça de teatro. Em cima do palco, é preciso lidar com o inesperado, com o humano, com aquilo que não está nos planos. Em 2011, durante a apresentação de sua peça O Jardim, ele percebeu que uma das atrizes chorava mais do que o normal. Imaginou que algum parente ou conhecido dela estava na plateia, o que poderia explicar o exagero. Só mais tarde descobriu que a atriz havia quebrado o pé em cena, e ainda restavam 40 minutos de espetáculo. Apesar da dor, ela levou sua personagem até o fim. “Ninguém que estava assistindo aceitou aquilo como realidade, ninguém acreditou que ela de fato tinha quebrado o pé. […] Tem uma camada ficcional que protege esse elemento tão real. Ela não podia parar. O ator de cinema poderia parar, mas ela não”.

Conhecido por suas premiadas peças infantojuvenis, Vladimir Capella usa em suas produções cenários grandiosos, figurinos impecáveis e produção teatral e musical cinematográfica. “O teatro tem que ser uma experiência única tanto pra quem faz como pra quem vê”, resume. Pelo fato de seu público ser jovem, o diretor sente a necessidade de conquistá-lo pela qualidade do texto, mas também pelo impacto estético na produção. “É preciso mesmo impactá-los, deixar-lhes uma marca profunda do quanto é bonito o artista no palco, do quanto é mágico este sobe e desce de telas que rapidamente se transformam.”

Bráulio Mantovani, Leonardo Moreira e Vladimir Capella são três dramaturgos com características diferentes, mas a realidade do material vivo que está no palco encanta os três artistas.

TRÊS ENCONTROS COM O TEATRO

Nascido na pequena Areado, cidade mineira com 13 mil habitantes, em 1983, Leonardo Moreira vivia em um universo particular. Deslocado, interessou-se ainda criança por ficções que o levavam para longe. Alguns amigos de sua mãe traziam da cidade de Ribeirão Preto fitas em VHS de filmes norte-americanos e livros com peças de autores clássicos do teatro. Moreira montava as peças instintivamente em seus pensamentos e na brincadeira com amigos, mas nunca havia assistido a uma montagem. Aos 18 anos, mudou-se para São Paulo e iniciou o curso de Artes Cênicas na Universidade de São Paulo (USP): só então teve sua primeira experiência como espectador. “A peça não era boa, mas a linguagem do teatro mexeu muito comigo e eu me interessei ainda mais por estudá-la”, conta.

Formado, desistiu da ideia inicial de ser ator e iniciou um mestrado em dramaturgia. Na mesma época, ainda estudante, criou a peça Cachorro Morto e a inscreveu em um edital para primeiros autores. Ganhou e chamou alguns amigos de faculdade para montar a história. Baseada no livro Estranho Caso do Cachorro Morto, do inglês Mark Haddon, a peça conta a história de um menino com síndrome de Asperger – semelhante ao autismo – , que descobre a morte do cachorro da vizinha e empreende uma investigação em busca do assassino. “Mais do que falar de algum tipo de deficiência, a intenção foi mostrar a limitação da comunicação: o menino, com seu universo próprio, e as pessoas ditas normais parecem não conseguir dialogar com eficiência”, explica o dramaturgo.

O sucesso da peça fez que o grupo se unisse em um novo projeto. A história de sua segunda montagem, Escuro, acontece em um clube do interior em que deficientes e pessoas comuns não conseguem manter diálogos coerentes, apenas respondem uns aos outros com uma lógica falsa e despropositada.

Moreira estudava na época a dramaturgia procedimental, que dispensa o linear e a coerência em prol de uma narrativa não apenas fragmentada, como também horizontal. “O texto da peça não existe, ele é um mapa, traz a trajetória de dez personagens individuais”, diz. Moreira conta a história de um personagem, de repente, a cena gira, ocorre um deslocamento temporal, e o espectador começa a acompanhar outro personagem. “É uma multitrama, até que, em certo momento, os universos se cruzam, mas a narrativa nunca é abandonada.” Em 2011, a peça venceu o Prêmio Shell de Teatro em três categorias: autor, figurino e cenário.

Para ele, sua terceira peça, O Jardim, é uma evolução da fragmentação de Escuro, em que a memória é abordada a partir de um senhor que sofre de mal de Alzheimer. A peça começa com uma unidade dramática que é ampliada até virar uma abstração de memória, fragmentada e sem ordem. O público tem a tarefa de remontar os diálogos e reinventar a história por meio de suas próprias lembranças.

Do momento em que assistiu à primeira peça até os dias atuais, Moreira se diz ainda mais apaixonado pelo teatro. “Hoje eu tenho mais domínio da linguagem teatral, entendo os recursos que eu posso utilizar. Mas não sei se isso é bom”. Ele acredita que não conhecer profundamente a teoria teatral no início da carreira permitiu descobrir novas formas de escrever e dirigir. Mais experiente, o dramaturgo foi convidado pela Cia. Cênica Nau de Ícaros para montar uma peça baseada na obra de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que resultou no espetáculo Menor que o Mundo, e prepara seu próximo projeto: Ficção.

Enquanto na adolescência Moreira ainda só imaginava teatro no interior de Minas Gerais, foi nessa fase da vida que Bráulio Mantovani teve suas primeiras experiências reais com a arte. Aos 16 anos, o premiado roteirista de cinema e dramaturgo atuou pela primeira vez como ator nos calçadões do centro da cidade de Santo André. Certo dia foi assistir a um grupo que improvisava peças no meio da rua e, quando percebeu, estava no meio da roda de atores. “Sempre fui muito tímido, muito fechado, não sei que força me puxou”, lembra. Naquele dia, improvisando um texto de Millôr Fernandes (1923-2012) do livro, o grupo encenava uma situação em que um dos personagens era um vendedor de bilhetes do jogo do bicho. Mantovani, nervoso, tremendo e gaguejando, entrou na roda e só conseguia repetir sem parar: “A borboleta… A borboleta… A borboleta”. A partir de então passou a dominar melhor sua timidez. “Algo do teatro me foi terapêutico, pois consegui me expressar de alguma maneira, colocar para fora algo criativo que estava escondido”, recorda-se. Na época, Mantovani fazia um curso técnico e tinha como futuro certo a engenharia. “Eu não gostava de nada daquilo, era muito inseguro e frustrado, o teatro fez que eu me sentisse mais confiante.”

A partir de então, sua relação com a arte se tornou intensa. Desistiu das ciências exatas, foi cursar letras na PUC e iniciou sua convivência com um grupo de teatro da faculdade. Escrevia, dirigia, atuava e, de acordo com ele mesmo, fazia maluquices. “Uma namorada da época dizia que eu só fazia teatro para tirar a roupa… Perdi mesmo a timidez [risos].”

O grupo de Mantovani logo se destacou e foi convidado para formar o novo grupo do Teatro Tuca, que na época passava por uma reconstrução após o famoso incêndio de 1984. Lusíadas or not Lusíadas, uma paródia da obra de Luís de Camões (1524-1580), foi a primeira peça de expressão do dramaturgo ao ter montagem no Teatro Sérgio Cardoso e ganhar diversos prêmios em festivais universitários da época. Seria a última peça de Mantovani antes de um recesso de quase 15 anos dos palcos. Os caminhos o levaram ao cinema. Mas, entre a escrita de roteiros consagrados como Cidade de Deus e Tropa de Elite, o artista jamais abandonou afetivamente o teatro. Em 1992, por prazer e sem compromisso, iniciou a escrita da peça Menecma, que só seria encenada 20 anos depois. Durante essas duas décadas, apesar de focado na sétima arte, modificou constantemente o texto da obra, e em 2007 montou outra peça intitulada Alguém Escreveu Isso.

Se Mantovani iniciou sua trajetória no teatro e migrou para o cinema, Vladimir Capella fez um percurso mais curioso. Começou, em meados dos anos 1970, a compor canções para peças teatrais. Também era uma espécie de “quebra-galhos”, operando luz, som e se arriscando na atuação. Quando percebeu, já escrevia e dirigia seus próprios espetáculos. “Descobri que no teatro cabiam todas as artes e fui conquistado.”

Suas primeiras obras, conta, eram como roteiros onde o grupo e o diretor, que era ele mesmo, definiam juntos as amarras e a cara do enredo. “A palavra de ordem era o processo e não o resultado final”, resume. Seu próximo passo e desafio foi aperfeiçoar a escrita para colocar no papel as diversas histórias que começava a inventar. Naturalmente, percebeu que seus personagens, diálogos e ideias de encenação encaixavam-se no perfil do público infantojuvenil. “Nunca pensei em escrever diretamente para esse ou aquele espectador, apenas crio de acordo com o
que me emociona”. Prova disso, conta Capella, foi a remontagem de sua peça Píramo e Tisbe, no fim de 2011, que é baseada em uma lenda mitológica desconhecida do público que ele costuma atingir. “Escolhi essa história porque os jovens ainda não conhecem essa riqueza que é o universo dos mitos.” Mas no fim das contas o texto e o espetáculo, afirma ele, têm muita relação com o período de vida adolescente.

Teatro hoje
“O teatro, hoje, deve deixar clara a ficção do jogo do que
nele é real – o ator real, o espaço real, o tempo real –
com a ficção proposta, com a mentira que está
sendo contada”
Leonardo Moreira

TEATRO: UM SÓSIA DA REALIDADE

Mantovani escreveu o texto de Menecma de forma experimental e sem compromissos em 1992, quando morava em uma minúscula aldeia na Espanha, mais precisamente a sete quilômetros da cidade de León. Homem de teatro, como ele
mesmo se define, não precisa de motivos práticos para começar a elaborar os diálogos de uma peça. Sente-se em casa nos palcos, enquanto sua relação com o cinema é muito mais profissional. “Se eu tenho uma ideia espontânea, eu escrevo teatro, mas cinema e televisão só faço quando me pagam”, resume.

A ideia do texto de Menecma surgiu de um fragmento de sonho de Mantovani durante um breve cochilo em um ônibus que voltava de Madri para León. Nele, uma mulher vestida de vermelho descia uma escada espiralada e um homem sentia medos incontroláveis ao observá-la se aproximando. Com base na imagem onírica, a escrita foi levando Mantovani por caminhos desconhecidos, até a definição da história de Guilherme, um homem perturbado que resolve fazer um documentário sobre seu pai, um ator famoso recentemente falecido. A palavra “menecma”, que conforme a sua origem no latim significa “sósia”, remete ao fato de que, ao longo do drama, personagens com características físicas idênticas ao pai e à mulher do protagonista aparecem, e ele, por meio das filmagens, tem a oportunidade de tentar reescrever a realidade por meio da ficção.

Anos depois de finalizá-la e já de volta ao Brasil, o dramaturgo mostrou o texto para o ator Gustavo Machado e, pouco depois, chegou às mãos de Jô Soares. Com o elenco definido, que além de Gustavo contou com Paula Cohen e Roney Facchini, duas leituras do texto foram realizadas no apartamento de Jô, que se tornou uma espécie de padrinho da peça, finalmente montada em 2011. A direção ficou a cargo de Laís Bodanzky. “Estava difícil conseguir montar e apresentar a peça, se não fosse o Teatro do SESI-SP, nós não conseguiríamos”, conta Mantovani.

Teatro hoje
“Acho que o papel do teatro é ser inútil.
Fazemos porque gostamos e o público assiste porque gosta”
Bráulio Mantovani

ALÉM DO REAL

Por ser mineiro, Leonardo Moreira sempre teve uma ligação íntima com o poeta Carlos Drummond de Andrade. O convite para escrever e dirigir uma peça baseada na obra do poeta partiu da Cia. Cênica Nau de Ícaros no fim de 2011.

A estrutura escolhida pelo grupo para Menor que o Mundo foi a de uma cidade com uma casa só, que, no entanto, transforma-se em várias outras casas. Os personagens, por meio de narrativas paralelas e da técnica de multitrama – marcas sempre presentes nas obras de Moreira –, relacionam-se com a lógica do famoso poema “Quadrilha”.

O grande desafio do texto de Moreira foi o de não declamar Drummond, mas apenas trazer o universo poético do escritor. “Pedi aos atores que estudassem o livro e desenvolvessem narrativas a partir dos poemas”, explica. As experimentações com texto foram incansáveis, mas era necessário também resolver tecnicamente o problema das imagens, já que a veia da Nau de Ícaros é de um espetáculo que também contém acrobacias coreografadas.

Na trama, a minúscula cidade de apenas uma casa sofre com constantes ventanias. A população, com medo, vive amarrada ao chão por cordas. Esse ponto do texto facilitou as acrobacias, já que os atores tinham a liberdade de subir pelas paredes da casa com as cordas e voar pelo cenário. No decorrer da peça, no entanto, as correntes de vento cessam e o povoado, surpreso, precisa aprender a conviver sem as cordas e com a ausência do medo. O que fazer agora que a obrigação de prosseguir amarrado não existe mais?

Para Vladimir Capella, esses efeitos que ultrapassam o texto – como música, luz e figurino – devem ser utilizados para envolver e encantar os jovens. “Simplesmente por crer que deve ser assim o início de um grande amor”. Píramo e Tisbe utiliza todas essas ferramentas para hipnotizar o público.

De acordo com Capella, no entanto, não existem fórmulas e receitas prontas para encantar. Para ele, há apenas bom ou mau teatro, sejam eles grandes, pequenos, com música ou sem som algum. “O teatro tem que ser bem-feito e, de preferência, reacender a fé humana, dialogar com o homem. É só isso.”

Ele conta que já fez peças com palco vazio, poucos atores, com dificuldades financeiras e nem por isso deixou de chamar a atenção. “Em Píramo e Tisbe reencenamos a obra em um teatro que é um oásis no cenário brasileiro. Então foi possível nos expressarmos livremente com as condições necessárias para criar”, afirma.

Capella discorda da ideia de que uma encenação grandiosa remete a um teatro do entretenimento. Na verdade, ele dispensa esse tipo de espetáculo exatamente pela importância do público que atinge. “Fazer teatro meramente como entretenimento para crianças é imperdoável, pois nós, adultos, somos os responsáveis pelo que mostramos a elas”, teoriza. O dramaturgo, assim como a Nau de Ícaros, também não acredita em uma grande diferença entre a forma do teatro adulto e a do infantojuvenil. Para ele, cada pessoa recebe o que é encenado de maneira diferente. “Existem adultos que perdem a criança dentro deles e outros que não: meus trabalhos são para estes últimos, tenham a idade que for.”

Teatro hoje
“O teatro é, sempre foi e sempre será uma tribuna para
discutir a vida do homem”
Vladimir Capella

REAL OU FICCIONAL?

Mantovani contou com a diretora Laís Bodanzky para a montagem de Menecma por se considerar velho demais para aprender agora como dirigir uma peça. Mas sua participação durante os ensaios foi intensa e, de acordo com ele mesmo, beirou o exagero. “No cinema, detesto filmagem, não visito set, mas no teatro eu gosto muito e fico me metendo toda hora; achei que os atores e a Laís iam me proibir de entrar no teatro de tanto que eu mudava o texto.” As alterações só pararam com a publicação definitiva do texto da peça em um livro da SESI-SP Editora. Na obra, Mantovani também optou pela publicação de suas anotações para orientar os atores e uma interessante análise psicanalítica da gênese de Menecma e de seus personagens.

Em seu processo criativo, Mantovani busca a influência de um teatro menos realista. Suas influências passam por Samuel Beckett (1906–1989), Shakespeare (1554–1616), Alfred Jarry (1873–1907) e Caryl Churchill (1938), além da clássica obra A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud (1835–1930), que influencia todo o processo criativo do dramaturgo. “Fico ligado no que meu inconsciente me sopra para me ajudar a solucionar problemas que encontro no momento da escrita; prefiro deixar o espírito criativo me levar do que estudar a teoria teatral”.

Ao contrário de Mantovani, a direção sempre acompanhou a carreira de Capella. Sem nunca ter estudado formalmente, considera que o dramaturgo e o diretor cresceram juntos. “É difícil saber onde começa um e termina o outro: eles se misturam para sair o que acontece no palco”. Suas influências são de todos os autores que discutem a existência. “Tenho uma predileção inegável por histórias tristes, mas isso é um gosto pessoal, meu modo de sentir o mundo”, relata.

Da mesma forma que o autor de Menecma, Capella é claramente influenciado por temas do inconsciente. O livro com o texto de Píramo e Tisbe, também publicado pela Sesi-SP Editora, apresenta como introdução análises e reflexões do médico e psicoterapeuta junguiano Bernardo de Gregório e da psicanalista Miriam Chnaiderman. “Meus trabalhos em geral falam sobre as dores humanas, sobre perdas, superações e sonhos: buscam respostas aos mistérios indecifráveis da alma humana”, analisa.

Para conseguir passar essa ideia ao público, Moreira tem feito o exercício de prestar atenção em como as pessoas narram suas experiências reais e quais as situações ficcionais dessas histórias. “O que me interessa no momento é entender a teatralidade na vida e a realidade no palco”, comenta. E isso é parte fundamental da metodologia que, em conjunto com a Cia. Cênica Nau de Ícaros, originou o livro Menor que o Mundo, publicado pela SESI-SP Editora, que, além do texto final, traz o registro do trabalho feito para o desenvolvimento da dramaturgia em conjunto com os “nauvegantes”, que é como se denominam os integrantes do grupo teatral.

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