Tem, mas acabou

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A temporada de Mistero Buffo já terminou, mas ainda dá para ver a peça

Era noite de sábado, e uma pequena confusão se formava na frente da bilheteria do Teatro SESI-SP. Apesar de dois grandes banners negros avisarem que os ingressos para as últimas apresentações de Mistero Buffo estavam esgotados, muita gente ainda fazia fila na esperança de surgir alguma desistência.

A espera foi em vão: a sala estava realmente lotada, e aparentemente quem conseguiu o seu ingresso a tempo não estava nem um pouco disposto a se desfazer dele. Quando soaram as primeiras campainhas convocando a plateia para entrar no teatro, a decepção de quem ficou de fora se revelou em um sonoro lamento coletivo.

Do alto da escada de acesso à bilheteria, um par de grandes olhos verdes assistia ao tumulto com um brilho de satisfação difícil de disfarçar. Não era para menos: a ansiedade do público para conseguir um lugar no teatro para assistir a Mistero Buffo era a melhor tradução do sucesso da empreitada de Neyde Veneziano, que começou com a tradução do italiano de Dario Fo, passando pela adaptação da obra e chegando até a direção do espetáculo. Os números falam por si mesmos: na temporada de 55 apresentações, mais de 18.800 pessoas assistiram à peça, quase sempre lotando o teatro. Um dos motivos da repercussão tão positiva foi a adaptação por alguém que realmente sabia o que estava fazendo.

O caminho até Dario Fo começou no fim da década de 1980, quando Neyde dirigiu a peça O Arlecchino com os formandos da primeira turma de Artes Cênicas da UNICAMP. Essa montagem marcou época no Brasil pelo pioneirismo no emprego do formato da commedia del’arte, que é justamente a grande escola de Fo e também um dos pilares do Teatro de Revista que esteve tão em voga no Brasil na primeira metade do século XX.

Neyde já era uma grande conhecedora do assunto, desde que escolheu o Teatro de Revista como tema de seu mestrado e doutorado. Inclusive, a SESI-SP Editora prepara para o primeiro semestre de 2013 a publicação de O Teatro de Revista no Brasil: dramaturgia e convenções, dissertação de mestrado que Neyde defendeu em 1991, como parte da Coleção Teatro Popular do SESI.

Quando chegou a hora de ir para o exterior para fazer seu pós-doutorado, uma sugestão do teatrólogo Sábato Magaldi foi o empurrão que faltava para que ela escolhesse a Itália para estudar a obra de Dario Fo com o próprio.

Declaradamente apaixonada pela estética do teatro popular, Neyde Veneziano se delicia com a capacidade dessas peças de abordar assuntos sérios de uma maneira leve, bem-humorada, e de um jeito que acaba transformando a plateia de uma forma fascinante. “Em geral intelectuais falam sobre coisas simples de uma maneira complexa. Já o povo fala de assuntos complexos de um jeito simples”, diz a diretora.

A busca dessa linguagem cotidiana e popular caiu como uma luva para a tradição circense do Grupo La Mínima. A familiaridade com a linguagem clown dos atores permitiu que a adaptação de Neyde trouxesse a criação de Dario Fo para o contexto da realidade e da linguagem popular brasileira de maneira sutil e consistente, sem comprometer em nada sua linguagem e seu formato. O entrosamento de Domingos Montagner e Fernando Sampaio, fruto de 15 anos de parceria no palco, consegue fazer o público se envolver com as histórias que contam a ponto de esquecer que se está em um teatro. E quando isso se soma à impressionante polivalência musical de Fernando Paz, que executa no palco boa parte da trilha sonora do espetáculo, a plateia tem garantida quase duas horas de riso solto em uma estética apurada.

Os antigos jograis medievais são a principal linguagem de Mistero Buffo.

Dario Fo conta com uma trajetória que é reflexo de um gênio criativo e engajado. Estudante de arquitetura que acabou se apaixonando pelo teatro, foi mundialmente consagrado como um dos maiores dramaturgos do século XX ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1997. Trouxe para sua obra muitas histórias que ouviu na infância, misturando-as com uma linguagem política que é fruto do ideário esquerdista que cultiva desde a juventude. Até hoje, aos 86 anos de idade, ele ainda se mantém ativo — recentemente começou a pintar e esculpir, e nunca deixa de exercer a militância política: foi candidato à prefeitura de Milão em 2006, pelo Partido da Refundação Comunista.

Escrita e encenada pela primeira vez no fim da década de 1960, quando o mundo inteiro estava em plena efervescência política e a Itália atravessava uma severa crise econômica, Mistero Buffo talvez seja uma das obras em que essa abordagem revolucionária seja mais evidente. Usando o formato de jograis – teatros populares da Idade Média, encenados por artistas do povo nas praças dos burgos geralmente com temática catequética –, Dario Fo escreveu mais de 20 monólogos que, usando o passado como metáfora do presente, denunciavam a luta de classes e defendiam a causa operária com um humor inocente e de fácil assimilação.

A plateia que assistiu às últimas apresentações de Mistero Buffo mal percebeu a presença de câmeras que filmavam o espetáculo. A temporada no Teatro terminou, mas a SESI-SP Editora está preparando o lançamento de um DVD da peça, sob a direção e produção do videomaker Raimo Benedetti.

Além da íntegra do espetáculo, que Benedetti vem cuidadosamente adaptando ao formato audiovisual, o DVD também trará um documentário sobre Mistero Buffo e Dario Fo, com entrevistas com o Grupo La Mínima e Neyde Veneziano. “A ideia é fugir do teatro filmado, levando para o vídeo a mesma experiência das plateias do teatro”, explica Benedetti. Serão usadas também fotos da fase de preparação da peça, oferecendo novos enfoques para quem tiver Mistero Buffo em sua coleção de DVDs.

Sorte daqueles que tiveram de voltar para casa sem conseguir um ingresso.

O grupo La Mínima tem 15 anos de trajetória na linguagem circense.

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