Teatro do Sesi-SP: Há cinquenta anos levando cultura e arte à população brasileira

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A Cidade Assassinada foi o primeiro espetáculo da história do Teatro Popular do Sesi.

Já se passaram 50 anos desde a estreia da montagem A Cidade Assassinada, de Antônio Callado, o primeiro espetáculo da história do Teatro Popular do Sesi, ainda no Teatro Maria Della Costa, na capital paulista. Mesmo tanto tempo depois, o projeto, idealizado pelo diretor e crítico teatral Osmar Rodrigues Cruz, continua a desempenhar um papel de extrema importância na disseminação e democratização das artes cênicas, e da cultura como um todo, no país.

Com acesso gratuito para o público, o teatro é considerado referência na formação de plateias não apenas por permitir que as camadas menos favorecidas da sociedade tenham oportunidade de assistir a peças teatrais, mas pela alta qualidade das montagens – clássicas e contemporâneas – que apresenta, formando assim um público cada vez mais criterioso.
A inauguração do teatro-sede, na Avenida Paulista, aconteceu em 1977 com o espetáculo sobre o compositor carioca Noel Rosa, O Poeta da Vila e Seus Amores, de Plínio Marcos. Já a partir da década de 80, estabeleceram-se os Núcleos de Artes Cênicas nas sete unidades do Sesi-SP, que contam com salas de espetáculos.

“Tive o prazer de interpretar Noel Rosa no musical que inaugurou a sede do teatro na Avenida Paulista. Graças ao papel, ganhei o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de melhor ator, em 1977”, comenta o ator Ewerton de Castro. “Com certeza foi um acontecimento que marcou minha carreira”, diz.

Assim como aconteceu com Ewerton, o Teatro do Sesi-SP foi – e continua a ser – o cenário de espetáculos que são verdadeiros marcos na carreira dos atores mais prestigiados do país. Conheça um pouco mais da história desse projeto pioneiro no Brasil pelos olhos daqueles que ajudaram a construí-lo.

GUILHERME WEBER

“O Teatro do Sesi-SP sempre buscou excelência em sua programação, com a apresentação de grandes espetáculos.”

A Sutil Companhia de Teatro, fundada por mim e pelo diretor Felipe Hirsch, estabeleceu uma duradoura parceria com o Teatro Popular do Sesi, um dos maiores orgulhos de nossos 20 anos de atividades profissionais. Criamos diversos espetáculos inéditos especialmente para o teatro. Entre eles, está Educação Sentimental de um Vampiro, baseado em contos do escritor paranaense Dalton Trevisan, com o qual ganhei o prêmio APCA de melhor ator de teatro.
Um dos grandes trunfos do Teatro do Sesi-SP é atuar como formador de plateia, atividade fundamental para a consolidação da cultura de um país.

A montagem O Poeta da Vila e seus Amores teve casa lotada durante os dois anos em que ficou em cartaz.

Foto atual do Teatro do Sesi-SP, que fica na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo.

A atriz Bárbara Paz na peça Hell, terceiro espetáculo em que se apresentou no Teatro do Sesi-SP.

A importância da acessibilidade promovida pelo Teatro Sesi-SP é mais do que generosa, pois seus mantenedores sempre buscaram excelência em sua programação, ao fomentar e patrocinar grandes espetáculos, obrigando o espectador a elevar seu nível de recepção. Além disso, o teatro sempre recebe em seu palco grandes atores, com performances memoráveis.

BÁRBARA PAZ

“No Teatro do Sesi-SP apresentei a peça Hell, um divisor de águas na minha carreira.”

A primeira peça com a qual me apresentei no Teatro Sesi-SP foi A Farsa, no ano 2000; depois vieram Subúrbia, em 2001 e, por fim, Hell, em 2010, um espetáculo que foi um verdadeiro divisor de águas na minha carreira. Tanto que continuo a fazer a peça pelo país e não pretendo parar tão cedo.
É um espaço cultural muito bem organizado, com infraestrutura que poucos teatros têm no Brasil. E o mais importante: conta com uma equipe que realmente ama fazer teatro e isso faz toda a diferença para os atores e para o público.

Considero o Teatro do Sesi-SP de fundamental importância, não apenas para a população paulista, mas para toda a população brasileira. O acesso gratuito a espetáculos teatrais deveria acontecer em muitos teatros e cidades do país. A possibilidade de nós, atores, nos apresentarmos para um público carente, sedento de cultura, com casas lotadas todas as noites, não tem preço.

EWERTON DE CASTRO

“Participei do musical sobre Noel Rosa que inaugurou a sede do teatro na Avenida Paulista.”

O Teatro Sesi-SP foi o palco do primeiro musical em que atuei como ator profissional: O Patinho Preto, de Walter Quaglia, ainda na década de 70. Também tive o prazer de interpretar Noel Rosa no musical que inaugurou a sede do teatro na Avenida Paulista e com o qual ganhei o prêmio APCA de melhor ator, em 1977.

Posso dizer, com toda certeza, que o Teatro do Sesi-SP é um dos mais importantes formadores de plateias do teatro paulista. Um projeto que não conquista o público por oferecer ingressos gratuitos, mas pela ótima qualidade de seus espetáculos. A peça O Poeta da Vila, da qual participei, teve casa lotada durante os dois anos em que ficou em cartaz, e éramos aplaudidos pelo público em pé ao final de cada sessão.

Eu sou frequentador assíduo do teatro e era mesmo antes de me profissionalizar. Lá assisti a grandes montagens, como Noites Brancas, Senhora, Chiquinha Gonzaga, Feitiço, Onde Canta o Sabiá, entre muitas outras.

DOMINGOS MONTAGNER

“O Teatro do Sesi-SP sempre foi uma experiência exemplar da linguagem de teatro popular.”

A maior importância do Teatro do Sesi-SP vai muito além da acessibilidade de seus espetáculos gratuitos. Ela está na valorização que confere ao teatro popular e às linguagens dramatúrgicas que constroem um público cativo e criterioso.

Vou ao Teatro do Sesi-SP desde o tempo da Companhia de Repertório (grupo teatral fundado em 2001). Sempre gostei do teatro popular, épico comunicativo, e o Sesi foi uma experiência exemplar dessa linguagem.

Lá, encenei peças que tiveram muita importância na minha carreira, não apenas pela experiência de construção e de compreensão de meu ofício de ator mas, no meu caso, que ainda sou produtor, também pelo enriquecimento do diálogo com o público. Entre elas, Flor de Obsessão, em 1998, Farsa Quixotesca, em 2000, Piratas do Tietê, o Filme, em 2003, O Médico e os Monstros, em 2008, e Mistero Buffo, em 2012.

MARCO RICCA

“Foi onde encenei pela primeira vez uma peça de Nelson Rodrigues.”

A peça Boca de Ouro, que apresentei no Teatro do Sesi-SP, foi a primeira obra de Nelson Rodrigues em minha carreira. Um clássico brasileiro que, para mim, foi de grande importância. Além disso, foi uma oportunidade de fazer uma grande produção em um teatro que oferece toda a infraestrutura necessária, ou seja, é bom para quem faz e bom para quem assiste.

O Médico e os Monstros, do grupo La Mínima, apresentou-se, em 2008, no palco do Sesi.

Apresentar-se para um público popular, mas altamente crítico e ávido por cultura, é uma experiência teatral única. Lembro-me ainda do primeiro espetáculo a que assisti no Teatro Sesi-SP, o O Santo Milagroso, de Lauro César Muniz, sob direção de Osmar Rodrigues Cruz. Depois dele, foram tantos outros, clássicos e contemporâneos, que fizeram parte de minha formação como ator.
Deveríamos ter políticas públicas que, a exemplo do Sesi-SP, apoiassem e incentivassem montagens que auxiliam na formação do público de teatro.

MARCOS DAMIGO

“A primeira peça a que assisti no Teatro Sesi-SP influenciou minha escolha profissional pelo teatro.”

Trabalhar no SESI sempre foi muito gratificante. Um teatro tecnicamente impecável, com uma equipe maravilhosa, e um público generoso. Das experiências que tive, a mais marcante foi Hamlet, que me deu a oportunidade de experimentar, ao vivo, a popularidade de Shakespeare.

Para mim, o teatro Sesi-SP comprova que as pessoas têm, sim, interesse em arte e teatro, mas muitas vezes não frequentam por falta de condições financeiras.

Fiquei impressionado desde a primeira vez em que assisti a uma peça lá, um Molière, no início dos anos 90. Fiquei admirado com a qualidade do espetáculo, que influenciou profundamente minha escolha profissional pelo teatro.

Dois textos de Shakespeare encenados nestes 50 anos: À esquerda, montagem de Romeu e Julieta e, à direita, Hamlet.

LEOPOLDO PACHECO

“Vivi no Teatro do Sesi-SP uma experiência que vou levar para o resto da vida.”

Já participei de vários espetáculos no Teatro Sesi-SP, não apenas como ator, mas também como figurinista, maquiador e cenógrafo. E sempre digo que, mais do que os personagens, fazer grandes montagens com grandes elencos é uma experiência em extinção, e foi o que tive no Teatro do Sesi-SP. Guardo a lembrança de ter trabalhado com equipes técnicas e artísticas da melhor qualidade, para um público ávido por montagens de textos que hoje quase não vemos.

Lembro-me do último dia em que encenamos o espetáculo O Mambembe, depois de meses em cartaz, quando cada um de nós do elenco entrava em cena: tomamos um susto, pois o público falava os textos de cada personagem. Foi uma maneira de retribuírem e demostrarem o amor que tinham pelo espetáculo. Uma experiência que vou levar para o resto da vida.

WALTER BREDA

“Os personagens que representei no Teatro do Sesi-SP me ensinaram sobre o caráter e os mistérios do ser humano.”

Entre os anos de 1991 e 1997, participei de grandes montagens no Teatro do Sesi-SP, que tem uma enorme importância nas artes cênicas do País na difusão da cultura por meio de espetáculos teatrais. Posso citar, entre os mais marcantes, Escola de Maridos, O Inspetor Geral, Auto de Natal, O Mambembe e Assembleia de Mulheres.

Foram personagens que me ensinaram sobre o caráter, a personalidade e os mistérios do ser humano. Apesar de eu ser contra o acesso gratuito ao teatro, acredito que o país precisa de muitos outros projetos como o Teatro do Sesi-SP, para levar peças teatrais e também outras manifestações culturais às camadas mais carentes de cultura da sociedade.

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