Onde vivem as fadas

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Cena do espetáculo Crônicas de Cavaleiros e Dragões – O Tesouro dos Nibelungos, exibido no Teatro do SESI-SP

Nos contam em antigas lendas sobre prodígios tantos, grandes heróis e prebendas, dificultosos fatos, de alegrias, festejos, de chorares e lamentar; de batalhas de bravos guerreiros, prodígios agora ireis escutar.
(manuscrito “C”, de “A Canção dos Nibelungos”, saga germânica do século XIII)

Você sabe onde vivem as fadas, as bruxas, os dragões e os elfos? No mesmíssimo endereço onde podem ser encontrados as princesas, os príncipes e os cavaleiros de armadura. Este lugar se chama reino da fantasia e para lá existe apenas um tipo de transporte: nossa imaginação. No entanto, os seres fantásticos, em algum tempo, de algum modo, existiram de verdade, dando base para que fossem criadas as histórias de belas e encantadas fadas, das doces e casadouras princesas, dos destemidos e valentes cavaleiros e, claro, das malvadas e monstruosas bruxas. Não é possível dizer com certeza, mas as primeiras manifestações sobre esse conjunto de personagens do imaginário mundial parecem ter origem nos povos celtas, tendo sua influência se espalhado por toda a Europa.

Desta encantada fonte beberam muitos escritores, poetas e contadores de histórias. Basta ver as sagas pós-modernas que se baseiam nessa rica mitologia, como as séries “O Senhor dos Anéis”, de R.R. Tolkien, e “Harry Potter”, de J.K. Rowling. Nela também saciou sua sede o compositor alemão Richard Wagner, com sua mais célebre obra, um conjunto de óperas “O Anel dos Nibelungos”. A intrincada peça musical foi baseada em um poema épico alemão do século XIII (por volta do ano 1220), intitulado “A Canção dos Nibelungos”, uma série de 35 manuscritos que relata a saga de heróis germânicos, misturando antigas tradições orais com eventos e personagens históricos dos séculos V e VI.

Os personagens principais do poema são inspirados em fatos e pessoas reais e, por isso mesmo, seguem regras de comportamento condicionadas pela ética da cavalaria medieval e do amor cortês. Assim, temos o rei dos hunos, Átila, que se casou com a princesa germânica Idico, em 453 (ou, no poema, Kriemhild, que, na verdade, ama o herói Siegfried). Também são descritas as conflituosas relações entre a rainha Brünhild, o rei Gunther e a amante deste, Fredegunde. Os nibelungos, igualmente, têm vínculos como em uma antiga lenda – seriam originalmente uma raça mitológica de anões guardiões do tesouro tomado pelo cavaleiro Siegfried.

Cavaleiros brasileiros

De história em história se chega à versão da célebre obra germânica para o público jovem. A autora do feito só poderia ser a escritora Tatiana Belinky: de origem russa, naturalizada brasileira, ela praticamente foi alfabetizada em alemão, quando tinha não mais que cinco anos de idade. Lançado em 1994, o livro “A Saga de Siegfried – O Tesouro dos Nibelungos” apresenta às crianças e adolescentes brasileiros os seres imaginários e mágicos tão queridos por uma Tatiana que sempre conservou a menina que um dia foi. Eles passeiam, guerreiam, amam e sonham nas páginas do livro que mereceu o Prêmio Jabuti de Melhor Ilustração no ano seguinte ao de seu lançamento.

Embora fiel aos versos do original alemão, a história está dividida em apenas duas partes. Na primeira, o cavaleiro Siegfried mata o dragão guardião do tesouro dos nibelungos e chega à corte dos burgúndios, onde torna-se herói, casa-se com a princesa Kriemhild, mas é morto por traição. Na segunda parte, sua viúva traça uma terrível vingança contra os assassinos de Siegfried, mas acaba exterminando seu próprio povo. Apesar do drama, assim como na história tradicional, não há julgamento ou crítica sobre o comportamento dos personagens. Trata-se de uma saga que retrata os grandes gestos de heroísmo, coragem e lealdade. Em sua versão, Tatiana se apropria lindamente desse espírito, com toda a habilidade que sempre teve como escritora. Por entender e respeitar seu público, ela foi capaz de abordar tais temas de maneira lúdica e cativante.

Esta foi a magia que nos legou Tatiana, quando morreu em junho deste ano. Os primeiros ingredientes foram colocados no caldeirão dessa menina que queria ser bruxa em 1948. E os primeiros encantamentos vieram na forma de criações e traduções de peças infantis, seguindo assim durante toda sua vida e resultando em mais de 250 títulos, entre textos próprios, adaptações e traduções de clássicos, folclore brasileiro, textos para dramaturgia e limeriques (poemas originados na Irlanda).

Homenagem

Exibido no Teatro do SESI-SP, de 20 de março a 30 de junho, o espetáculo “Crônicas de Cavaleiros e Dragões – o Tesouro dos Nibelungos” foi encenado em comemoração ao aniversário de Tatiana, que completou 94 anos em março de 2013. A concepção e pesquisa ficou a cargo de Deborah Corrêa e Elder Fraga, com roteiro de Paulo Rogério Lopes. O espetáculo infantojuvenil foi apresentado em sessões gratuitas e abertas ao público, com direção geral de Kleber Montanheiro, direção de bonecos (criados por Márcio Pontes) de Henrique Sitchin e elenco de nove atores: Rogério Brito, Niveo Diegues, Joaz Campos, Ricardo Gelli, Daniela Flor, Bruna Longo, Natalia Quadros, Luiza Torres e Adriano Merlini.

“A ideia central da encenação é a adaptação do mito nórdico com uma aproximação ao universo brasileiro. Buscamos uma identificação imediata do público sem localizar no tempo e no espaço onde se passa a história. Cada personagem defende conflitos que se assemelham ao nosso dia a dia. Valores éticos e morais são discutidos no espetáculo, que traz à tona as relações pessoais e as escolhas de cada um”, contam Deborah e Elder, que começaram a carreira em montagens de textos dramatúrgicos de Tatiana Belinky. “Somos conhecedores profundos da obra desta autora e tivemos o privilégio de conviver com ela desde 1998. Com a montagem, pretendemos render um tributo à grande artista que é Tatiana, difundindo sua obra e partilhando-a com tantos outros apreciadores de suas histórias e também com aqueles que ainda não tiveram contato com o universo deslumbrante de seus livros”, declaram.

Para perpetuar ainda mais o legado de uma das mais importantes escritoras infantojuvenis brasileiras aliado a uma das mais marcantes fábulas medievais do mundo, a SESI-SP Editora acaba de lançar o livro, que acompanha um DVD, desta primeira adaptação da obra de Tatiana para o teatro.

“Fico feliz porque fizemos em tempo para que ela recebesse a homenagem, um espetáculo grandioso, bonito, importante. E quando há um contato direto com os jovens, público-alvo da peça, é fantástico.” – Ricardo Gelli, ator, intérprete de Siegfried

“Foi uma responsabilidade imensa trabalhar com a linguagem de uma das mestras da linguagem.” – Paulo Rogério Lopes, responsável pela adaptação da peça.

“Foi muito importante para mim, como diretor, passar por isso, porque eu tenho um trabalho específico em teatro para criança e faltava Tatiana Belinky na minha carreira.” – Kleber Montanheiro, diretor

Capa do livro/DVD baseado na obra de Tatiana Belinky

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