O palhaço arquetípico − Pagliacci e os vinte anos do LaMínima

Paulo Barbuto

Somos ensinados a não fracassar nunca, mas o palhaço deve fracassar e, então, sobreviver.

Avner, o Excêntrico

Era a tarde de uma segunda-feira chuvosa e cinza, o que criava um imenso contraste com o colorido que pulsava na decoração com motivos circenses do Centro da Memória do Circo, na Galeria Olido, no centro de São Paulo. Ouvíamos o dramaturgo Luís Alberto de Abreu, que com seus olhos pequenos por detrás dos óculos falava animadamente sobre a árdua tarefa de adaptar a ópera Pagliacci. Sentado ali na plateia eu olhava em meu caderno de anotações a primeira pergunta que faria a eles: por que Pagliacci? Ou seja, por que a escolha de uma ópera com tamanha força trágica, que no prólogo original diz à plateia que eles “Verão os trágicos resultados do ódio e espasmos da dor real. Escutarão gritos de raiva real e risos cínicos”? Por que um texto com uma moral tão anacrônica? A moral ultrapassada e a intensa dramaticidade da ópera pareciam contrastar com a trajetória do LaMínima. Mas nem precisei fazer a pergunta, ela foi feita pelo próprio dramaturgo, que disse ter sido a primeira coisa que indagou a Domingos Montagner e Fernando Sampaio (fundadores do LaMínima) quando foi convidado para o projeto; até aquele dia, porém, não havia obtido resposta.

Todos olhavam para Fernando e esperavam que ele enfim respondesse. Ao que ele, sorrindo, tomou o microfone e disse provocadoramente que “o nome era legal”, entretanto a resposta não estava no chiste de suas palavras, mas no intenso brilho de seu olhar. E para entender por que Pagliacci seria preciso voltar vinte anos.

Domingos e Fernando se conheceram no Circo Escola Picadeiro, em São Paulo, onde formaram uma dupla de palhaços, e posteriormente criaram o LaMínima estreando o número LaMínima Cia de Ballet. A partir desse encontro não surge apenas uma das companhias mais profícuas e criativas que investiram na relação entre circo e teatro, mas também um dos mais inventivos coletivos artísticos do Brasil, que ao longo de sua trajetória apostou em projetos de enorme desafio. E, como o desafio e a inventividade sempre foram a marca das criações desta dupla, a adaptação da ópera Pagliacci, a tragédia do palhaço traído, seria perfeita para a comemoração de seus vinte anos.

Fernando queria nos dizer com o intenso brilho em seu olhar que para comemorar os vinte anos do LaMínima eles precisavam de um desafio à altura de sua trajetória.


No prólogo da adaptação do LaMínima de Pagliacci, Peppe, que é um tipo de narrador do espetáculo, diz: “Estou aqui para contar o que lembro e para lembrar que todo artista é um homem. E que todo ser humano é um tolo. E talvez nessa tolice esteja nossa salvação”. É nesse prólogo, nessa indicação sobre a nossa tolice que fica claro o caráter transgressor da adaptação da ópera. Não se trata mais do dramático operístico, mas da tolice do palhaço e de que ela seja nossa salvação, talvez a única.

O espetáculo nos faz pensar no caráter arquetípico da figura do palhaço, figura que encarna toda uma visão de mundo, e em como o caráter anárquico é uma das facetas definidoras da sua personalidade. Ele é aquele que brinca com a estabilidade e com a instituição da ordem, uma vez que, por meio da brincadeira e da risada, tende a desequilibrar as estruturas organizadas que o cercam. O palhaço encanta com sua argúcia e sagacidade, questiona as convenções através de um olhar inocente e provocador.

Em Pagliacci, temos um grupo de palhaços que se reúne para formar uma trupe chefiada por Cânio. Compõem o grupo Nedda, mulher de Cânio e que tem uma queda por Sílvio, o mais palhaço dos palhaços, Peppe o bufão, Tônio que é falso e dissimulado, mas que obedece sem pestanejar as ordens de sua companheira Strompa. Com o desenvolvimento da companhia, Cânio começa a se tornar autoritário e, para realizar um requintado melodrama, começa a abandonar os números de palhaçaria. Assim se desenrola a trajetória do palhaço que revela sua arrogância e começa a acreditar que não é mais palhaço – como se fosse possível –, afetando toda a trupe que passa a ser pressionada por Cânio.

Ao deixar de ser palhaço, Cânio se torna um executivo, um comerciante, um homem de negócios e traz à tona seus conflitos com Sílvio. Em uma cena, Cânio pede que Silvio lhe mostre um número para o melodrama que o bufão Peppe está escrevendo. Silvio, num dos mais hilários números de palhaço do espetáculo, come cacos de vidro e defeca uma garrafa. Cânio se irrita com a grosseria do número, pois precisa de uma comédia “com refinamento”.

A simplicidade do conflito traz à tona algo que permeia todo o espetáculo: a simbólica trajetória do palhaço que começa a se levar a sério demais. Essa trajetória nos remete à própria vida contemporânea e dos falsos ideais de sucesso por ela impostos. Estamos diante de um conflito que nos visita cotidianamente, o da necessidade de suprirmos uma expectativa de realização que não necessariamente é nossa, e sim de uma sociedade que parece nunca estar satisfeita. Cânio quer ser reconhecido pela crítica como um artista de bom gosto e para isso renega o número de Sílvio. Dessa forma nega suas próprias origens, como se para ser reconhecido tivesse que deixar de ser o que é.

Nesse contexto, a figura do palhaço ganha força e assume uma forte carga simbólica, remetendo à esterilidade de um mundo que exige dos indivíduos que sejam objetivos e que produzam. Encarada por essa perspectiva, a figura do palhaço revela o quanto tem de libertador. O caráter anárquico do palhaço serve como ponto de contestação à exigência de que tudo precise de propósito definido. Coloca-se como alternativa mais original, uma vez que apela à origem dos indivíduos, como se em sua tolice e ingenuidade estivesse nossa salvação diante do mundo voraz que a todo instante parece querer nos engolir.

Outra das características marcantes do espetáculo é como ele, partindo de um drama moral do século XIX, em que o marido traído deve vingar sua honra, atualiza esse conflito para uma concepção mais moderna e progressista sobre os costumes. A obra original gira em torno do drama da esposa adúltera e de como ela feriu a honra do marido. Este marido, ao final da ópera, assassina sua esposa cometendo um feminicídio.

Na adaptação do LaMínima, essa moral retrógrada é alterada, não se julga mais a mulher traída, o alvo agora é o marido opressor. E, para dar potência a essa alteração, a figura de Strompa, uma personagem que não está na trama original, é fundamental. Essa personagem carrega uma enorme força e também um encanto que toma toda a plateia.

Marcada pela determinação, a personagem, que é companheira de Tônio e protagoniza a maioria das cenas de grande comicidade do espetáculo, traz como uma de suas principais características a muito bem-vinda insubordinação e o imenso poder do feminino. Strompa é interpretada por Carla Candiotto com muito carisma; além disso, a atriz é bastante alta, o que confere mais imponência à personagem, que afronta sem cerimônia os personagens masculinos que a desafiam.

A energia do feminino não se demonstra só em Strompa, mas também em Nedda, que, mesmo doce e sonhadora, gradativamente vai recusando a submissão que dela se espera. Em dado momento, desiludida de seu casamento com Cânio, diz: “Tenho alma de pássaro, agora sei. A ordem, as leis, os hábitos são a prisão, a cela escura onde dorme meu coração”. É também essa consciência que a leva aos braços de Sílvio e faz girar a trama, ou seja, é o vigor do feminino e sua escolha pela liberdade que coloca a história em movimento. Saímos da passividade colocada na figura da mulher no libreto original de Ruggero Leoncavallo para que ela seja força motriz da trama na adaptação de Luís Alberto de Abreu.

Cânio foi traído, mas ainda tinha um melodrama para encenar. O melodrama que Peppe escrevera a seu pedido para que ele “expusesse no palco as grandes emoções humanas”. Para o líder da trupe, essas grandes emoções só poderiam ser expostas por meio do dramático e não do cômico. Nessa dualidade que se evidencia a sua ridícula situação, ele tentou deixar de ser palhaço, mas reconhece em sua patética condição a essência e a alma de palhaço. Com a peça dentro da peça, ele percebe que o drama escrito por Peppe revela sua própria tragédia.

O teatro dentro do teatro evidencia, como um espelho diante de outro, os limites da própria encenação e desponta para fora de cena com uma potência singular. Ao fazer com que Cânio se reconheça como autor e vítima do seu melodrama, o espetáculo nos aponta uma problemática parecida com a de seu personagem e faz nos reconhecer nela. O quanto a negação de nossa própria inocência e anarquia em detrimento de uma organização mais estável da vida não nos mostra nossos próprios limites? O quanto o endurecimento e objetivismo da rotina não nos afasta de algum sonho? E é neste momento em que todos reconhecemos lá dentro, num canto esquecido, nosso próprio palhaço.

É devido a essa energia e engenhosidade que Pagliacci do LaMínima fala fundo aos nossos sentimentos. Oscilando entre as melancólicas falas do velho bufão Peppe, que entrecortam o espetáculo, e os elaborados e divertidos números de palhaço, vai se celebrando o circo e o teatro em uma tocante homenagem a essas artes. Pagliacci é uma consagração aos palhaços, aos artistas circenses e aos artistas do teatro, e guarda bastante relação com o filme A viagem do capitão Tornado, do cineasta italiano Ettore Scola, que a partir da história de uma companhia mambembe faz uma das mais belas homenagens que o cinema fez ao teatro.

É impossível não falar de como é frutífero o encontro que Pagliacci promove para celebrar os vinte anos do LaMínima. Um elenco afiado e certeiro, que mostra ao que veio não só nos números circenses e de palhaçaria, mas também nas interpretações intensas e precisas. A direção musical que cria um profundo diálogo com os demais elementos cênicos e sobrepõe camadas de significação à encenação. Cenários e figurinos que compõem belamente a atmosfera do espetáculo. Uma dramaturgia inventiva e impactante, que parte da dificuldade de adaptar um texto datado para chegar a um resultado primoroso. E uma direção competente que soube colocar com precisão cada elemento.

Durante todo o espetáculo, com os assentos quase todos ocupados e uma ruidosa plateia que vibrava a cada número, havia uma ausência quase que onipresente. Tentava entender por que um espetáculo cômico, mesmo que com pitadas melancólicas, evocava esse sentimento tão intenso. Talvez pela imagem do palhaço triste que nos observava durante toda a primeira parte da peça, através do enorme portal de entrada no fundo da cena. Talvez pelas palavras saudosas do velho bufão. E não apenas pela recente falta de Domingos Montagner, mas também por ela.

A ópera Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, depois do assassinato de Nedda e Sílvio pelo traído Cânio, termina com a frase “La commedia è finita”. Como a dizer que o lugar do palhaço acabou e agora só sobrou espaço para tristeza e para morte. Mas, na adaptação de Abreu, depois das mortes de Nedda e Sílvio, Cânio diz “La tragedia è finita”. Então as luzes piscam como em um curto-circuito e Cânio prossegue: “Desculpem por essa imprevisível interrupção, mas continuaremos com nossa peça”. Neste momento, percebemos que na montagem do LaMínima o que de fato acaba é a tragédia para dar prosseguimento à encenação, que é a maneira que aqueles palhaços tinham de dar continuidade à vida. Foi nesse instante que compreendi aquela ausência onipresente, aquela falta insistente. Era ela que movia aqueles palhaços, como uma falta que nos move, que nos faz entender que a vida e suas tragédias, as mortes que nos atravessam, também nos fazem seguir adiante.

LaMínima − Circo e teatro

Um galo sozinho não tece uma manhã.

João Cabral de Melo Neto

Em 1997, surge o grupo LaMínima fundado pelos atores, palhaços e artistas circenses Domingos Montagner e Fernando Sampaio. Sua primeira peça, LaMínima Cia de Ballet, foi assim batizada pelo diretor e dramaturgo Naum Alves de Souza após assistir o número em que é apresentada uma grande companhia itinerante com seus produtores, técnicos, diretores, coreógrafos, atrizes e atores, formada por exatamente duas pessoas. Naum não sabia, mas ao batizar o espetáculo batizava o grupo recém-formado.

A partir de então se inicia uma parceria que deu às plateias brasileiras diversos espetáculos num íntimo e inseparável diálogo entre circo e teatro. Entre os espetáculos: À La Carte, Piratas do Tietê − O filme, Reprise, A noite dos Palhaços Mudos, Mistero Buffo, Classificados e agora Pagliacci, para citar apenas alguns. Ao longo desses vinte anos, o LaMínima foi consolidando sua linguagem, angariando prêmios e reconhecimento da crítica e do público.

Send to Kindle
Rodrigo Sanches

Rodrigo Sanches

Rodrigo Sanches nasceu em Curitiba, mas vive em São Paulo há mais de 30 anos. Estudou letras e filosofia na Universidade de São Paulo (USP), mas parece que a academia não era para ele. É ator e produtor cultural, às vezes dá uma de escritor. Também acha cachorro perdido, joga roleta, bilhar e baralho e sabe dar mortal para trás.

Leia também

Artes cênicas

Molière – a virtude do prazer

por

Ride, ridentes! Derride, derridentes! Risonhai aos risos, rimente risandai! Derride sorrimente! Risos sobrerrisos – risadas de sorrideiros risores! Hílare esrir, […]

Artes cênicas

NAC, um programa artístico-pedagógico visionário

por

Ex-aluno da filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) e expoente da sociologia urbana na atualidade, o estadunidense Richard Sennett anda empenhado […]