O anjo pornográfico completa 1OO anos

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Nelson Rodrigues, jornalista, cronista, dramaturgo e escritor, torcedor fanático do Fluminense e dotado de uma verve imbatível para a crítica dos valores mais sagrados da sociedade de sua época, é uma daquelas figuras controversas que despertam paixões – sejam elas de ódio, sejam de admiração. O jornalista Ruy Castro é um dos maiores conhecedores de sua obra. Com a autoridade de quem é autor da mais completa biografia já publicada sobre Nelson Rodrigues, ele escreve para a Revista Ponto sobre as duas peças rodriguianas em cartaz no Teatro do Sesi-SP até o fim do ano: A Falecida e Boca de Ouro.

Em 1953, metade do planeta vivia sob a égide do “realismo socialista” criado pelo teórico stalinista Andreï Jdanov. Era uma teoria segundo a qual todas as histórias deveriam ter um final “positivo”, que ressaltasse as conquistas do proletariado. Se isso valesse para o teatro de Nelson Rodrigues, em Vestido de Noiva, depois de receber o buquê das mãos de Alaíde, Lúcia deveria tirar o vestido de noiva, enfiar-se no macacão e ir para a fábrica ou para a reunião do sindicato.

Naquela época, os críticos de esquerda, que ainda não tinham rompido definitivamente com Nelson, reconheciam que ele fazia um teatro antiburguês, mas ficava no meio do caminho. Ou seja, seus personagens não se engajavam na preocupação com a história ou com as grandes massas.

Perguntado a respeito, Nelson respondia:

O que me interessa é a pessoa em particular.
A história que vá para o diabo que a carregue, e Marx que vá tomar banho.

Pois, com tudo isso, Nelson às vezes ligava o rádio naquele ano e ouvia acusações de que era “um tarado”, além de ser “um dos instrumentos do plano comunista da Última Hora para destruir a família brasileira”!

Quem dizia isso era o jornalista Carlos Lacerda, citando Karl Marx e Friedrich Engels, para mostrar o péssimo conceito em que os dois filósofos alemães tinham a família, e lendo trechos de A Vida como Ela É…, para provar que Nelson fazia parte do movimento comunista internacional. Quem ouvisse Lacerda falando aquilo pelo rádio, e não conhecesse Nelson, era bem capaz de acreditar. Mas qualquer um que já tivesse trocado duas palavras com ele só poderia rir.

Em sua campanha para arrasar Getúlio Vargas, Carlos Lacerda tinha primeiro de destruir Samuel Wainer e o Última Hora. Para isso, valia tudo, até insinuar que Nelson, além das papinhas para a úlcera, também comia criancinhas no café da manhã. Carlos Lacerda estava cansado de saber que Nelson era quase tão anticomunista quanto ele, e que sua presença na Última Hora, entre todos aqueles esquerdistas do jornal, era até uma excrescência.

Foi nesse clima que Nelson estreou sua nova peça. Quando os personagens de A Falecida disseram suas primeiras falas no palco do Teatro Municipal, no dia 8 de junho de 1953, a plateia levou um susto.

A peça tratava de uma sofrida mulher do subúrbio carioca, a tuberculosa Zulmira, cuja única ambição na vida era um enterro de luxo, com cavalo de penacho e outros bichos. Seu marido Tuninho, tricolor fanático, só pensava em futebol. Jogando uma sinuca imaginária, e exclamando “Pimba!” a cada tacada, os personagens se referiam a Carlyle, atacante do Fluminense, Pavão, beque do Flamengo, e Ademir, craque do Vasco, jogadores então em atividade.

Zulmira, pouco antes de morrer, manda Tuninho procurar o milionário Pimentel. Ele pagaria seu enterro de luxo. Zulmira morreu, Tuninho foi ao milionário e descobriu que ele era amante de Zulmira. Tomou-lhe o dinheiro, deu a Zulmira um enterro de cachorro e partiu para torrar o dinheiro em apostas.

No Teatro Municipal, a plateia parecia horrorizada:

Mas como??? Futebol no Municipal!
Onde é que nós estamos?

De fato, a aura que cercava o Teatro Municipal não autorizava certas liberdades. As pessoas mandavam fazer roupa para frequentá-lo, como se estivessem em Paris ou Milão. Era um palco reservado a óperas, concertos, oratórios sacros e peças “sérias”. E as peças anteriores de Nelson, por mais chocantes que fossem, eram sérias. Mas A Falecida estava cheia de gaiatices. Em certo momento, um personagem diz:

A solução do Brasil é o jogo do bicho!
Eu, se fosse presidente da República, punha o Anacleto
[um bicheiro da época] como ministro da Fazenda!

Sem falar nas referências geográficas, que tornavam A Falecida tão carioca quanto uma chanchada da Atlântida ou quanto uma coluna de A Vida como Ela É…, a nova coluna que Nelson agora escrevia diariamente na Última Hora.

Hoje isso parece claro. Nelson deixou que a cor local de A Vida como Ela É… contaminasse A Falecida e marcasse o rompimento de seu teatro com o ambiente mítico e sombrio das primeiras sete peças. A história agora podia ser dramática, como a de A Falecida, mas alguns personagens eram mesmo gaiatos, falavam a gíria corrente, estavam vivos. Cenário e tempo não eram “qualquer 50 lugar ou qualquer época”, como nas outras peças, mas a Zona Norte do Rio (a Aldeia Campista) ou a Cinelândia. O tempo era hoje, 1953. E a peça era engraçada, não havia como não rir – embora Nelson advertisse no programa que, se alguém risse, seria por conta própria.

Ele tinha classificado A Falecida como uma “tragédia carioca”, mas, virada pelo avesso, ela era uma comédia e, a partir de agora, suas peças seriam seriam assim.

Seria o reencontro de seu teatro com o sucesso comercial. E, pelo que ele já tinha enfrentado, não era sem tempo. Cansado de desagradar a plateia, os críticos e a censura, Nelson agradaria agora pelo menos a si mesmo. E quanto às referências ao futebol, ele achava que já estava na hora de os personagens da literatura brasileira aprenderem, pelo menos, a “bater um escanteio”.

Maria Luísa Mendonça e Rodrigo Fregnan em cena de A Falecida, direção de Marco Antônio Braz.

De onde Nelson Rodrigues pode ter tirado essa ideia? Uma peça em torno de um homem com uma dentadura toda de ouro! Bem, quer saber? Da vida real.

Em 1960, o ônibus que Nelson tomava quase todo dia na Central do Brasil para ir almoçar com sua mãe no Parque Guinle era o 115, da linha Laranjeiras/Estrada de Ferro. Um dos motoristas, um pernambucano chamado Rubem Francisco da Silva, gostava de se exibir: tinha 27 dentes na boca, mas eram todos de ouro. Abria a boca no ponto final da rua General Glicério e dizia:

Olha só! Pode contar, um por um!
E não é coroa, é maciço! Ouro 24 quilates!

Não se sabe se, rodando diariamente da Central às Laranjeiras com aquela boca de milhões, Rubem, tão exibicionista, viveu para ver o espetáculo. Mas Nelson capturou a ideia, combinou-a com um personagem real do submundo carioca, o bicheiro Arlindo Pimenta, e, com esse material, produziu sua nova peça: Boca de Ouro.

A exemplo de Álbum de Família, Anjo Negro, Senhora dos Afogados e Perdoa-me por me Traíres, também Boca de Ouro ficou engasgada na censura e atravessou alguns meses de 1960 proibida, até Nelson desembaraçá-la com o ministro da Justiça de Juscelino, Armando Falcão.

Como novidade, Ziembinski levou-a para montá-la em São Paulo, em dezembro, no antigo Teatro Federação, mais tarde Cacilda Becker. Seria a primeira estreia paulista de Nelson – e acabou sendo a única, porque foi um retumbante fracasso. Um dos motivos, o de que Ziembinski, contra todas as evidências de que não daria certo, insistiu em ser, ele próprio, o Boca de Ouro.

Tudo bem que Nelson tinha definido o personagem como o “Drácula de Madureira”, o “Rasputin suburbano”, mas essas imagens centro-europeias não obrigavam o ator que o representasse a falar com um sotaque da Transilvânia. A não ser que Ziembinski atribuísse aquele sotaque ao fato de que Boca de Ouro talvez fosse filho de uma polaca do mangue. Mas claro que não podia dar certo: Boca de Ouro era um malandro de subúrbio carioca, com ginga, malícia e swing próprios – o que Ziembinski, com toda a sua vivência do Rio, era incapaz de reproduzir. Foi essa a opinião do crítico Décio de Almeida Prado, com a qual Sábato Magaldi concordou. E, com isso, Boca de Ouro encerrou rapidinho sua temporada em São Paulo.

Mas a peça ressuscitou gloriosamente no Rio um mês depois, em janeiro de 1961, com direção de José Renato e elenco perfeito: Milton Morais, como Boca de Ouro; Vanda Lacerda, como sua ex-amante, Guigui; Ivan Cândido, como sua suposta vítima, Leleco; Beatriz Veiga, como sua nova amante, Celeste; e Tereza Rachel, como sua assassina. Em seu habitat natural, Boca de Ouro ganhou outra dimensão, que levaria Hélio Pellegrino a escrever uma ode sobre o personagem em O Jornal.

Abram aspas para o Hélio. “Boca de Ouro, nascido de mãe pândega, parido num banheiro de gafieira, tendo perdido o paraíso uterino para defrontar-se com uma realidade hostil e inóspita, sentiu-se condenado à condição de excremento”, escreveu Hélio. “Seu primeiro berço foi a pia da gafieira, onde a mãe, aberta a torneira, o abandonou num batismo cruel e pagão. Essa é a situação simbólica pela qual o autor, com um vigor de mestre, expressa o exílio e a angústia humana do nascimento, o traumatismo que nos causa, a todos, o fato de sermos expulsos do Éden e rojados ao mundo, para a aventura do medo, do risco e da morte. Boca de Ouro, frente a essa angústia existencial básica, escolheu o caminho da violência e do ressentimento para superá-la. Ele, excremento da mãe, desprezando-se em sua enorme inermidade de rejeitado, incapaz de curar-se dessa ferida inaugural, pretendeu a transmutação das fezes em ouro, isto é, de sua própria humilhação e fraqueza em força e potência”.

“Essa alquimia sublimatória – continua Hélio –, ele a quis realizar através da violência, da embriaguez do poder destrutivo pela qual chegaria à condição de deus pagão, cego no seu furor, belo e inviolável na pujança da sua fúria desencadeada. Ao útero materno mau, que o expulsou e lançou na abjeção, preferiu ele, na sua fantasia onipotente, o caixão de ouro, o novo útero eterno e incorruptível onde, sem morrer, repousaria.” Fechem aspas.

Complicado, não? Mas Nelson adorou.

Quando uma autoridade como Hélio Pellegrino se debruçava sobre a obra de Nelson Rodrigues, parecia um aviso de que a obra do dramaturgo era para ser levada mais a sério do que pensavam os críticos, os jornalistas, os censores, o público e, quem sabe, o próprio Nelson.

Ele acabou der ler aquele texto com lágrimas nos olhos. Apontou para Hélio e exclamou:

“É o nosso Dante!”

Marco Ricca como Boca de Ouro.

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