NAC, um programa artístico-pedagógico visionário

Fotografia de Bob Sousa para o livro Atos de coexistência. 30 anos do NAC, da SESI-SP Editora.

Ex-aluno da filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) e expoente da sociologia urbana na atualidade, o estadunidense Richard Sennett anda empenhado na conclusão da trilogia denominada Projeto Homo Faber.
O sociólogo e historiador dedica os dois primeiros volumes às habilidades necessárias para se levar uma vida cotidiana satisfatória. Esse pensamento – não confundir com autoajuda – inspira o presente artigo a estabelecer livre associação com os princípios artístico-pedagógicos do Núcleo de Artes Cênicas, o NAC, programa do Serviço Social da Indústria introduzido há trinta anos e presente em 21 unidades do Estado de São Paulo.

Capa do livro publicado pela SESI-SP Editora.

O NAC oferece cursos livres de iniciação ao teatro para crianças, adolescentes, adultos e idosos. A “biografia” do programa pretende realçar a dimensão amadora e o quanto ela pode transformar a vida e o cotidiano das pessoas ao friccionar cultura, arte e cidadania. Mas antes de avançar sobre Atos de coexistência: 30 anos do Núcleo de Artes Cênicas do SESI-SP, lançamento da SESI-SP Editora, convém situar a invocação a Sennett nestas linhas.

O ensaísta abriu a citada trilogia com O artífice (2009), estudo sobre a arte de produzir coisas bem feitas sintetizadas na prática do artesanato, conectora de cabeça e mãos. Na percepção do pesquisador, fazer bem uma coisa, pelo simples prazer de fazê-la, é qualidade que a maior parte dos seres humanos possui, mas pouco prestigiada na sociedade, por paradoxal que pareça.

Já o livro Juntos: os rituais, os prazeres e a política da cooperação (2012) sustenta que a capacidade de cooperar lubrificaria a maquinaria necessária para fazer as coisas e a coparticipação compensaria aquilo que, talvez, nos falte individualmente. A cooperação não é conquistada facilmente: carece desenvolvê-la e aprofundá-la, sendo mais bem-sucedida quando envolve pessoas cujas visões de mundo não necessariamente combinam, porém esbanjam qualidades para celebrar o convívio.

Quanto à terceira obra do Projeto Homo Faber, ainda sem previsão para ser publicada, o sociólogo versará sobre a construção das cidades: de como o desenho urbano vem artificializando as experiências compartilhadas, seja em espaço público ou privado. Richard Sennett nutre a esperança de que tanto a habilidade artesanal como a habilidade para a cooperação social sejam capazes de inspirar novas ideias, assim como uma melhor concepção de cidade.

Essas proposições alvissareiras como que ecoam o ideário do mentor do Núcleo de Artes Cênicas, o encenador Osmar Rodrigues Cruz (1924-2007). Afinal, o teatro é uma arte essencialmente artesanal, coletiva e inscrita no dia a dia da cidade onde acontece, quer nos palcos, nos espaços não convencionais ou ao ar livre. Tem sido assim desde a Antiguidade.

Em 1987, Cruz estava vinculado havia 36 anos ao Serviço Social da Indústria, fazendo do teatro sua razão de viver, quando foi apoiado pelos gestores da instituição a criar um programa de caráter artístico e pedagógico. De fato, uma iniciativa coerente com a trajetória do diretor: ele ingressou na entidade para ensinar artes cênicas em chão de fábrica, em 1951; idealizou o grupo Teatro Experimental do SESI, em 1959, voltado aos amadores e espécie de laboratório para a fundação da companhia estável Teatro Popular do SESI, em 1962; e comandou a prestigiada e então homônima sala da sede na avenida Paulista, cujas cortinas foram abertas em 1977.

Como se observa, o teatro é uma arte inexorável na tradição do SESI-SP, precisamente desde o segundo ano de atividade do serviço social criado em 1º de julho de 1946. No mesmo ano da inauguração do lendário Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, em 1948, no Bixiga paulistano, algumas escolas, clubes e associações de bairro e indústrias já recebiam montagens de espetáculos não profissionais capitaneados pelos assim chamados ensaiadores e grupos dramáticos encampados pela entidade.

O NAC, por sua vez, nasceu como atividade complementar gratuita aos alunos das escolas do SESI e do entorno, públicas ou particulares, proporcionando os primeiros passos nos jogos de atuação. E assim o programa evoluiu e tem sido aprimorado até os dias de hoje, valorizando sua vocação amadora e comunitária no ensino e aperfeiçoamento teatral, bem como provendo o autoconhecimento de cidadãos com idades de 8 a 90 anos – acesso ampliado aos industriários, familiares, amigos e membros da comunidade em geral.

Cada NAC corresponde a uma plataforma de atividades. Todos oferecem o curso semestral de iniciação ao teatro, com 32 horas de aulas, e o curso múltiplas linguagens, que compreende 220 horas de aulas ao longo de pelo menos nove meses de pesquisa, criação e ensaio de espetáculo adulto levado a público sob os ritos e os rigores formais e temáticos de qualquer obra dessa natureza, efêmera.

A ação formativa sistemática é complementada por oficinas de oito a dezesseis horas que abarcam amplamente os modos contemporâneos de criar e produzir. Elas envolvem técnicas e poéticas em corpo, voz, dramaturgia e desenho de luz, além de estimularem as interfaces com as áreas coirmãs da dança, do circo, da performance e da música, entre outros desdobramentos.

A solidez dos fundamentos, a abrangência geográfica no Estado, a ambição poética e a longevidade do programa são alguns dos indicadores que costumam surpreender profissionais do jornalismo cultural, pesquisadores dos departamentos de artes cênicas das universidades e mesmo a categoria artística quando, enfim, conhecem o caráter continuado do NAC.

Surpresa causada pela distinção do NAC em relação a outras iniciativas da casa que conquistaram mais visibilidade a um só tempo artística, pedagógica e produtiva, vide o Núcleo Experimental de Artes Cênicas do SESI (desde 2001), voltado ao aperfeiçoamento profissional de jovens atores de 18 a 27 anos, e o Núcleo de Dramaturgia SESI – British Council (desde 2007), centro de formação para novos autores brasileiros.

Uma das metas de Atos de coexistência é dar a relevância e a singularidade dessa experiência ainda pouco conhecida no âmbito da arte-educação no país. Com texto deste jornalista e foto de Bob Sousa, a história do NAC é narrada a partir das pessoas que lhe deram ossatura e tutano em três décadas. A tônica humanista reverbera nos aprendizes, técnicos, orientadores e administradores do Núcleo de Artes Cênicas, espaço geralmente integrado ao edifício teatral de cada Centro de Atividades (CAT) do SESI.

É por meio do NAC que a expressiva maioria dos aprendizes entra em contato pela primeira vez com as artes cênicas. A perspectiva amadora sedimenta a transmissão de conhecimento, os fundamentos técnicos e éticos. Sobretudo, instaura a alteridade, a percepção do outro no trabalho coletivo e na lida com a comunidade.

A complementaridade arte-vida é apontada com muita pertinência no prefácio do diretor e professor Francisco Medeiros ao sublinhar que além da experiência de convívio em grupo o NAC provoca “uma sensibilidade estética e ética” a quem nele imerge, numa influência mútua.

Com a sabedoria de quase 17 anos na coordenação do NAC, entre 1992 e 2008, a professora, pesquisadora e escritora Sônia Machado de Azevedo é outra voz importante e aparece no primeiro dos quatro capítulos de Atos de coexistência, intitulado “A dimensão amadora do teatro no Núcleo de Artes Cênicas”. Nele são abordados contextos históricos na colaboração dos cursos livres no Brasil e no mundo. A rigor, nenhum artista deveria abandonar o amadorismo em sua acepção mais nobre – aquele que ama. O pensador francês Jacques Copeau não via motivos para vergonha, mas orgulho em quem abraçava o teatro e driblava a sobrevivência retroalimentando-a por meio do fazer artístico e o brilho no olhar. Foi assim com o francês Molière e sua companhia L’Illustre Théâtre. O russo Stanislavski e os primeiros dias do Teatro de Arte de Moscou. O espanhol Lorca e sua trupe universitária e itinerante La Barraca. Todos eles mestres ativamente imbuídos do amor ao ofício, desde cedo.

O segundo capítulo, “O ofício dos orientadores no encontro artístico-pedagógico”, mostra as convicções das mulheres e dos homens que resultam o coração do programa, atualmente sob a batuta da atriz, professora e pesquisadora Miriam Rinaldi. Alguns desses educadores trabalham há décadas no NAC, outros são recém-chegados. Em comum, devotam a paixão pelo tablado e a consciência do legado a transmitir.

“O horizonte de expectativa dos alunos nos cursos de iniciação e múltiplas linguagens”, assim é nomeado o terceiro capítulo, aquele dedicado aos aprendizes. Eles compartilham das mudanças que o conhecimento e a prática teatral geraram em suas trajetórias pessoais e coletivas. O quarto capítulo, por fim, aborda “A apropriação poética por meio da criação do espetáculo”. O leitor adentra o processo de escolhas investigativas para a construção de uma peça em todos os seus elementos absolutamente integrados – o treinamento corporal, o estudo do texto, os ensaios, a cenografia, os figurinos, os adereços etc. –, isso mesmo quando a estratégia assumida é pela desconstrução narrativa, por exemplo. Em suma, a dor e a delícia de saber qual será a reação do espectador a partir da cena materializada no encontro presencial.

Fotografia de Bob Sousa para o livro Atos de coexistência. 30 anos do NAC.

Atos de coexistência demandou deslocamentos por onze unidades, entrevistas com dezenas de pessoas e depuração do olhar e da escuta nas coxias, cabines técnicas, salas de ensaio, palcos, camarins, saguões, padarias, enfim, um exercício afeito ao livro-reportagem. E como convém ao gênero jornalístico, as boas histórias surgem sustentadas ainda por fontes documentais, reforçando a dimensão vivencial da narrativa.

A memória é particularmente acolhida na parte final, com a relação das peças montadas anualmente por cada NAC, entre 2012 e 2016, e a espiral de imagens afetivas resgatadas dos respectivos acervos. Como Richard Sennett raciocina na trilogia combinatória do artifício e do ofício, a sensibilidade para com o outro “requer dos indivíduos a capacidade de compreender-se mutuamente e de responder às necessidades dos demais com o intento de atuar conjuntamente, ainda que se trate de um processo espinhoso, cheio de dificuldades e de ambiguidades”, conforme o sociólogo anota no prefácio a Juntos. A vida no NAC é impregnada desse espírito.

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Valmir Santos

VALMIR SANTOS é jornalista, crítico e pesquisador de teatro com atuação em jornais e revistas desde 1992. Idealizador
e coeditor do site Teatrojornal – Leituras de Cena (teatrojornal.com.br), lançado em 2010. Mestre em artes cênicas pela
Universidade de São Paulo (USP).

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