Molière – a virtude do prazer

Foto de Jamil Kubruk.

Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos – risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!

A encantação pelo riso – poema de Velimir Khlébnikov
Tradução de Haroldo de Campos

 

São seis horas da tarde na avenida que é um dos maiores centros financeiros da América Latina. As pessoas caminham sérias e agasalhadas no frio do outono. Dentro de um dos mais imponentes prédios da avenida está um dos teatros mais importantes da cidade, o Teatro Popular do SESI – é bom não esquecer a palavra “popular”. Lá, há mais de dois meses – todas as quintas, sextas, sábados e domingos –, acontece o espetáculo Molière. É importante notar a longevidade da temporada, serão mais de cinquenta apresentações, uma completa exceção nos palcos brasileiros, onde as temporadas quase nunca passam de vinte apresentações. É para uma dessas sessões que chego. Em meio ao burburinho da plateia lotada, percebo seu calor e diversidade, e arrisco dizer que não é a plateia que comumente encontramos nos teatros paulistanos.

No palco surge Racine, interpretado brilhantemente por Élcio Nogueira Seixas, que lhe confere uma humanidade impressionante e de maneira clara, quase didática, enuncia:

“Tenho plena convicção de que, para fazer uma peça de teatro,
é necessário colocar em cena dois personagens – dois rivais – e voilà! A peça é urdida por eles. A discussão gerada pelo encontro de suas personalidades. (…) Senhores, não sejamos frívolos. Eu falo de personalidades que encarnem duas forças em conflito insolúvel.
E não é preciso mais nada.”

Eis que entra em cena Molière, interpretado por Matheus Nachtergaele, não do palco, mas pelos corredores da plateia, junto com sua trupe. Junto, também, da plateia cheia e calorosa que lota o teatro. É um Molière tropicalista, macunaímico que mira um empolado Racine sobre o palco e dispara: “Hipócrita”, “ingrato”, “lambe cu do caralho”. O choque, a rebeldia, a força desta entrada ao som de “Odara” de Caetano Veloso imprimem a este prólogo uma originalidade extremamente brasileira. Não estamos diante de um Molière histórico envergando uma peruca. Este nosso Molière parece ter sido digerido e vomitado antropofagicamente, nos identificamos com ele já de saída. O carisma e o vigor da interpretação de Matheus reforçam essa identidade. Ele imprime em seu Molière algo absolutamente verdadeiro, não há verniz em sua intepretação, ao mesmo tempo sedutora e mordaz.

Foto de VICTOR IEMINI.

Por detrás destes dois homens, Molière e Racine, há um embate que os ultrapassa. São eles as personalidades que encarnam essas forças em conflito insolúvel, o que torna a peça extremamente rica e metalinguística, uma verdadeira ode ao teatro, à sua liberdade e ao papel fundamental que exerce no mundo. Partimos dos dois símbolos máximos do teatro, comédia e tragédia. Mas o embate entre os personagens vai além desses arquétipos que representam, transcendendo o próprio teatro para encontrar eco na discussão sobre o popular e o erudito e, ainda além, na falaciosa oposição entre prazer e virtude.

Diante das oposições que partem dessas duas figuras, Molière e Racine, a comédia e o popular são não só valorizados, como enaltecidos. Isso se evidencia no ar carnavalesco que permeia todo o espetáculo e que muito bem representa o espírito com o qual Molière encara a vida. O cômico, o riso e o prazer são colocados como indispensáveis à ideia de liberdade. Por outro lado, a supervalorização do trágico e do erudito como fundamentalmente superiores se associa com o conservadorismo, que encontra símbolo na figura do arcebispo, interpretado por Renato Borghi com enorme inteligência e maestria.

Em certo momento do espetáculo, o arcebispo Péréfixe aconselha Racine:

“O Rei só dá ouvidos ao que escuta nos teatros? Então, lhe diremos no teatro. (…) De modo que o senhor simplesmente lhe mostrará, de um lado, um monarca aviltado pelo prazer e, de outro, um monarca engrandecido pelo sacrifício e a guerra.”

A ideia é convencer Racine a tomar o lugar de Molière como favorito do rei Luís XIV. Péréfixe acredita que Molière, com sua comédia debochada, desprendida, vinculada ao prazer, desperta no rei sentimentos frívolos e o distrai de suas funções, enquanto a tragédia o lembraria dos sentimentos “nobres”, tornando-o mais sério e, consequentemente, aos olhos de Péréfixe, mais preparado para liderar uma França conquistadora.

“ARCEBISPO: É o demônio da frivolidade! Se pudéssemos salvar o espírito da França, Jean Racine; fazê-la renunciar à sua comodidade; ensiná-la o valor do sacrifício; alimentar sua alma com anseios de glória, governaríamos o mundo.”

Com isso, coloca o prazer, associado à desonra, em oposição à virtude, aqui ligada aos sacrifícios em nome da guerra. Na primeira leitura do texto, em 2011, Elcio e Renato se perguntaram se não seria uma figura exagerada demais, se as tintas reacionárias não eram muito carregadas. De lá pra cá, no entanto, muita coisa mudou na sociedade brasileira, e a figura do arcebispo, infelizmente, deixou de parecer algo exagerado à medida que nos deparamos hoje com paralelos claros deste personagem em figuras que rondam a arte como uma patrulha, a apontar seu dedo moralista e desqualificar – chegando ao ponto da censura – as mais diversas manifestações artísticas.

Um ponto fundamental da montagem é a transição dos personagens, principalmente Molière e Racine, mas não só deles. A curva de La Fontaine, por exemplo, é extraordinária. Vai ganhando densidade a cada uma de suas entradas na trama, e a intepretação de Rafael Camargo é primorosa.

Mas é em Molière e Racine que essas transições vão movendo a própria estrutura da narrativa. No texto de Sabina, Molière é apresentado como o favorito do rei Luís XIV, o artista da corte, que desfruta de todas as benesses que essa relação pode lhe dar. Tem seu próprio teatro e liberdade, sendo capaz de tocar nas feridas da sociedade por meio da acidez de seus textos. Racine é um jovem autor trágico em começo de carreira que quer encenar suas peças e encontra em Molière um mestre. Péréfixe, como anteriormente colocado, um arcebispo obstinado a fazer que com o rei Luís XIV, o genial Nilton Bicudo, deixe as frivolidades de lado e concentre-se nos caminhos da França na guerra.

O que faz tudo isto entrar em choque é uma aposta. La Fontaine argumenta com o arcebispo que Molière poderia perder tudo, mas sempre haveria de rir. O arcebispo diz que se Molière perdesse tudo perderia também seu riso. Aqui o que está em jogo é o riso de Molière – o riso como essencial, ou não, ao homem. Molière, que está presente e concorda com a aposta, precisa, então, perder para ganhar. Defende com o próprio infortúnio o riso como valor fundamental. Para o irredutível arcebispo, a virtude viria do sacrifício dos prazeres. Para Molière, o prazer era o riso – e nisso estava sua virtude.

O começo da virada na trajetória de Molière na peça se dá por uma questão amorosa e familiar. Ele era casado com Madeleine, Luciana Borghi numa interpretação forte e precisa, mas apaixona-se pela filha dela, Armande, sua enteada – interpretada por Débora Veneziani numa atuação repleta de frescor. Molière passa a ter uma tórrida relação com ela, mas no meio do romance ela o troca por outro – Baron, um dos atores da sua companhia de teatro, que havia sido criado quase como filho por Molière. O trágico o atinge. Mas essa reviravolta das paixões, ao invés de ensejar conflitos insolúveis, vai se reacomodando com certa naturalidade – ainda hoje surpreendente para muitos – na estrutura familiar da trupe teatral. Isso revela a natureza pouco conservadora de Molière. Suas paixões estão libertas das amarras tradicionais, tanto que depois ele próprio casa Armande e Baron no palco e os convida a morar em sua casa. Não que Molière não sofra por ter perdido seu amor, não que o abandono de sua amada não o abale. Ele chora ao casá-los. Mas o faz por amor. Amor ao público, a eles, ao teatro, à vida. Ao final da apresentação de “O Corno”, o arcebispo e o rei vão verificar se mesmo com tantos infortúnios Molière ainda pode rir.

“Molière sofreu, chorou, debateu-se. O público riu de seu louco desespero. A comédia é um sucesso. Mas quem ganha a aposta sobre
a alegria deste comediante em prantos? Então, Molière, com um só
e brevíssimo gesto, decide as apostas e sela seu próprio destino:
faz uma grande reverência… Lança ao ar seu chapéu… e ri.”

O rei, então, que está na plateia junto do arcebispo, recebe de suas mãos as trinta moedas de ouro.

Mas, mesmo vencendo, Molière não para de perder. Perde seu posto de favorito do rei quando Racine segue o conselho do arcebispo e encena sua tragédia encomendada diante de Luís XIV, fazendo-o rever seus conceitos. Perde quando tenta representar a hipocrisia do arcebispo ao ser seduzido por uma mulher casada colocando em cena Armande, que está grávida, o que leva todos a se perguntarem se o filho seria dele ou de Baron e a, eventualmente, destruírem seu teatro. Inflamado pela figura do arcebispo, o espanto dos conservadores se transforma em ódio.

“(o Arcebispo começa a rasgar a batina como se estivesse sufocando e eleva seu tom aos céus com uma trombeta divina) Fogo!!! Vamos incendiar todos os teatros e salgar os seus terrenos para que nada
mais neles brote. Fogo!!! Um grande incêndio para nos purificar
desses antros de corrupção e permissividade…”

É só no palco que Molière se realiza e é sempre dele que, apesar do sucesso de suas comédias, vem sua ruína.

Racine, ao contrário, tem ascensão meteórica. Torna-se o favorito do rei. Tem as graças do arcebispo. Consegue encenar suas tragédias. Entretanto, ao contrário de Molière, para de escrever. Tem fama e dinheiro, mas atribulado com as tarefas de historiador do rei não escreve mais suas tragédias. Racine ganha tudo, mas perde o principal: sua paixão por escrever. Molière perde tudo, mas mesmo à beira morte, irremediavelmente doente, mantém a capacidade de escrever suas comédias, não perde o prazer de rir de sua própria condição.

Semelhantemente à discussão que se coloca em O nome da rosa, de Umberto Eco, com o temor ao riso e ao prazer por parte da Igreja, em nome da necessidade de controle, o arcebispo primeiro busca proibir a comédia no reino. Eventualmente, a própria tragédia, e a arte como um todo, se vê sujeita a essa dominante figura de poder. É contra essa condição de submissão da arte aos interesses escusos dos governantes e poderosos que o espetáculo se coloca.

Em certo momento Molière desabafa com La Fontaine:

“O senhor já se perguntou o que seria se o prazer fosse o sagrado e a dor o pecado?”.

Talvez a reflexão mais contundente de todo o espetáculo seja essa. No cerne desta pergunta está o anseio por um mundo mais livre, menos preconceituoso, belicoso e sofrido. E a figura de Molière, por sua vez, se expande, personificando essa liberdade. Para além do riso e da irreverência que carrega em sua obra, com toda a sátira política e social, Molière carrega a oposição aos costumes tradicionais aprisionantes em sua vida pessoal. A família que ele constrói, e que, por sua vez, configura sua companhia teatral, desafia maravilhosamente a norma e os ditos bons costumes da época, possivelmente chocando o espectador conservador sentado na plateia ainda hoje.

Ao fim, numa beleza carregada de ironia, começam a ser ouvidas as notas de “Coração vagabundo”, de Caetano Veloso. Molière entoa: “Meu coração não se cansa/De ter esperança/De um dia ser tudo o que quer […] Meu coração vagabundo/Quer guardar o mundo/Em mim”. Mesmo diante da ruína e da morte, o riso e o prazer se colocam como virtudes imprescindíveis à criação artística e à própria vida.

É nessa arena do impossível que é o teatro – especialmente este tipo de teatro que devora e vomita suas referências –, no cruzamento entre o texto, a direção e a interpretação, que nos vemos diante destes animais teatrais. Esses admiráveis e ferozes animais que vão entrelaçando os fios, colocando em cena, em várias camadas, importantes reflexões acerca do nosso tempo.

Epílogo

Em 2011, Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas viajaram por toda América Latina, Caribe, México, Portugal e Espanha num projeto chamado Embaixada do Teatro Brasileiro. Nesta viagem coletaram mais de mil textos dramatúrgicos, entre várias outras atividades realizadas por eles na integração teatral que o projeto propunha. Este era um projeto piloto do Ministério da Cultura, que seria continuado com a participação de outras companhias teatrais por meio de um edital público criado pelo ministério. O projeto foi realizado com muito êxito, 15 países visitados, 170 dramaturgos entrevistados, 1.200 textos de autores contemporâneos. Mas como a continuidade não é uma das marcas da condução das políticas públicas no Brasil, em especial na área cultural, e apesar do gigantesco êxito do projeto, ele não teve continuidade.

No entanto, entre os textos selecionados por Élcio e Renato neste projeto, estava o texto de Sabina Berman, inspirado na vida de Molière, e que deu início ao projeto do espetáculo em questão.

Para além do fato deste projeto iniciado por Renato e Élcio ter levado à descoberta do texto de Sabina, coloca-se aqui uma reflexão sobre a fragilidade do fazer artístico no Brasil, a penúria e o desprezo a que estão destinados inúmeros artistas e a completa desvalorização da arte como instrumento fundamental à educação e à transformação social. Tudo isto, de certa forma, estava presente na vida do comediógrafo francês e se relaciona com os questionamentos levantados pela peça.

A relação entre a figura de Molière, o sucesso, a miséria e o mecenas representado pelo personagem de Luís XIV reflete profundamente a reflexão gerada pela descontinuidade do projeto de que foram pioneiros Renato e Élcio, e o momento difícil que vivia o Teatro Promíscuo, companhia teatral fundada pela dupla em 1993. Ou seja, de uma realidade difícil, de uma angústia ante o real, surgiu a fagulha que resultaria em Molière. E muitas vezes é disso que se trata. Qual é o disparador para criar? O que faz com que algo seja realizado no palco frente a uma difícil realidade de produção? Talvez a inquietação, própria do artista, e um incômodo constante com a insuficiência da realidade, mas também a necessidade de sobreviver, pagar as contas e existir com dignidade.

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Rodrigo Sanches

Rodrigo Sanches

Rodrigo Sanches nasceu em Curitiba, mas vive em São Paulo há mais de 30 anos. Estudou letras e filosofia na Universidade de São Paulo (USP), mas parece que a academia não era para ele. É ator e produtor cultural, às vezes dá uma de escritor. Também acha cachorro perdido, joga roleta, bilhar e baralho e sabe dar mortal para trás.

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