Fauzi arap e seus discípulos

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A atriz Denise Fraga na peça Chorinho, de Fauzi Arap.

Como ator profissional, Fauzi Arap (1938-2013) trabalhou durante um período relativamente curto, dos 23 aos 29 anos de idade. Destacou-se em montagens do grupo Oficina, sob direção de José Celso Martinez Corrêa, como as de A vida impressa em dólar (1961), do americano Clifford Odetts, sua estreia nos palcos, e de Pequenos burgueses (1963), do russo Máximo Gorki. Participou também de espetáculos dos grupos Arena, dirigido por Augusto Boal, e União, de Antonio Abujamra. No cinema, atuou em O padre e a moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade, baseado em poema de Carlos Drummmond de Andrade, e em Todas as mulheres do mundo (1967), de Domingos de Oliveira. Foi o bastante, no entanto, para se inscrever definitivamente na memória de todos os felizardos que o viram em cena.

“Ele virou um mito entre os espectadores e a classe teatral: teria sido o maior ator de sua geração”, afirma o diretor e dramaturgo Aimar Labaki. Apesar de encerrada a carreira como ator, jamais abandonaria os palcos: ao se dedicar à direção, criou um novo padrão para shows de música popular brasileira, com o espetáculo Rosa dos ventos (1971), de Maria Bethânia, e lançou os autores teatrais mais importantes de sua geração, como Plínio Marcos (Dois perdidos numa noite suja, que foi também seu derradeiro trabalho como ator profissional, em 1967), José Vicente (Assalto) e Antonio Bivar (Abre a janela e Deixe entrar o ar puro e o sol da manhã). “Com os anos, ele tornou-se conhecido como grande diretor de atores”, acrescenta Labaki. “Aquele que conseguia tirar de qualquer tipo de ator, de Tônia Carrero a Mário Bortolotto, interpretações únicas, as melhores de suas carreiras.”

Foi também dramaturgo, com 15 textos encenados em vida, mas esse aspecto de sua obra teve alcance mais restrito. O cenário começa a se alterar agora com o lançamento, pela SESI-SP Editora, de quatro de suas principais peças: Mocinhos bandidos (encenada pela primeira vez em 1979), Às margens da Ipiranga (1988), O mundo é um moinho (2003) e Chorinho (2007). Esses livros fazem parte de uma coleção popular, com uma peça por volume, com o objetivo de tornar o mais acessíveis possível seus melhores textos. Neste ano, a editora publicará, em três ou quatro volumes, a Obra teatral completa, incluindo prefácios, com a gênese das obras, fortuna crítica, fotos, documentos e ensaios especialmente encomendados. Além disso, sairá um box com os DVDs dessas peças encenadas no Teatro do SESI-SP.
Labaki o considera “um dos maiores dramaturgos brasileiros”. A obra de Fauzi, avalia ele, “é ao mesmo tempo de grande sofisticação intelectual e imensa capacidade de comunicação”, reunindo textos que “dialogam com o grande público e ao mesmo tempo levantam questões que são objeto de reflexão pela intelectualidade da época em que foram escritas, e de agora”.

O Projeto Fauzi Arap consistiu também em ocupar o Teatro Popular do Sesi com a estreia de A graça do fim (seu último texto, de 2013), com remontagens de suas duas peças anteriores, Chorinho e Coisa de louco (ambas de 2007), com leituras dramáticas de outros textos, depoimentos e debates. A curadoria do projeto foi assinada por Labaki, pelo produtor José Maria, pelos atores Nilton Bicudo e Denise Fraga, e por Fábio Atui, sobrinho do dramaturgo, que assumiu a responsabilidade pela sua obra.

Denise Fraga, atriz

Sempre me refiro a ele como mestre. Digo que ele era um guru de todos nós. Sempre sentei no escritório dele com essa “discipulinidade”. Eu me sentia muito mais discípula do que amiga. Ele me deu muitos instrumentos de inquietação. Ele nos esticava como artista. O que ele acusava em nós quando estava nos dirigindo, o que ele falava sobre o teatro, fazia muito a minha cabeça, era muito o que eu imaginava do teatro. Ele nos alargava. Quando eu falava “vim pra cá porque você pediu”, ele dizia: “não me obedeça, se aproprie!”. “Denise, não representa!” Ouço o Fauzi em cena o tempo inteiro. Todo o tempo em que estou criando um personagem, penso em coisas que ele falava. E não só sobre o ofício, mas sobre a vida. Era um sábio, com uma extrema capacidade de compreensão do que era o humano, de como retratar isso, de como no teatro a gente não podia mentir.

Os personagens de seus textos têm sempre um pouco do alter ego dele. Em Às margens da Ipiranga, alguém diz: “eu vim para o teatro para não ser, o que mais me interessa no teatro é não ser”. Eu me identifico com muitas coisas do que ele falava. Tudo o que ele falava para mim parecia que era para eu pensar. Ele te inquietava, te angustiava, te deixava em estado de busca. Falava coisas, mas não dava a receita. “Inventa alguma loucura interpretativa qualquer”, dizia. “O teatro não pode ser banal!”. “A pausa é o que esquenta o nosso ofício”. “Projeta o conteúdo!”. “Não se esqueça do tônus da ideia!”. “Faça cena, não faça a fala!” são coisas que fazem um sentido danado. “Ah, como a TV fez maus atores…”. “Meu Deus do céu, não se iludam com o coloquial!”. Você pegava cada fala e inventava uma loucura qualquer, para deixar dúbio, não entregar de bandeja. Ele te esticava para todos os lados, te deixando em um estado de investigação. Ele me deu uma responsabilidade muito grande, de atingir o inatingível, de ir além, sempre.

Às vezes eu falo: “ai, preciso tirar um pouco o Fauzi do ombro”. Ele fica sentadinho no meu ombro, soprando no meu ouvido: “me surpreenda, me desobedeça, mergulhe, viva”. Ele dizia coisas incríveis sobre nós mesmos e sobre os sabotadores que todos nós temos. Sinto que nosso teatro está perdendo mestres como ele, aqueles capazes de mudar a sua vida. Pessoas que, além de estudar teatro, traziam muitos ingredientes sobre o que é ser humano. Você reconhece as “leis de Fauzi” em tudo o que ele diz nos textos, num personagem ou outro. Como diz o Niltinho (Nilton Bicudo), ele tinha uma obsessão por tirar a mentira do mundo, fazer cair a máscara do mundo. Ele quase acreditava nisso. As peças dele tinham um grau de utopia muito grande. O (ator) Pedro Cardoso viu Chorinho e me disse: “É tão bonito ver esse público burguês sair do teatro transformado por uma utopia”.

Ele tinha humor, muito humor. A conversa era de uma leveza imensa. Ele ria com uma vontade, uma gargalhada plena. Escrevia com uma simplicidade que é um tapa na cara. Ele dava comunicação a coisas incomunicáveis, de um jeito papo reto. É impressionante o texto dele. O maior valor dele como dramaturgo é a simplicidade, fazer acontecer no teatro uma das coisas mais legais, que é quando o público fala assim: “nossa, obrigado por me dar palavras para aquilo que eu não sei dizer”. Essa capacidade de falar sobre uma coisa que você sente, parece até óbvia, mas que é difusa no meio do cotidiano. Outro dia uma moça falou: “eu queria pegar um papel na bolsa, mesmo no escuro, para anotar o que vocês estavam dizendo”. É o poder da palavra. “Denise, não representa, diz. Não esqueça o tônus da ideia.”

A vontade que eu tenho é de ligar para todas as escolas de teatro e dizer: “vocês precisam pegar esse bastão”. Ele uma vez falou para mim: “ando tão enjoado do teatro, tá tudo tãão morno”. Uma facada no nosso coração. Ele fez parte de um teatro em que se tinha uma fé, era um ritual sagrado. Tudo o que ele fazia tinha um lugar do sublime. Sinto que vivemos um pouco a morte do sublime, da metáfora. O mundo é um moinho é um texto que deveria ser um livro didático nas escolas, e não só as de teatro. Em toda profissão você sente essa angústia, “o que eu sou”. Quando você olha para você no meio da carreira e diz : “será que estou sendo honesto com o princípio que me fez entrar nessa profissão, estou sendo fiel a mim, ao meu impulso primeiro? “. Esse texto é lindo, é sobre você conseguir chegar perto de si. Fauzi me deixou com a angústia da resposta. Ele não me deu a resposta! Não há receita para isso. A receita é a busca da receita.

Elias Andreato, ator e diretor

Comecei a fazer teatro por causa do Fauzi e da Bethânia. Quando eu tinha 17 anos, assisti a Rosa dos ventos, o show, e a partir dali decidi que queria ser um artista. Comecei a fazer teatro amador. Acabei conhecendo o Fauzi, virei assistente dele, mas foi um caminho longo até chegar nele. De qualquer forma, ele é o meu mestre. Na minha juventude, estive muito próximo dele, nos encontrávamos sempre, falávamos, ele ouvia minhas angústias como jovem querendo ser artista, ouvia minhas poesias, enfim, foi uma pessoa muito importante não só no sentido artístico, mas no pessoal. Ele me ouvia, dava atenção, era carinhoso. Estava sempre comigo nesses momentos angustiantes da juventude. O que mais me tocava nisso tudo era a poesia com que ele trabalhava. Naquela época o teatro vivia ainda um período de muita secura, de muita violência política, ditadura e o teatro de resistência não cumpria o seu papel. Era muito imediatista, para resolver os problemas sociais.

O Fauzi entrava com outro lado, mais poético e grandioso. A poesia do Fauzi não era árida, seca. O teatro dele não era cinza. Era amoroso, falava muito de amor, das relações humanas. Não falava só desse aspecto político. Isso me tocava muito, foi o que ficou para mim. Tudo o que tentei construir na minha vida foi a partir daí. A poesia faz parte do meu cotidiano porque fui ensinado dessa forma. Como dramaturgo, ele foi extremamente antenado com seu momento. Seus personagens falam de política, sim, de uma participação social, mas também são personagens muito poéticos. Ele conseguiu juntar essa duas coisas. Sua obra merece ser estudada, olhada com mais atenção.

O projeto no Teatro Popular do SESI possibilitou a novos artistas conhecer a dramaturgia e o pensamento do Fauzi, um autor importante para o momento em que vivemos. O mundo precisa de gente com um olhar agudo sobre o nosso momento, e ele tem isso. As peças que dirigi no projeto (A graça do fim, Coisa de louco) falam sobre a velhice, a solidão, a morte, a TV, o teatro, a tecnologia. Eram temas recorrentes na obra dele e que são muito pertinentes para o momento em que vivemos. É um jeito interessante de pensar o mundo. Você consegue rir, se emocionar, consegue pensar ouvindo aquilo. Hoje a gente quer rir sem pensar, não tem paciência para muita coisa, precisa ser direto e explícito. Os jovens estudantes de teatro querem o sucesso imediato, e estudam muito pouco, se dedicam pouco à leitura de textos, obras. Todo mundo quer ser ator, mas não quer passar por nenhuma dificuldade. E com essa facilidade que temos através das tecnologias… Sem querer ser preconceituoso ou saudosista, é tudo muito rasteiro. É o que chamávamos de “conhecer a orelha do livro”.

Como você vai pensar no balé moderno se não entender o balé clássico? Como vai pensar na dramaturgia contemporânea se não estudar os grandes mestres da dramaturgia? Esse legado todo tem que servir para muita coisa. Às vezes a gente está muito preocupada em ser moderna, mas para ser moderna precisa se debruçar sobre o passado. Fauzi é um autor que vale a pena ser conhecido.

Nilton Bicudo, ator

Fauzi era um mestre, não só para mim, mas para vários atores que passaram na vida dele ou foram dirigidos por ele. No meu caso, desde criança ouvi muito falar dele, mas não imaginei que um dia fosse ficar amigo dele. Ouvia desde criança Pássaro da manhã, um disco da Maria Bethânia, que meus pais tocavam muito. Fiquei fascinando por um poema que ela dizia e que era do Fauzi. Decorei, ficava voltando a fita cassete, escrevi no meu caderno. Devia ter uns 10 ou 12 anos. Depois, viria a entregar ao Fauzi essa folha de caderno que eu tinha guardado. Quando eu tinha 24 ou 25 anos, e começava a fazer teatro profissionalmente, fui me preparar para uma apresentação de O banquete, de Platão. Um dos meus amigos que fazia parte do grupo era amigo do Fauzi e estudava astrologia com ele. Um dia, ele falou: “olha, vou trazer o Fauzi Arap para ver um ensaio, ele vem dar uns palpites”. O ensaio foi no salão de festas do meu prédio, e ele veio, em abril de 1992. Eu esperava um velhinho, que vinha com uma energia de velhinho. Mas, quando ele entrou, parecia um furacão, alto, descabelado. Depois do ensaio, ele disse para o meu amigo que odiou, mas que gostou de mim e que eu poderia ligar para ele.

Demorei um ano para ter coragem. Sabia que ele era astrólogo, eu gostava de astrologia também. No dia em que tive a necessidade de falar com alguém mais velho, um mestre, ele não fez cerimônia. “Vem pra cá já!” Fui pra casa dele imediatamente e ali começou uma amizade que durou mais de 20 anos, e que foi muito estreita, eu o acompanhei até a morte dele. Era um homem muito intenso, o mais inteligente que conheci, mas não era uma inteligência intelectualizada, era muito intuitiva. Ele escreveu Coisa de louco para mim, a personagem se chama Firmino José Pato Bicudo. Depois, escreveu A graça do fim e também dedicou a mim e ao Elias (Andreato); a personagem também tem meu nome, Nini, meu apelido de família. Foi um ciclo completo de carinho, dedicação. É uma história emocionante e muito teatral, parece inventada. Esse homem poderoso entrou na minha casa, gostou de mim e me adotou. Estava escrito.

Fauzi sempre esteve ligado à dramaturgia brasileira contemporânea. O foco dele era o que o brasileiro estava pensando. Ele buscava isso. Fez uma dramaturgia que não foi muito montada, a não ser por ele mesmo. Agora, com a sua morte, acho que as pessoas vão começar a valorizá-la. Ele diz coisas que as pessoas não costumam dizer em textos. Ele falou muito sobre os vícios que temos hoje, computador, internet, celular, TV, cinema, que anestesiam nossas vidas e nos fazem ficar mais controlados pelo sistema. Homem ideológico e que não foi trabalhar para a TV, ele teve a liberdade e a sagacidade de falar o que realmente precisa ser dito. São textos políticos, muito fortes, chamam para o popular, dão voz ao povo. Eles têm a capacidade de ir além da superfície, das máscaras e da hipocrisia social, das personas estabelecidas em sociedade, e buscam o mais profundo e verdadeiro, sendo críticos e poéticos. Os mais jovens vão conhecer a força dos textos que escreveu em virtude da sinceridade e da lealdade a uma ideologia, em um mundo que ficou cada vez mais dominado pelo dinheiro.

Fauzi não foi para a TV e quem manda no Brasil é a TV. As pessoas conhecem os atores de TV, com algumas exceções. A geracão dos últimos 30 ou 40 anos é dominada e emburrecida pela TV. Vão ao teatro em busca do ator da TV. Ela nivela tudo por baixo. E por causa disso Fauzi ficou um pouco à margem do sistema. Outra coisa é a personalidade dele. Era, por natureza, retraído, avesso à autopromocão e a qualquer coisa que não fosse de acordo com o que ele estabeleceu para a vida dele, a pesquisa, o estudo. Ele preferia até trabalhar com amadores.

Ele tinha vontade de dirigir os próprios textos. Queria fazer do jeito dele. Continuou no radicalismo de quem já abrira mão de muitas coisas desde a juventude. Escrevia como uma forma de expurgar o que vivia, sentia, via do mundo. E teve a sorte de fazer espetáculos bem-sucedidos, como Caixa 2, o que deu a ele uma aposentadoria, um conforto, uma liberdade de não precisar ficar à mercê do mercado. Para conhecê-lo melhor, sugiro a leitura do livro Mare Nostrum — sonhos, viagens e outros caminhos (1998). Um tesouro para quem estuda teatro, e para quem gosta de uma linha mais espiritualizada em uma narrativa. Fauzi conta coisas maravilhosas, as experiências dele com LSD e com psiquiatria, os shows. É um livro poderoso. Não tem nada a ver com dramaturgia, mas faz bem para quem lê.

Editora lançou, em dezembro de 2014, quatro criações de Fauzi Arap.

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