A graça de Dario Fo

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Ilustração de Claudius para o livro Mistero Buffo, da SESI-SP Editora

Autor de um teatro tão crítico quanto popular, o Nobel de literatura italiano retrata as contradições e injustiças da humanidade.

Fazendo coro a escritores, jornalistas e, quem sabe, até mesmo o papa, em 7 de dezembro de 1997 um italiano alto e de cabelos brancos se dirigia indignado ao comitê do Prêmio Nobel de Literatura: “Pazziàmme?”. Era ninguém menos que o próprio laureado a indagar, com um sorriso maroto, se a academia sueca havia perdido o juízo ao premiar um bufão, desencadeando uma crise no Vaticano e levando à escassez de calmantes na Itália.

Mais do que um discurso, Dario Fo encenava ali sua própria vida e obra. Desde os primeiros monólogos, escritos nos anos 1950, às suas peças mais famosas – como Mistero Buffo (1969), Morte acidental de um anarquista (1970) e Não se paga! Não se paga! (1974) –, a premissa do ator e dramaturgo nascido em San Giano, ao norte da Itália, tem sido questionar instituições, autoridades e hábitos da sociedade – sempre com humor. “A arte que não fala de seu próprio tempo”, já afirmou Fo, “não tem relevância”.

Sob essa perspectiva, sua obra é extremamente relevante. Vladimir Putin, igreja católica, aquecimento global, o rei Carlos XVI Gustavo da Suécia – nada nem ninguém parece escapar da sua sátira. “Ele alcança a universalidade do cômico e do crítico que não fica no rasteiro dos clichês políticos”, analisa Luiz Fernando Ramos. Para o professor-associado do departamento de Artes Cênicas da USP, trata-se de uma crítica social a um só tempo inteligente e popular, “com forte penetração nas questões universais, no ridículo do ser humano”.

Não são todos, no entanto, que apreciam essa arte. Ao levar temas polêmicos ao palco e “incitar” a plateia à reflexão, Dario Fo se consagrou também como um dos autores mais controversos de sua geração, tornando-se alvo de censuras e ataques da direita e da esquerda – um aliado político do ex-premiê italiano Silvio Berlusconi o processou por difamação (e perdeu a causa); até 1984, o Departamento de Segurança dos EUA continuamente lhe negou visto de entrada ao país.

Mas essa é uma via de mão-dupla, e tamanha reação ajuda a construir o mito: suas peças foram vistas por milhões de pessoas ao redor do mundo e a imprensa adora repercutir sua opinião sobre absolutamente tudo – da política milanesa à imigração, da reencarnação à arte do chinês Ai Weiwei. Dario Fo, aos 88 anos, incomoda muita gente.

Jogral contemporâneo

É preciso voltar no tempo para encontrar as origens de sua obra, composta por mais de 70 criações, entre monólogos, comédias, óperas e romances. Mais precisamente, a Idade Média, quando jograis narravam os fatos da hora em praças e feiras, abusando do grotesco e da hipérbole para satirizar os poderosos da vez. “Eles eram o jornal falado do povo, que era basicamente iletrado”, explica Fo em uma apresentação. Ignorada pela História, essa tradição permeou a infância do autor na voz de pescadores, vendedores ambulantes e seu próprio avô – todos grandes contadores de histórias.

Já em Milão, no cenário do pós-guerra, Fo abandonava o curso de arquitetura na Politécnica da cidade, aproximando-se cada vez mais dos palcos e da militância política. “Naquela época eu trabalhava para um arquiteto e descobri toda a sujeira que me cercava – roubos, desonestidade, falta de ética”, lembra o autor em uma entrevista. Não demorou para que esse espectador assíduo começasse a esboçar seus primeiros textos e encenações no teatro de revista, voltando-se ainda para a leitura de Marx, Brecht e Maiakóvski.

Mas tão importante quanto esses autores foi conhecer a bela (ao nível das musas de Marcello Mastroianni) atriz Franca Rame (1929-2013), sua grande companheira na vida e na arte. Juntos, em 1957, eles fundaram a companhia Fo-Rame, que desde então se colocou em defesa dos humildes e dos oprimidos, apresentando-se em teatros de todos os tamanhos, bem como igrejas, fábricas e praças. Suas peças, aliás, não raro eram interrompidas pela polícia ou por protestos: Os arcanjos não jogam pinball (1959), por exemplo, teve 192 encenações na Itália, com uma média de 500 espectadores por noite – e 192 denúncias por não ter cumprido os cortes da censura.

A proposta política do italiano não seguiu, no entanto, o viés de um Brecht ou Maiakóvski. Isso porque Fo, ele mesmo seu principal ator – e cenógrafo, figurinista, diretor –, ambiciona um teatro popular, que fale ao homem comum em seus próprios termos. “Eu aprendi a me libertar da escrita literária convencional e a me expressar com palavras simples, sons incomuns e diferentes técnicas de ritmo e respiração”, diz o autor. No palco, isso se converte no uso de dialetos (sicilianos, milaneses, lombardos…), do gramelot (fala onomatopaica com referências em diversas línguas) e do baixo-cômico. “Fo é mais brincalhão, seu engajamento não é radical”, compara Aurora Bernardini, especialista em literatura italiana e russa. “Ele sabe captar o engraçado e o grotesco de cada situação, e a partir daí denunciar os males da política.”

Ilustração de Claudius para o livro Mistero Buffo, da SESI-SP Editora.

É esse jogral contemporâneo, como Bernardini o define, que encontramos nas sátiras de Mistero Buffo, no prelo pela SESI-SP Editora. Considerada uma de suas principais obras, Mistero se baseia nos evangelhos apócrifos e em contos da Idade Média para questionar a relação do homem com a religião e suas contradições: “A ressurreição de Lázaro” é vista pela ótica popular como o “espetáculo do século”, com direito a vendedores ambulantes e apostas entre a plateia que aguarda o evento; na “Moralidade do cego e do paralítico”, as personagens refutam o poder de cura de Cristo, pois não pretendem trabalhar para ganhar a vida; e em “O milagre das bodas de Canã”, Jesus transforma água em vinho e convida os presentes a simplesmente serem felizes, sugerindo que o paraíso é aqui e agora.

“Nunca é um discurso que larga dogmas”, afirma a diretora Neyde Veneziano, tradutora das cinco peças selecionadas para esta edição. “Fo mostra isso na ação, armando situações para colocar ideias políticas que não são partidárias, mas no sentido de combater injustiças sociais.” Para Veneziano, que no início dos anos 2000 passou uma temporada na Itália pesquisando a produção do autor, sua força está no uso do passado como metáfora para o presente: “É uma obra universal, que fala não de um excluído na Itália, mas em qualquer situação e época”.

Ator em movimento

Apesar de existirem versões oficiais, que guiam as traduções e montagens, as peças de Dario Fo não possuem um texto rígido, muito menos definitivo. Cada apresentação é única: conforme o país em questão e os acontecimentos da hora, ele insinua novos paralelos contemporâneos, e de suas improvisações resultam adições e subtrações aos roteiros originais. “Sobre Il teatro di Dario Fo, um livro imenso que era para ser sua obra completa e definitiva, Franca me disse: ‘Eles nunca poderão afirmar que esse é o teatro de Dario Fo, porque ele está sempre mudando’”, recorda Veneziano.

Também é desafiador fazer uma montagem à altura do ator Dario Fo – talvez seu melhor intérprete –, já que frequentemente suas peças não usam cenário, figurino ou iluminação elaborados, sendo o ator o único recurso para representar monólogos que não raro têm mais de uma dezena de personagens. “O que fala é o corpo, a gestualidade. O ator tem que ser muito preciso”, avalia a diretora. Vestido com uma camisa preta de gola rolê e jeans escuros, Fo emprega a mímica para passar de uma personagem a outra e dar sentido a palavras que nem sempre são compreensíveis – e não precisam ser: “Sua força corporal é tão grande que todo mundo entende”, afirma Neyde, que encenou as sátiras de Mistero Buffo junto ao grupo La mínima.

O ator Júlio Adrião vive essa experiência há nove anos, desde que estreou A descoberta das Américas. Escrita por Fo no início dos anos 1990, a partir de uma pesquisa sobre Cabeza de Vaca (cronista espanhol que viajou com Cristóvão Colombo), a peça é contada ao espírito dos jograis, pela perspectiva de quem vivenciou a história. “Como Fo era o autor e possui um vasto repertório de histórias, ele ia contando, abrindo parênteses e contando mais. Esse vai e volta, sem recursos cênicos, é o que mais me fascinou”, diz Adrião sobre a representação do ator-autor.

Após traduzirem A descoberta, ele e a diretora Alessandra Vannucci partiram para a apropriação da história em seu próprio tempo e cultura. No entanto, por mais que procurassem conferir à adaptação uma linguagem fluida, deparavam com um texto que ainda não era bom de ser falado. O ator decidiu então fazer como o próprio Fo – contar a história: “Eu fui ganhando propriedade, uma qualidade específica minha de autor da contação”, lembra Adrião, que acrescentou referências, vocabulário e expressão física próprios. Sua interpretação de Johan Padan – trocadilho que em bom português equivale a “Zé da Roça” – lhe rendeu o prêmio Shell de melhor ator.

Fo para presidente

Foi, sobretudo, por intermédio do palco que a obra de Dario Fo, escassa no mercado editorial nacional – antes de Mistero Buffo, somente Morte acidental de um anarquista e outras peças subversivas havia sido publicado, em 1986, pela Brasiliense, com tradução de Maria Betânia Amoroso –, chegou ao Brasil: além do próprio dramaturgo, que trouxe Mistero ao país em 1989, Sérgio Britto, Antônio Abujamra, Denise Stoklos, Marília Pêra, Antonio Fagundes e Roberto Vignati estão entre os diretores e atores que também encenaram suas peças. Se elas não provocaram revolta como na Argentina, onde as apresentações de Mistero foram marcadas por protestos, ou na Itália, quando a transmissão da peça no formato de minissérie levou o Vaticano a execrá-la como o programa mais blasfemo na história da televisão, por aqui as adaptações dividiram a crítica: o trabalho de Abujamra com Morte acidental fez enorme sucesso como paralelo à ditadura militar, e a atuação de Fagundes até hoje é lembrada, ao passo que outras montagens foram consideradas datadas.

Ainda que aspectos da luta de classes, do feminismo ou da relação entre os trabalhadores e os donos dos meios de produção soem pouco contemporâneos, pedindo atualizações, Aurora Bernardini minimiza seu prejuízo para o conjunto da obra. “Fo passou por várias etapas, e cada uma teve sentido na época em questão”, pondera a professora da USP, lembrando que, apesar do engajamento marxista, o dramaturgo soube satirizar diversos aspectos da política – inclusive o Partido Comunista italiano – e rever posicionamentos da juventude ao longo da carreira. “O importante é que ele tenha introduzido essa crítica aos atos políticos e aos políticos. Isso é extremamente atual”, diz Bernardini.

Recentemente, o dramaturgo protagonizou uma cena curiosa na televisão italiana, quando a apresentadora de um programa de entretenimento o convidou para se juntar ao cantor pop Mika. Enquanto o inglês se virava no italiano, o dramaturgo, sem se preocupar com a letra da música, arriscava no canto à la gramelot. O resultado foi estranho, um pouco descompassado, mas os artistas se divertiram – e o público também. O momento que nos interessa, no entanto, vem logo a seguir, quando Mika observa em Fo “um dos maiores símbolos da liberdade – não só em sua obra, mas em sua própria vida”.

Nos anos 1990, o autor reconheceu que seu teatro estava mais calmo, ainda que longe do conformismo. Para Neyde Veneziano, trata-se de uma mudança de foco: “Antes ele era um cômico em revolta”, diz a diretora. “Hoje, seu texto é de amor, um abraço coral.” Mesmo que seja uma celebridade capaz de entreter a plateia, e que sua crítica não soe subversiva nem gere represálias como antigamente – a mais triste delas o estupro de Franca Rame, em 1973, que posteriormente seria tematizado pela atriz em monólogos sobre os direitos da mulher –, seu humor não se rendeu ao riso fácil: para o italiano, a boa comédia deve conhecer a tragédia, saber o que pobreza, desespero e injustiça significam, para contar sua história.

“A comicidade é um instrumento inteligentíssimo de quebra de barreiras. Serve para você refletir sobre o que e por que está rindo”, afirma Júlio Adrião, lembrando que a função do teatro é “fazer as pessoas se divertirem, mas também pensarem”. Dentro e fora dos palcos, Dario Fo uniu a reflexão ao riso popularesco e resgatou as tradições culturais e artísticas italianas no teatro moderno, chegando a empregar suas convicções em uma breve carreira política no ano de 2006. Nas eleições primárias para se candidatar à prefeitura de Milão, Fo obteve apenas 23,4% dos votos. Quem sabe os milaneses tenham preferido mantê-lo do outro lado do jogo, naquela que é sua melhor campanha.

Ilustração de Claudius para o livro Mistero Buffo, da SESI-SP Editora.

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