Ao pé da letra #0

Começo de Conversa

Esta é uma contribuição do SESI-SP ao esforço de valorização da língua portuguesa, hoje falada no mundo por mais de 280 milhões de pessoas. Claro que o nosso desejo é o de prestigiar a norma padrão, também chamada de culta. É a que se aplica nos exames oficiais e em concursos. Não somos contrários à linguagem popular, mas entendemos que ela possui seu campo limitado às regiões em que isso ocorre.

Começaremos abordando as modificaçõe impostas pelo atual Acordo Ortográfico idealizado pelos países lusófonos. Esta seção é interativa. Se você tiver alguma dúvida, envie a pergunta por meio de nosso correio eletrônico. Será respondida com a velocidade possível. Mãos à obra!

RIO+20

“A assembléia não gostou dos relatórios apresentados aos chefes de Estado presentes.”

Independentemente do teor do material produzido nesse encontro, nenhuma “assembléia” aprovaria qualquer trabalho.
Observe: não se admite mais o uso do acento nos ditongos abertos ei e oi das palavras paroxítonas, isto é, aquelas que têm o acento tônico na penúltima sílaba, logo, deve-se escrever assembleia.
Período correto: “A assembleia não gostou dos relatórios apresentados aos chefes de Estado.”

NADA BONITA

“A moça chamava atenção pela sua feiúra.”

Com certeza ela não era tão feia, o que chamou atenção foi o acento na palavra “feiúra”. No atual Acordo Ortográfico, nas palavras paroxítonas não se usa mais o acento no i e u tônicos, quando vierem depois de um ditongo – feiura.
Cuidado: se a palavra for oxítona e o i ou o u estiverem em posição final, podendo inclusive ser seguidos de s, o acento permanece. Exemplos: Piauí e tuiuiús.
Frase correta: “A moça chamava atenção pela sua feiura.”

LINDA VISÃO

“Os funcionários do Zôo Municipal crêem que o vôo das aves, ao cair da tarde, é uma cena deslumbrante.”

Não dá para acreditar, escrevendo: “zôo”, “crêem” e “vôo” com acento. Atenção: não se usa mais o acento nas palavras terminadas em eem e oo/oos – zoo, creem e voo são as formas certas.
Período correto: “Os funcionários do Zoo Municipal creem que o voo das aves, ao cair da tarde, é uma cena deslumbrante.”

ANIMAL DOMÉSTICO

“O gato de pêlo branco não pára de destruir o sofá da sala.”

Bem feito! Não há bichano que suporte ter “pêlo” e ver o acento na terceira pessoa do singular do verbo parar: “pára”. É importante saber: não se usa mais o acento diferencial em péla(s)/pela(s), pára/para, pólo(s)/polo(s) e pêra/pera.
Frase correta: “O gato de pelo branco não para de destruir o sofá da sala.”

APENAS UM LEMBRETE

Não se usa mais o trema, sinal que se colocava sobre a vogal u para indicar que ela era pronunciada nos grupos: gue, gui, que e qui. Exemplo: “As sequelas deixadas pelo uso do trema são frequentemente visíveis. Há pessoas que não aguentam escrever sem os dois pontinhos sobre o u. Agora, só se usa em nome próprio. Exemplo: Müller.”

AMIZADE INCONTESTE

“O amigo pode e sempre pôde contar com a minha lealdade.”

Perfeito! O acento diferencial do par pôde/pode permanece, porque pôde é a forma do passado do verbo poder (terceira pessoa do singular do pretérito do indicativo) e pode é a forma do presente do indicativo, na terceira pessoa do singular.

SEM AÇÚCAR

“Vou por açúcar no café por estar amargo.”

Assim, o café ficará amaríssimo! Continua o acento diferencial em pôr/por. Pôr (com acento) é verbo e por (sem acento) é preposição.
Período correto: “Vou pôr açúcar no café por estar amargo.”

INTERDIÇÃO OBRIGATÓRIA

“Este banheiro é antihigiênico para uso. Encontra-se interditado!”

Muito justo e não é só uma questão de limpeza, a palavra “antihigiênico” está escrita erradamente. Usa-se sempre o hífen diante de vocábulo iniciado por h: anti-higiênico.
Período correto: “Este banheiro é anti-higiênico para uso. Encontra-se interditado.”

PROBLEMA EDUCACIONAL

“O professor repreendeu o aluno com palavras ásperas. Isso é anti-educativo.”

Não há dúvida quanto à atitude do professor, a dúvida é em relação à escrita da palavra “anti-educativo”. Não se usa hífen quando o prefixo termina em vogal diferente da vogal 72 com que se inicia a segunda palavra – antieducativo.
Período correto: “O professor repreendeu o aluno com palavras ásperas. Isso é antieducativo.”

PROJETO INDEVIDO

“O ante-projeto apresentado não foi aceito por ser anti-pedagógico.”

De fato, o assunto é sério, mas a escrita errada das palavras “ante-projeto” e “anti-pedagógico” contribuiu para a rejeição. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por consoante diferente de r ou s – “anteprojeto” e “antipedagógico”.
Período correto: “O anteprojeto apresentado não foi aceito por ser antipedagógico.”

USO CONTROLADO

“Este antiinflamatório é excelente, mas há a necessidade de autoobservação quanto ao seu uso.”

É preciso muito cuidado no uso de remédios, mas também na forma de escrever. Quando o prefixo termina por vogal, usa-se hífen se o segundo elemento começar pela mesma vogal, logo anti-inflamatório e auto-observação.
Período correto: “Este anti-inflamatório é excelente, mas há a necessidade de auto-observação quanto ao seu uso.”

PRECONCEITO

“Geralmente uma pessoa anti-social e ultra-resistente não é bem aceita em qualquer comunidade.”

Nada mais justo, mas não escrito desse jeito. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal e a segunda palavra começa por r ou s – duplicam-se essas letras: antissocial e ultrarresistente.
Frase correta: “Geralmente uma pessoa antissocial e ultrarresistente não é bem-aceita em qualquer comunidade.”

ROMANTISMO

“Com o coração pulsando forte demonstrou, com sua declaração, ser superromântico.”

Nada “superromântico” grafado assim! Quando o prefixo termina por consoante e a segunda palavra começa por essa mesma consoante, o uso do hífen é obrigatório: super-romântico.
Período correto: “Com o coração pulsando forte demonstrou, com sua declaração, ser super-romântico.”

ADMINISTRAÇÃO BANCÁRIA

“A subregião sul do banco era controlada por um sub-gerente muito influente na cidade.”

Não há administração que dê certo escrevendo “subregião” e “sub-gerente” dessa forma. Observe: o prefixo sub só admite hífen quando o segundo elemento começar por r, h ou b. Nas demais situações não se usa o hífen: sub-região e subgerente.
Período correto: “A sub-região sul do banco era controlada por um subgerente muito influente na cidade.”

CULTURALMENTE…

“A cultura panamericana tem muita coisa em comum.”

É verdade, mas a palavra “panamericana” está errada. Usa-se o hífen com o prefixo pan diante de palavra iniciada por vogal, m e n – pan-americana.
Observação: essa regra também se aplica ao prefixo circum.
Frase correta: “A cultura pan-americana tem muita coisa em comum.”

A CRIANÇA DE HOJE

“A maioria das pessoas considera a meninada atual hiper-ativa.”

Além de achar essa ideia muito exagerada a palavra não é “hiper-ativa”, com hífen. Quando o prefixo termina com consoante, não se usa o hífen se a segunda palavra começar por vogal: hiperativa.
Frase correta: “A maioria das pessoas considera a meninada atual hiperativa.”

VOCÊ PRECISA SABER

Os prefixos re e co são exceções às regras, isto é, jamais se separam por hífen com a segunda palavra.
Exemplos: reeleição, reorganização, cooperação, coedição etc.

RECONHECIMENTO

“O ex-diretor, já aposentado, foi homenageado pelos professores, funcionários, alunos e ex-alunos.”

Muito justo e correto – o prefixo ex é sempre usado com hífen.
Observação: o mesmo acontece com os prefixos sem, além, aquém, pós, pré, pró e recém, isto é, sempre são separados do segundo elemento por um hífen.
Exemplos: sem-terra, além-mar, aquém-túmulo, pós-graduado, pré-vestibular, pró-ativo, recém-criado.

DÚVIDAS?

É natural que uma língua que dispõe de mais de 400 mil vocábulos registrados apresente dúvidas aos seus usuários. No caso, se você quiser, envie as suas perguntas para nosso endereço eletrônico a seguir, e teremos muito prazer em responder nas próximas seções: aniskier@ig.com.br

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Arnaldo Niskier

Arnaldo Niskier

Arnaldo Niskier é acadêmico correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e ocupa a cadeira 18 da Academia Brasileira de Letras. Atualmente, é Presidente do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa-Escola do Rio de Janeiro – CIEE Rio. Foi apresentador do programa Frente a Frente na Rede Vida de Televisão.

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