Ali

Era sábado e eles haviam acordado cedo. Uma expectativa silenciosa os movia, o encontro com a família há duzentos quilômetros da cidade onde residiam, algumas horas de viagem, cortando canaviais, montanhas, túneis, e, de repente, ao fim de uma vereda, Olha, olha lá, o sítio!

O homem, talvez porque era à casa de seu irmão que iam, experimentava uma alegria fresca, como o pão que sai do forno para a mesa. Modesto, ele, no entanto, queria tudo daquela manhã: a rodovia (e suas curvas imprevisíveis), a paisagem (e o sol parado acima dela), o céu (e todo o seu muito azul), a mulher e o filho (seus amores em marcha), as conversas no caminho, as coisas lá de trás, Você fechou todas as janelas?, e as lá da frente, Será que vai chover?, enquanto a vida viajava neles, a cumprir também o seu destino.

No carro, o vento vinha para todos, entrando rumoroso pelos vidros abertos, e cada um erguia na imaginação, com a matéria-prima de seu desejo, as cores e as formas desse encontro: o homem se via ao lado do irmão, girando os espetos, de olho na carne que crestava acima do carvão; a mulher, entre as mulheres, se punha a falar de seu fruto bendito e a ouvir a façanha do filho das outras; e o menino, o menino, quem sabe o que ele pensava? Pensava no primo e em seu cachorro com quem sempre se divertia, pensava na água transparente da piscina, no pomar que, da última vez, descobrira ser um mundo de cheiros, tão gostoso apanhá-los no ar.

E, ao mesmo tempo que pisavam, em devaneio, no futuro, para nele provar calmamente o que pensavam ser o seu gomo mais doce – a realidade depois confirmaria ou desmentiria seu sabor –, seguiam também ali, no presente de asfalto, em velocidade controlada, observando as margens da estrada, que eram o que eram, margens, se as observassem ou não. O que seria daquele trecho da rodovia sem eles? Para onde iria aquele sol, quando estivessem dormindo lá no sítio, o homem e a mulher em camas de solteiro encostadas, o menino no alto do beliche? O que seria de tudo, que somente existia, sem a presença humana?

Por vezes, sentiam, o homem mais do que todos – com as mãos no volante, a dirigir, naquele trecho, a sua vida e a deles –, que o tempo escorria ora lento, os quilômetros se repetindo (assim é quando se tem pressa de viver o que inevitavelmente virá), ora rápido, Tá vendo, filho?, É outra cidade!, tudo passando num segundo, e eles querendo esticá-lo, como elástico.

E, nesse ritmo, na variável percepção do movimento, eis que dele se contagiava o coração, compassivo, de um a um, até que, súbito, o sobressalto da alegria, que, crescendo lentamente, eclodiu, enfim, numa palavra, Chegamos!, sem revelar, no entanto, a contundência de sua força – no sorriso dos três é que a encontramos.

Com seus latidos, e girando o rabo como hélice, lá vem o cachorro, o primeiro a lhes dar as boas-vindas. Atrás dele, o garoto, saltitante, a acenar para o primo que lhe responde, também efusivo, a mão para fora do vidro, a felicidade lá dentro, segura. Os tios saem da casa, em seguida, a satisfação no jeito de observar o carro que estaciona sob a sombra do ipê, tentando distinguir em seu interior quem é quem, seus parentes.

Vieram os abraços, os beijos, contidos é verdade, eles se gostam sem exibições ostensivas de afeto, preferem o quieto contato das almas, e, então, ouviu-se um oi, outro, e outro, depois muitos como vai?, igualmente muitos tudo bem!, e vários venham, venham, entrem! Assim, na naturalidade dos reencontros, no exato minuto em que se concretizam, ainda sob a emoção de outra vez se depararem uns com os outros, foram se adaptando à nova pele do presente: os meninos já caminhavam pelo gramado, em progressivo reconhecimento, o cachorro a se entremear pelos seus passos; os adultos na mescla das falas, Fizeram boa viagem?, Fizemos, Que flores lindas!, São daqui mesmo, daquele canteiro ali, Quem quer café?, Eu quero, Eu também, Açúcar ou adoçante?, Adoçante, Açúcar, O quarto tá arrumado, é o mesmo que vocês dormiram da outra vez, Vou pegar as malas, Eu te ajudo, Não precisa, Precisa sim, O sítio tá mais bonito!, É a primavera, os donos lá orgulhosos de seu quinhão de natureza, os visitantes louvando a sua conquista e já a usufruindo, na sua primeira camada, a suave superfície.

As mulheres continuaram na cozinha, a contar uma a outra as suas novidades, às vezes por cima, às vezes descendo a detalhes, era o que a vida das duas pedia, nada de grande como o primeiro amor, uma gravidez, a morte de alguém. Os homens preferiram se sentar nas cadeiras de vime da varanda, onde o verde se exagerava nos vasos pelo chão ou suspensos na parede e, ao redor, os eucaliptos deixavam espaços, para se ver, entre eles, de um lado a piscina azul azul, e do outro o vale oscilante a se desdobrar longamente. De um irmão para o outro voavam uns assuntos comuns, Como andam as coisas?, E os negócios?, degraus para se chegar àquilo que não sabiam verbalizar, mas apenas sentir calados. E esse ir-e-vir de palavras, dos dois, repetia o dos pássaros lá, em ziguezague pelas árvores, rabiscando com a sua penugem colorida os vazios entre os galhos e voejando alto com seus desejos de céu.

Mas, se ali estavam, os pés na terra, no leve da conversa, logo seria a vez dos acontecimentos, porque próprios são da existência, as coisas são para acontecer… O primeiro fato – que iria mover outras palavras – veio com os dois meninos, eles emergindo do pomar, falantes, re-acostumados um ao outro, mais rápidos na aproximação e na entrega que os pais, mesmo sendo esses muito irmãos, A gente pode nadar?, Pode, mas agora?, É! Não é cedo demais, não? Não!, Tudo bem, podem ir!, Mas passem o protetor antes, hein!

Assim, de repente, um grito alegre, outro, mais forte, o menino e o primo correndo, ambos à beira do salto, mas já inteiramente dentro da alegria, e aí, quase simultâneos, dois chuás na piscina – e no olhar dos adultos, que vieram vê-los de perto e se respingaram de satisfação, eles sorriam também, entreolhando-se, os homens primeiro, e depois as mulheres, que saíram às pressas da cozinha atrás dos filhos, por um bom motivo dessa vez – crianças na água!

Outros gritos dos meninos, outros pulos na piscina espalharam uns comentários entre os adultos sobre as virtudes de seus pequenos, Ele adora nadar, parece um peixinho, O meu também, se eu deixar passa o dia inteiro na piscina, e as maravilhas da infância, nas quais, havia tempo, também tinham se molhado. As árvores, ao lado, e o céu, às alturas, os assistiam, sendo árvores e céu a existir unicamente, sem testemunhas.

Aí, veio vindo, ao longe, pela estrada de terra, o segundo fato, que logo estacionou à frente da casa, um velho amigo em sua caminhonete, ele e a esposa, sem filho algum, que esse jamais poderiam ter por um problema dela – cada um com seu corpo e, nele, a sua cota de sorte e azar. E, antes mesmo de se abraçarem, todos se saudaram, a buzina soou duas vezes lá perto do portão, uns acenos silenciosos responderam daqui, varanda da casa.

Com a chegada dos últimos convidados, o pequeno grupo estava completo, era hora de preparar o almoço. Os homens, reunidos, foram para o rancho, um a temperar a carne, outro a acender a churrasqueira, o terceiro já pegava na geladeira para si e para os demais uma cerveja, os meninos brincavam com a bola no raso da piscina, o cachorro latia para eles e raboabanava-se, feliz. No fundo da casa, as mulheres cuidavam dos complementos, essa lavava as folhas verdes para a salada, aquela fazia o molho vinagrete, a terceira controlava o arroz ao fogo, logo iriam se juntar aos maridos, também elas no desfrute daquele sábado de sol, de reencontro, de simples existência. A vida, despercebida, no seu fluir.

Não tardou, juntaram-se à sombra do rancho, de biquínis elas, de sunga eles, refrescando-se com os seus drinques à mão, ora um homem a pular na água e a se lembrar que também fora garoto, Iuuupi!, ora essa mulher a comentar com as outras o último capítulo da novela, Li na revista que ele vai morrer num acidente, Parece que já gravaram as cenas, Se o personagem tá com pouco ibope, tiram logo de circulação, e aí a primeira rodada de carne, Huumm, tá uma delícia, Pega, pega mais um pedaço, o vaivém dos assuntos, cortado aqui por um sorriso, lá por um olhar, e o silêncio…

Em torno da mesa abundante, conversavam e comiam – as crianças, pingando piscina, ali se encostavam, para beliscar o pão, ou pegar um copo de refrigerante –, todos em comunhão, esquecidos de outras fomes, maiores, e o tempo, devagarzinho, macerando os minutos, a envelhecer o dia.

Outras bandejas de carne, fumegante, foram servidas, Muito boa essa picanha, você tempera com quê?, e a cerveja, Ahhh, agora, sim, tá bem gelada!, e, então, o encontro ia se abrindo, feito uma flor, o dono da casa falava animadamente com a mulher do amigo, o amigo entre os meninos experimentava a condição provisória de pai que almejava ser, o irmão secava a louça que a cunhada lavava, enquanto sua esposa nadava solitária – e, de repente, já saía da água, como Vênus, o corpo bonito se remodelando aos olhos do amigo.

Continuaram naquele regozijo, que era bom estar entre pessoas queridas, sendo quem se é, no seu conjunto de vícios e virtudes, tanto as menores quanto os maiores, sem precisar dizer uns aos outros que se aceitavam, se compreendiam, se perdoavam.

E, na escrita de dias assim, de horas compartilhadas, chegaram ao ponto em que, invariavelmente, se dá uma dispersão: as crianças sumiram dentro da casa, o cachorro se espichou num canto, um dos homens voltou à churrasqueira para vigiar os espetos e lá permaneceu, quieto e distante dos demais, uma mulher desapareceu e retornou um minuto depois com um pote de sorvete, e aí, outra vez, eles se agruparam sob o rancho, a sobremesa os atraiu, outras conversas vieram, e, dali a pouco, acima delas, eis que pairaram umas nuvens.

Falaram de umas dificuldades financeiras, Os juros subiram de novo, o que é normal nesses e em outros tempos, de umas artes dos meninos, sempre a surpreender os pais com suas perguntas, Mãe, o que as árvores fazem à noite?, de umas reminiscências entre os amigos, Lembra daquele carnaval?, que iriam ganhar outras versões, mais ou menos fiéis à verdade – a memória reescreve os episódios com imprecisão –, falaram também de umas injustiças, uns temores, uns dramas alheios que abafavam, por um momento, os seus próprios. A vida, um aprender com os outros sobre si mesmo. Dividir aqueles momentos miúdos era, enfim, tudo o que tinham. E eles estavam tão entregues, que nem sentiam o quanto doía estarem vivos.

Assaram mais carne, comeram, e seguiram nos assuntos amenos, sem exigir nada um do outro, sem nenhuma urgência à vista. O homem, embalado pelo cansaço da viagem e a comida farta, deitou-se numa espreguiçadeira e adormeceu. O irmão e o amigo entraram na piscina com latas de cerveja na mão, e permaneceram no raso, junto aos meninos, bebericando ao sol. As mulheres estenderam toalhas no chão e ficaram a se bronzear, os maridos lá na água – e na conversa delas.

O homem despertou, de repente, com as risadas dos meninos. Sentou-se, esfregando os olhos, para ver de novo o mundo, inteiro no seu real. E, então, como se experimentasse um estado de pré-descoberta, que ia se expandir para, de fato, se tornar plena descoberta, ele sentiu que todos, ali, não apenas existiam naquele instante, mas eram, distraídos, as suas próprias vidas, umas diante das outras. E ele não queria fazer a descoberta, queria só vivê-la, vendo o que via – a sua mulher e o seu filho misturando a sua existência a dos outros; o irmão e a cunhada, generosos, com seu menino e seu cachorro; o amigo e a esposa, uma alegria revê-los, assim como as árvores ao vento e o sol cercado de céu. Ele só queria ver e sentir, sentir aquele silêncio que ecoava dentro dele, no único lugar que desejava estar, um lugar sem antes e sem depois: ali.

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João Anzanello Carrascoza

João Anzanello Carrascoza

João Anzanello Carrascoza nasceu em Cravinhos, São Paulo. Publicou os livros de contos Hotel solidão, O vaso azul, Dias tardes, Meu amigo João e Dias raros, dos quais foram selecionadas as histórias que compõem O volume do silêncio. Suas histórias foram traduzidas para diversos idiomas. Recebeu os prêmios Jabuti, APCA, FNLIJ e os internacionais Guimarães Rosa (Radio France) e White Ravens (International Youth Library Munich).

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