A história do figurino revisitada

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Figurinos originais utilizados no espetáculo Tristão e Isolda.

Os 50 anos do Teatro Popular do sesi-SP entram no universo dos figurinos e livro resgata importância da caracterização para a dramaturgia.

“É a máscara que esconde o indivíduo-ator. Protegido por ela, pode despir a alma até o último, o mais íntimo detalhe”. A descrição feita pelo ator, diretor e escritor russo Constantin Stanislavski (1863-1938) demonstra um pouco da enorme importância do figurino para a composição de personagens teatrais. Porque a caracterização cênica não apenas ajuda o espectador a mergulhar mais profundamente nas obras às quais assiste, mas também o artista a assumir com mais veracidade a nova vida que ganha nos palcos.

“É necessário ter noções de sociologia, história das civilizações, política, artes plásticas, cênicas, psicologia, moda, entre outros, além de ser competente como pesquisador, artista plástico e artesão”, afirma a autora do livro A formação profissional e a atração do figurino cênico, Ylara Hellmeister Pedrosa, sobre os requisitos necessários para o bom desempenho da profissão de figurinista.

É importante lembrar que a história do figurino cênico é anterior ao início do surgimento do teatro, ocorrido no século VI antes de Cristo. Tem-se conhecimento de sua utilização nas práticas de rituais da pré-história, quando, em atos teatrais, eram utilizadas peles e máscaras com a intenção de incorporar a força dos animais.
Em seus 50 anos de existência, o Teatro do SESI-SP foi o cenário para apresentação de centenas de figurinos, muitos deles históricos, componentes fundamentais de espetáculos que marcaram a trajetória do teatro nacional. Agora, eles são as peças centrais de dois projetos pioneiros no país.

Com o objetivo de resgatar essas verdadeiras relíquias, que contam boa parte da história da dramaturgia brasileira, o SESI-SP iniciou neste ano a identificação e a catalogação de um acervo que soma cerca de 4 mil figurinos, compostos de vestimentas e acessórios que transportaram, nas últimas décadas, o público às mais variadas épocas e aos mais variados lugares do mundo por meio de peças antológicas. O trabalho tem o intuito de preservar a memória do Teatro.

As etapas são identificação, catalogação, higienização e, quando necessário, recuperação das peças, que reúnem obras de alguns dos principais profissionais da área no país, como J.C. Serroni, Flávio Império e Ilo Krugli, de trabalhos que foram desenvolvidos em grandes espetáculos, dirigidos por nomes também consagrados, como Felipe Hirsch, Marco Antonio Braz e Miguel Falabella.

Outro diferencial do projeto é o fato de ele ser contínuo. Há alguns acervos importantes no país, como o do Theatro Municipal de São Paulo, que já está exposto ao público, mas nenhum deles é crescente. O espaço que abrigará a coleção, e que ainda não está definido, aumentará a cada peça representada no Teatro do SESI-SP, e assim estará em constante evolução. Para a preservação das características originais das peças, sejam vestimentas ou acessórios, é utilizada uma técnica especial de higienização.

Lançamento do livro

O trabalho de criação do acervo está sendo conduzido paralelamente a outro projeto, também em comemoração aos 50 anos de existência do Teatro SESI-SP. Sob coordenação do arquiteto, cenógrafo e figurinista J. C. Serroni, a SESI-SP Editora vai lançar um livro, no primeiro trimestre deste ano, que reunirá a história, além de imagens de 300 a 350 figurinos de 28 dos mais importantes espetáculos já apresentados no teatro.

Justamente em razão da publicação do livro, a triagem inicial está sendo feita com foco nessas peças previamente selecionadas. “O livro trará um resgate inédito da história do figurino teatral no Brasil”, comenta J. C. Serroni. “Estamos selecionando peças que compuseram espetáculos importantes e que renderam premiações renomadas para seus figurinistas”, conta Serroni.

Imagem da peça Tristão e Isolda, que marcou época também pelos figurinos que apresentou.

Entre as peças que serão representadas por seus figurinos na publicação estão Tristão e Isolda, de Richard Wagner, Maria Borralheira, de Augusto Pessôa, O Casamento Suspeitoso, de Ariano Suassuna, O Colecionador de Crepúsculos e Clarão nas Estrelas, ambas de Vladimir Capella.

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Serroni é considerado uma das principais referências da cenografia e figurino teatral no Brasil e em outros países. Acumula mais de 150 espetáculos adultos e infantis, e trabalhou durante anos com diretores como Antonio Abujamra e Antunes Filho. Em 2014, Serroni venceu o Prêmio Jabuti na categoria Artes e Fotografia pelo livro Cenografia brasileira: notas de um cenógrafo (Editora SESC), lançado em novembro de 2013.

Para ele, o livro poderá ajudar a mudar a percepção que o público tem da importância do figurino na dramaturgia. “Não importa o grau de sofisticação das vestimentas e acessórios, o figurino sempre tem um significado de extrema importância para a composição dos personagens e também para trazer o público para dentro da realidade do espetáculo”, comenta.

O cenógrafo ressalta, no entanto, que, nos últimos 30 anos, o tripé cenografia/figurino/iluminação passou a ser visto de maneira diferente pelo público. “Hoje o espectador já compreende melhor sua importância dentro da obra”, explica.

“Mas essa percepção ainda é mais voltada para a cenografia. O figurino tem que percorrer uma boa estrada para chegar lá”, afirma. Ele comenta que na Europa, onde as primeiras peças teatrais das quais se tem conhecimento já possuem mais de quinhentos anos, é diferente. “Eles têm uma tradição operística muito grande, o que contribui muito para essa relação que o público tem com o figurino”.

“Independentemente da simplicidade com que se apresentam as vestimentas de um personagem, há sempre um estudo aprofundado para se chegar àquela caracterização específica”, reforça Serroni.

O livro pretende fazer uma retrospectiva da evolução do figurino na dramaturgia nacional. “Será uma maneira de conferir mais visibilidade ao figurino e, ao mesmo tempo, proporcionar um rico material de estudo para pessoas interessadas em teatro e moda”.

Macunaíma, por Antunes Filho, foi um divisor de águas

Para o renomado figurinista brasileiro Fabio Namatame, que criou o figurino de inúmeras obras teatrais, como Carmen, Romeu e Julieta e Desmedeia, a adaptação da obra Macunaíma, de Mário de Andrade, feita na década de 70 pelo diretor Antunes Filho, foi um marco para o figurino teatral brasileiro. “O espetáculo percorreu vários países e foi a primeira vez que se investiu em um figurino genuinamente brasileiro, com elementos que remetiam à realidade de nosso país”, comenta.

Segundo ele, até então, os profissionais da área do país tinham os olhos muito voltados para tudo o que vinha de fora, especialmente do teatro europeu. Premiado mundialmente, o espetáculo de Antunes Filho pode ser considerado um divisor de águas para o figurino nacional, que passou a ser mais valorizado inclusive por aqui.

Namatame destaca novamente os anos 70 como uma época importante porque marcou o fim do auge do teatro político no país, com peças que sempre utilizaram um figurino com elementos muito neutros, ou praticamente inexistentes.

“Naquele conceito de teatro, a roupa não contava muito sobre o personagem”, diz. “Já nos anos 80, começou o teatro mais plástico, com trabalhos de Gerald Thomas e Gabriel Vilella, entre outros. O figurino assumiu então um papel extremamente importante na concepção das montagens”, afirma.

O figurinista considera a iniciativa do SESI-SP de criar um acervo crescente de figurinos utilizados no País de extrema importância para o resgate histórico da área. “O único acervo que temos hoje onde as peças estão devidamente catalogadas é o do Theatro Municipal de São Paulo”, afirma.

“Mesmo assim, desde que ele foi criado já houve muitas perdas, inclusive por um grande alagamento que atingiu peças de montagens muito importantes já realizadas no país”, afirma. “O figurino teatral brasileiro precisa ter sua memória resgatada e preservada”.

O figurino sob diversas perspectivas

“No teatro, o figurino tem uma função específica: a de contribuir para a elaboração do personagem pelo ator e constituir, também, um conjunto de formas e cores que intervêm no espaço do espetáculo e devem, portanto, integrar-se a ele”. Jean-Jacques Roubine, escritor francês, autor dos livros A arte do ator e A linguagem da encenação teatral.

“O coração do trabalho do figurinista é intensificar, através das possibilidades dramáticas da roupa, os efeitos almejados pelos atores, por meio da descrição da sua personalidade, condição social e desenvolvimento psicológico das personagens”. Michael Holt, escritor inglês, autor do livro Costume and Make-up.

“O figurino de uma personagem é apenas um flash de uma trajetória de vida que não vemos ser construída”. J. C. Serroni, cenógrafo e figurinista brasileiro.

“De pouco nos valerá que o autor ajunte detalhe sobre detalhe a respeito do seu personagem se, ao final, esse personagem não se configurou como um ser viável, crível, passível de se assenhorear de nossa imaginação e da nossa sede de verdade”. Renata Pallottini, dramaturga brasileira.

“O figurino é uma forma específica de ficção. Ele está a serviço de uma narrativa”. Emília Duncan, figurinista brasileira.

Fonte das frases: Artigo “A Criação do Figurino no Teatro”, de Renata Perito e Sandra Rech.

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