A Arte Contemporânea e suas diversas linguagens

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The Mamori Expedition, da belga Els Viaene, é uma instalação de madeira que simboliza o caminho que a artista seguiu durante uma expedição pela Floresta Amazônica, em exposição nesta 15a edição do File.

O uso de novas mídias nas obras artísticas cresce continuamente e acompanha o desenvolvimento de novas tecnologias. Apesar disso, grande parte das obras que usam linguagem eletrônica ainda se encontra marginalizada em grandes museus e galerias.

Muito antes do boom dos computadores pessoais, da internet e das redes sociais, ainda na década de 60, a parceria entre arte e tecnologia já ganhava forma entre os artistas contemporâneos. Foi exatamente quando eles começaram a questionar as mídias tradicionais de arte — como pintura e escultura — e a realizar trabalhos que, algum tempo depois, seriam chamados de instalações.

Hoje, as instalações configuram uma das mais relevantes tendências da atualidade. São manifestações artísticas que permitem uma grande interatividade com o público, em uma relação de “intimidade” que se fortalece na medida em que mexem com os sentidos de seus apreciadores e neles provocam experiências que vão de sensações agradáveis ao mais profundo incômodo.

Com o passar dos anos e com o desenvolvimento tecnológico contínuo, os artistas começaram a utilizar as combinações de várias linguagens disponíveis para surpreender, e envolver, de maneira mais eficaz seus públicos não apenas em instalações, mas também outras manifestações artísticas. Entre elas, vídeos, esculturas, performances, computação gráfica e, mais recentemente, a internet.

E divulgar essas manifestações artísticas que utilizam mídias eletrônicas é justamente o foco do File – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, realizado em São Paulo, que está em sua 15a edição e ocorre neste ano de 26 de agosto a 5 de outubro, e atrai um público maior a cada ano. No ano passado, cerca de 35 mil pessoas passaram pela galeria de arte do File. Para se ter uma ideia das inúmeras possibilidades de manifestações artísticas com o uso da tecnologia, em 2013, entre as obras expostas, estava o aplicativo de realidade aumentada para tablet ou celular, o Arart, dos artistas japoneses Takeshi Mukai, Kei Shiratori e Younghyo Bak, que possibilitou ao público modificar e transformar, de acordo com seu gosto, pinturas clássicas como Monalisa, de Leonardo da Vinci. Neste ano, são 28 instalações, de 12 países. Os visitantes podem, por exemplo, manipular os sons da Floresta Amazônica, por meio da réplica de um rio.

Obra simulacra, da polonesa Karina Smigla-Bobinski, em que você só consegue ver algo quando coloca lentes de aumento na frente das tevês danificadas.

Para o artista contemporâneo e organizador do File, Ricardo Barreto, apesar da evolução constante das linguagens tecnológicas entre os artistas da atualidade, o preconceito ainda é uma barreira para que as mídias eletrônicas sejam definitivamente integradas ao conceito de arte contemporânea em grandes museus e galerias.

“A vídeo-arte, por exemplo, ainda conseguiu ser absorvida em alguns desses espaços, mas as outras linguagens não. Infelizmente, a arte eletrônica começou a ficar marginal à arte contemporânea. Dificilmente há exposições em galerias e museus tradicionais, apenas em ambientes específicos para essa linguagem, como o File e outros festivais organizados em países europeus e no Japão”, comenta.

Segundo Barreto, um dos poucos espaços brasileiros nos quais a mídia eletrônica realmente faz parte do acervo, em igualdade com outras mais tradicionais, está a Casa Daros, localizada no Rio de Janeiro. “Mesmo em outros países, como os Estados Unidos, que estão mais avançados na questão da disseminação das mídias eletrônicas, ainda há pouca abertura”, comenta.

Com a intenção de divulgar as possibilidades ilimitadas de manifestações artísticas do nosso tempo, a SESI-SP Editora e o File lançaram, na abertura do evento, o livro Highlike, obra de 584 páginas que reúne o trabalho de 577 artistas de 35 países. É um verdadeiro anuário sobre arte e cultura contemporânea global.

A galerista Raquel Arnaud, uma das mais renomadas do Brasil, que recentemente comemorou quarenta anos de sua trajetória no cenário artístico nacional, defende que as novas tecnologias são, sim, reconhecidas como arte contemporânea. “O que importa na arte contemporânea é o processo de ruptura de linguagem e processos inovadores”, comenta.

“Para construir uma linguagem esteticamente forte e radical, pode-se, ou não, contar com novas tecnologias na elaboração e conceituação das obras”, acrescenta Raquel, que cita o videoartista norte-americano Bill Viola e o artista digital carioca Eduardo Kac entre os principais expoentes do uso da mídia eletrônica na arte contemporânea.

A curadora Ivana Bentes fez, em artigo publicado recentemente no site Arte e Tecnologia, uma reflexão ainda mais profunda sobre o papel da tecnologia nas artes contemporâneas. “Somos contemporâneos de um momento de reinvenção da relação arte-tecnologia, em que a hibridação entre arte, ciência e pensamento produz novos paradoxos e questões”, afirma. “Relação que não é nova, mas sem dúvida é problematizada de forma aguda no contexto atual, no qual a arte busca uma revitalização e encontra nas tecnologias emergentes um campo de experimentação”, complementa.

Ricardo Barreto destaca uma outra questão que, segundo ele, representa mais uma barreira para o reconhecimento da tecnologia com arte. “Já presenciei muitas situações nas quais os enfoques acadêmico e científico dessas obras que mesclam arte e tecnologia se sobrepõem ao seu aspecto artístico”, comenta. É preciso entender que, se há a construção de uma poética naquela obra, ela é arte contemporânea, sim”, defende.

Destaque do FILE Anima+, Europe in 8 bits é um documentário de 76 minutos que explora o mundo da chip music, um estilo musical que reaproveita aparelhos antigos de videogames e transforma-os em instrumentos para criar novas sonoridades. De Javier Polo / Turanga Films – Europe in 8 bits – Espanha

Livro interativo demonstra enorme dimensão de obras contemporâneas

Mostrar que existe muita arte eletrônica de alto nível e, mais do que isso, demonstrar que a abrangência da arte contemporânea é muito maior do que tudo aquilo que se expõe hoje em dia em museus e galerias do mundo todo. Com esse objetivo, os artistas Ricardo Barreto e a Paula Perissinotto criaram o site Highlike (http://highlike.org/), no qual passaram a reunir imagens de todos os tipos de manifestações artísticas imagináveis. O site já reúne mais de 15 mil obras de artistas nacionais e internacionais. “Pouca gente tem noção da quantidade de obras contemporâneas que são criadas atualmente. Isso se deve muito ao fato de o mercado ainda categorizar a arte por nichos, o que não permite que ela seja vista em sua totalidade”, comenta Barreto.

O nome “Highlike” vem da fusão das palavras highlight, que significa destaque em inglês, e like, em uma alusão à expressão tão utilizada atualmente nas redes sociais como aprovação de uma ideia ou notícia.

Barreto acredita no potencial do projeto, que integra o livro e o site, de contribuir para a disseminação dos artistas que trabalham com mídias eletrônicas. “Ainda há muito a se fazer para mudar essa questão da marginalização das mídias eletrônicas e a falta de conhecimento sobre a abrangência da arte mundial, e acredito que o livro pode ajudar a transformar um pouco esse cenário”, comenta.

Além de ser um material inédito, um dos diferenciais do livro é que todo o conteúdo está na nuvem. Cada uma das imagens de obras publicadas possui um QR (Quick Response) Code, que pode ser lido pelo celular ou tablet, e que leva diretamente à página do site Highlike, onde se encontram outras informações sobre aquela determinada obra, apresentadas em formatos como vídeos ou textos.

O livro Highlike, da coleção Exposições, já está à venda nas melhores livrarias.

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